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SANTA BÁRBARA NAS ILHAS (4)

 

O saudoso e bom amigo José Rodrigues Ribeiro (1919-2001), mais conhecido por Rei Bori na imprensa regional, no seu preciosíssimo "Dicionário Toponímico, Ecológico, Religioso & Social da Ilha Terceira", publicado em 1998, indica na página 121 que a Ermida de Santa Bárbara foi fundada pelo Dr. Padre Valentim Borges de Freitas, em 1963, na área da freguesia da Fonte do Bastardo, concelho da Praia da Vitória.

Transcrevi esta notícia na crónica anterior, embora precavido pela suspeita de não corresponder totalmente á veracidade dos factos. Se por um lado o Padre Valentim nasceu aos 2 d'Abril de 1930 na Fonte do Bastardo, cuja igreja paroquial é dedicada a Santa Bárbara, e por outro lado exerceu as funções da pároco nessa freguesia entre Julho de 1964 até Maio de 1968, todavia nunca fundou qualquer ermida a Santa Bárbara!

Primeiramente, no vasto número de ermidas mencionadas pelo Padre Alfredo Lucas (1911-1980) no seu livro As Ermidas da Ilha Terceira, publicado em 1976, não encontrei sinal de tal ermida. Igualmente em "A Ilha de Jesus Cristo" (1982) de Guido de Monterey. Finalmente, Pedro de Merelim (1913-2001) fala extensivamente àcerca da freguesia e igreja da Fonte do Bastardo, mas nem uma palavra àcerca da er-mida.(Freguesias da Praia, Volume I, Páginas 157-184, Edição 1982).

A conclusão, por conseguinte, é bem simples: Na ilha Terceira, ou mais precisamente em Fonte Bastardo, nunca existiu nem existe uma ermida de Santa Bárbara! Cheguei mesmo a telefonar p'rá Praia da Vitoria e falei com o Padre Cândido Botelho Falcão, que me confirmou (sem sombras de dúvidas) a inexistência daquela ermida. Aliás, desde 1968 até 1970, o Padre Valentim foi vigário-cooperador na Matriz da Praia, onde já se encontrava o Padre Falcão desde 1955.

Pessoalmente, conheci o Valentim como colega e amigo. Tinha uma memória prodigiosa, mas nunca se creditou como fundador de ermidas. Lembro-me ainda da sua ordenação sacerdotal em Angra, no já distante ano de 1954, e da sua partida p'ra Roma, formando-se em Teologia Dogmático e Direito Canónico na Universidade Gregoriana. De regresso aos Açores, leccionou no Seminário d'Angra entre 1958 a 1964.

Espírito irrequieto, por natureza, era dotado duma bondade e simpatia magnânimas, que impressionavam toda gente. Em 1970 deixou os Açores e partíu p'ra Angola, onde permaneceu quarto anos. Depois dum breve "interregno"entre os Açores e Brasil, chegou á Califorlândia em 1976, trabalhando nas paróquias portuguesas das Cinco Chagas (San José), Santa Isabel (Sacramento) e N. S. da Assunção (Turlock), partindo p'ró Canadá em 1987, onde estabeleceu o Centro Português de N. S. de Fátima em Calgary. A ele se deve, ainda, a construção do salão e igreja da Senhora de Fátima em Calgary, cuja inauguração ocorreu em 1995. Aos 16 de Maio de 1996, porém, falecia contando apenas 66 anos d'idade!

Em conversa com o Padre Manuel Bernardo Soares, colega de curso do Valentim, tive a oportunidade de partilhar a recordação destas e doutras "lembranças"...

Entretanto, prosseguindo na nossa "excursão" ao Pico, vamos encontrar Santa Bárbara com igreja paroquial na freguesia das Ribeiras, já referida nas Saudades de Gaspar Frutuoso e no Espelho Cristalinode Diogo das Chagas. No sítio da actual igreja, houve uma outra (primitiva) do século XVI, que seria demolida p'ra se levantar a existente.

