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MAIS HELICÓPTEROS
e BARCOS
 
menos Tanques e Soldados

O acidente, na semana passada, com um helicóptero Sea King das Forças Armadas Canadianas pode ter consequências que nos devem interessar a todos. Por um lado chama a atenção para o envelhecimento destes aparelhos, que são essenciais para este país, por outro irá dar um argumento a favor daqueles, na sua maioria de extrema-direita, que querem gastar mais dinheiro naquilo que chamam a Defesa mas que, na prática, será envolver o Canadá nas guerras dos outros, especialmente nas dos americanos, à custa de todos nós, os contribuintes.

Para um país como o Canadá, rodeado por três mares - Atlântico, Pacífico e Árctico - helicópteros são extremamente importantes. Eles têm, fundamentalmente, duas missões, uma a de proteger a costa contra a intromissão de indesejáveis, desde imigrantes ilegais até criminosos, traficantes de drogas e os agora tão falados terroristas, a outra, para um país com uma costa tão vasta e um clima que, como todos sabemos é inclemente, é a de acudir àqueles que estão em perigo no mar. Esta última missão tem-se tornado mais importante, dado que, nos tempos presentes, muitos barcos que navegam nos mares pertencem, oficialmente, a países em que não existem regras de segurança, não se sabe ao certo quem são os donos e, muitos deles estão velhos e a cair aos bocados. Se um desses navios naufraga ou se escangalha, frente à costa canadiana, este país tem a obrigação legal e moral de os ir ajudar.

POLÍTICA ACIMA do BOM-SENSO

O último governo conservador do Sr. Brian Mulroney decidiu, e muito bem, que os helicópteros das Forças Armadas Canadianas, os "Sea Kings" estavam a envelhecer e necessitavam de ser substituídos, tendo sido escolhido um modelo chamado o "Cormorant" (o corvo marinho). Jean Chrétian, que estava nessa altura na oposição, prometera que, se fosse eleito, iria imediatamente cancelar o contrato feito por Brian Mulroney. Como é sabido, os conservadores foram derrotados e Chrétien, no que alguns dizem foi a única promessa que ele realmente cumpriu, cancelou o contrato, o que custou ao Canadá, isto é, a nós contribuintes, muitos milhares de dólares em indemnizações. Entretanto, os "Sea King" foram envelhecendo, o Canadá ficou sem helicópteros novos e, claro sem uns bons milhões de dólares pelas tais indemnizações por ter quebrado o contrato com a companhia que fazia os "Cormorant".

De notar que dos 41 Sea Kings, comprados em 1963, 12 caíram e ficaram destruidos, 31 sofreram danos sérios, mas foram reparados. Entretanto, 10 pessoas morreram em desastres - 2, em 1967, 4 em 1971 e 4 em 1994. Também 6 pessoas ficaram gravemente feridas, em acidentes com estes helicópteros.

Quanto ao governo do Sr. Chrétien, continua a adiar a decisão de comprar novos helicópteros até 2004 por que, ao que dizem as más línguas, o Primeiro-Ministro quer-se ir embora, antes da decisão formal, pois, ao que parece, o helicóptero escolhido por uma comissão de peritos será, nem mais nem menos, que o Cormorant, que já era o preferido pelo governo de Mulroney. É caso para dizer que, enquanto estes senhores fazem jogos políticos, o contribuinte paga, os pilotos dos helicópteros arriscam a sua vida e a nação não tem os aparelhos que precisa.

MAIS UM DESASTRE

Na semana passada, um helicóptero Sea King, ao levantar vôo dum barco de guerra canadiano, "o Iroquois, a caminho do Golfo Pérsico, caiu no convés. Felizmente, o helicóptero estava apenas a uma altura de 10 metros e só duas pessoas sofreram pequenos ferimentos. Calcule-se o que teria acontecido se o helicóptero, em vez de estar a tão pequena altura, tivesse caído duma maior, provocando grande estragos no barco e na sua tripulação.

MAIS DINHEIRO?

