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Pequenas Tragédias do Inverno
HUMOR FRIORENTO
 

Ontem, conforme tem acontecido nas últimas semanas e parece ir prolongarse para lá da Primavera, esteve um dia frio como o raio.

Enquanto esperava o “Streetcar da College, perto do Maple Leaf Gardens, ia observando o drama duma pobre pomba que, junto à curva do passeio, com água lamacenta a cobrir-lhe os tornozelos, ia lutando pela vida. Depenicava a ave um pedaço de pão que era uma papa cinzenta.

Como o “lame duck” dos transportes públicos, o “Triste car”, no dizer da nossa gente, tardasse em aparecer, o monte de pessoas havia crescido. Ao ver desembocar uma dessas “relíquias do passado” na curva e que vinha cheia até à porta, esquecendo a pomba e o seu drama, segurando a minha bengala, tal como o magote à minha volta, lancei-me à abordagem.

É comum os “drivers” dos streetcars (sem esforço da parte deles) fecharem as portas deixando parte de nós atrás.

Era uma senhora que conduzia o carro (uma mulher de “guts”) e, como se o dito “car” tivesse o espaço dum porta-aviões, queria arrumar toda a gente. Chegou a pôr-se de pé para dar uma olhadela em profundidade... “Move back! The further you can. There are places in the back”, ia dizendo.

Aos solavancos, entalado nos sacos de costas dos passageiros, lá fui esgatanhando até que um empurrão, seguido de desiquilíbriio, atirou comigo para o colo duma jovem, sentada na linha dos bancos individuais. Tal ocorrência não é frequente e, apesar da escolha que o acaso fizera para mim, não ser nada desagradável, senti-me embaraçado.

Ao ver-me de bengala, a jovem que não pretendia carregar ao colo um matolão como eu, com um sorriso aceitando as minhas desculpas, deu-me o lugar, descalçando assim aquela bota inconfortável.

Em boa parte a culpada destes acidentes é a mochila ou “back pack”, conforme é mais conhecida aqui - e raras são hoje as pessoas que, imitando os caracóis, não trazem a vivenda às costas!.... Ali carregam tudo. Os pertences da casa, roupas de agasalho, comida, “toileteries”, livros e, claro, a inseparável garrafinha de água! Um viver portátil que relembra o dos ciganos.

Já em casa, veio-me à ideia a paródia do meu incidente e, tentanto dar-lhe a forma escrita, pensei: “Quem sabe se esta epidemia do saco nasceu do facto de sermos antípodas* com os Australianos?

Lá para essas bandas onde vivem os marsupiais**, os cangurus são mais favorecidos do que os homens, pois vieram já dotados com sacos de pele bem resistentes e sem correias onde transportam os filhos (as fêmeas, claro). Que me conste esses animais saltitantes não incomodam ninguém, pois não usam os transportes públicos.

ll>* Antípodas (opostos) do grego - povos que, geograficamente (em opostos lugares) têm os pés onde nós temos os nossos - isto para os sapateiros que tenham de tirar medidas para sapatos deve dar grande confusão...

** Cangurus - marsupiais do continente australiano que, sendo mamíferos, dão à luz os filhos imaturos, acabando estes a sua gestação dentro desses sacos que também os protegem no seu tempo infantil.



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Toronto,
10/Março/2003
Edição 771

ANO XXIII

    Por - F. Feliciano de Melo
   

 

 

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