Feita no mais puro estilo moderno, tem uma capela-mór singular, de forma arredondada, sete janelas rasgadas á volta. Possui também duas capelas laterais construídas no mesmo, jeito do capela-mór. Durante as obras de construção nos anos 1960, servíu de paroquial a Ermida de N. S. do Socorro, erecta aos tempos do Povoamento. (Guido de Monterey,Ilha do Pico, 1983).

Passando agora ao Faial, Santa Bárbara convida-nos a ir visitá-la na sua atractiva ermida, situada nas Angústias da Horta, e bem assim a sua igreja paroquial na freguesia dos Cedros ... ambas seculares e presentemente renovadas.

Assim, a ermida é uma das mais antigas da ilha. Foi fundada por Pero Pasteleiro e esposa Madalena da Rosa, pouco mais ou menos antes de 1500. Derrubada por um abalo de terra em 1850, foi logo reedificada tal como está, a expensas dalguns devotos. (Marcelino Lima, Anais do Mu-nicípio da Horta, Pág. 261, Ed. 194).

Gaspar Frutuoso, que presumívelmente visitou o Faial no terceiro quartel do século XVI, refere que a paroquial de santa Bárbara, na freguesia dos Cedros, " é uma igreja de três naves sobre cinco colunas, com uma capela ao lado esquerdo." Marcelino Lima, nos supracitados Anais, acrescenta este curioso pormenor: "Uma das naves é mais baixa que as outras. Dizem uns que foi nave adicionada p'ra aumentar o templo; outros opinam ser nave que ficou do primitivo templo, quando substituído (não se sabe quand ) pelo actual."

Guido de Monterey, por seu turno, informa-nos que a pri-mitiva igreja de Santa Bárbara, (uma artística construção do século XVI em estilo gótico), foi arruínada por um incêndio aos 20 de Novembro de 1971. A igreja actual, inaugurado aos 3 de julho de 1977, apresenta um formato deveras original, ou seja, um autêntico quadrado em cujo centro se situa o altar, sem capela-mór nem altares laterais, mas apenas peanhas com algumas imagens.

Mais ainda nos diz Guido de Monterey: "O primitivo templo dos Cedros teve as suas obras iniciadas em 1592 e concluídas em 1596. A torre, erecta ao mesmo tempo, foi apeada, executando-se uma nova (a existente actualmente) que, ilesa, escapou do citado incêndio. (Faial, Açores, Rodapé da página 70 Edição 1983).

É com nostalgia que, neste momento, recordo a minha passagem pelo Faial em 1999. aquando do Primeiro Encontro de Orgãos da Comunicação Social, patrocinado pela Direcção Regional das Comunidades Açorianas. Lembro-me de ter partido do Aeroporto Internacional de San Francisco numa quinta-feira de manhã (2 de Dezembro), e estar já de regresso á Califorlândia numa segunda-feira á noite (6 de Dezembro). E relembro, sobretudo, que o aparelho da SATA, que nos transportou do Faial p'rá Terceira, seria o mesmo que, uma semana depois, viria a despenhar-se e embater trágicamente algures em S. Jorge, causando a morte a todos os passageiros e tripulantes...

Na Graciosa (por acaso era esse o nome do avião) não existem freguesias, igrejas ou ermidas em honra de santa Bárbara. Tão pouco no Corvo, que consta tão somente duma povoação que é, ao mesmo tempo, freguesia, vila e con-celho... e respectiva padroeira Nossa Senhora dos Milagres. Dizem que me Santa Cruz das Flores a sua primeira igreja foi uma ermida de Santa Bárbara, "que se fez da banda do sul, numa Lomba, e que pelo tempo se veio a destruír esta ermida." Mas Frei Diogo das Chagas, que era natural da ilha, desmente categóricamente:''Da qual e de sua destruição eu nunca ouvi falar senão agora, e assim que tudo isto tenho por ridículo." (espelho Cristalino , Pág. 535, Ed. 1989).

A Terceira veste seda;
S. Miguel de chamalote;
O Pico, pano de terra;
O Faial, de toda sorte.

Ó meu amor pequenino,
Tu não vás á Graciosa;
O canal é muito largo,
A barra muito perigosa.



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Toronto,
3/Março/2003
Edição 770
ANO XXIII

 
      Por: Ferreira Moreno


 

 

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