Conforme informei os meus leitores, na semana passada o governo - isto é, nós todo os contribuintes - vai gastar mais 800 milhões com as Forças Armadas, o que para os partidos mais à direita no Parlamento, o Conservador e, especialmente, a Aliança, é muito pouco. Estes senhores e senhoras querem que gastemos ainda mais com as Forças Armadas que muitos deles gostariam de ver envolvidas, ou melhor, absorvidas pelas Americanas e com elas a combater por esse mundo fora, desde o Afeganistão ao Iraque e aos pobres desgraçados a quem o Sr. Bush irá atacar no futuro. A propósito, os Estados Unidos também querem que o Canadá gaste mais dinheiro com as Forças Armadas, a ponto do embaixador deste país ter tido o desplante de o afirmar em público, em Otava.

Na realidade, para um país que está rodeado de mar, e tem apenas um vizinho, os Estados Unidos, que nos podem invadir quando o desejarem, o Canadá já gasta demais com a Defesa. Entre os 19 países da NATO (OTAN) estamos em sexto lugar nas despesas militarres.

Mais despesas com a chamada defesa, para fazer a vontade aos americanos irá comprometer a soberania nacional canadiana, uma vez que muito do equipamento seria o que os militares chamam de "interoperable", isto é, funcionaria em conjunto com o dos americanos. Deste modo. estaríamos a gastar dinheiro para ter uma força armada que apenas trabalharia no interesse dos Estados Unidos.

Como é óbvio, o dinheiro não chega para tudo e o que se gasta com mísseis ou aviões vai fazer falta na Saúde, Serviços sociais e Educação.

O Canadá tem em todo o mundo a reputação duma nação pacífica, que criou os capacetes azuis - os soldados da paz das Nações Unidas - uma ideia do Primeiro-Ministro Lester Pearson, que lhe valeu o Prémio Nobel da Paz.

Quanto ideia de que um grande exército nos iria porteger mais dum ataque terrorista, não faz sentido porque tanques ou mísseis não poderão evitar que um suicida carregado de bombas destrua um avião ou um edifício.

Também a identificação do Canadá como aliado dos americanos, especialmente numa altura em que o Sr. Bush quer matar e humilhar os árabes e outros povos muçulmanos, só irá expôr o Canadá ao ódio dos terroristas, dos tarados e fundamentalistas, que há por esse mundo.

O QUE NECESSITAMOS

Do que o Canadá precisa fundamentalmente é de defender e proteger a sua costa e os mares limítrofes. Para isso necessitamos de barcos, aviões ligeiros e, especialmente helicópteros, e não tanques, mísseis ou caças F-18 que custam biliões de dólares.

Quanto a pessoal militar, o Canadá precisa dum pequeno contingente para resolver alguns problemas internos que possam surgir e outra para servir com as Nações Unidas.
Pessoalmente, e esta é a opinião da maioria dos canadianos conforme mostram as sondagens da opinião pública, acho que não precisamos de gastar mais com as Forças Armadas, elas já são uma grande despesa para um país sem inimigos e que, pelo menos na minha opinião e na de muita gente ilustre, não se deve meter nas guerras dos outros, especialmente dos Estados Unidos. Afinal, se são eles que se metem nos sarilhos, também deverão ser eles a resolvê-los.

Quanto aos helicópteros, é necessário que o Sr. Chrétien ponha os interesses da nação acima do seu orgulho, e tome medidas para que se comprem novos aparelhos para substituir os decrépitos Sea King. Se para arranjar dinheiro para isso for preciso mandar uma dúzia de generais para a reforma e vender os tanques, mísseis e os caças F-18 para a sucata, tem o meu acordo e o de muita gente neste país, nomeadamente intelectuais e dirigentes religiosos.

Precisamos de máquinas que salvem vidas, como os helicópteros e não para matar pessoas como os F-18. Afinal, trata-se do nosso dinheiro e temos o direito de ter uma opinião sobre a forma como ele é gasto.



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Toronto,
3/Março/2003
Edição 770

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira


 

 

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