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Bandeira branca
Guerra e carnaval têm tudo a ver. Em ambos os casos, só terá sucesso aquele que estiver com o diabo no couro.

O Reino de Momo foi celebrado sob as mais densas nuvens. A ameaça inquietante, dos Estados Unidos em deflagrar guerra contra o Iraque a qualquer momento tirou, em parte, o suposto brilho desta festa brasileira mundana. Aliás, guerra e carnaval têm tudo a ver. Em ambos os casos, só terá sucesso aquele que estiver com o diabo no couro. Isto é, "do jeito que o diabo gosta" diz o adágio popular.

Falando de guerra o que se poderia dizer aqui, que alguém já não tenha dito. Provavelmente a melhor definição sobre a guerra é nos dada por Karl Von Clausewitz (1780-1831), segundo a qual "a guerra não passa da continuação da política por outros meios". Clausewitz diz, metaforicamente falando, que a guerra é comparada: na filosofia política, a um jogo de estratégia (como o xadrez); na filosofia escatológica, a uma missão ou ao desfecho de um drama; na filosofia cataclísmica, a uma explosão ou a uma epidemia.

Há fortes argumentos sociais contra a guerra. A defesa pela paz mundial dos pacifistas são as mais diversas possíveis, dizem eles: Não é a melhor maneira de solucionar disputas humanas. Um rio de sangue humano tem sido deixado no séqüito das guerras, e no curso da história. Males de todos os tipos resultam da guerra; a fome, a crueldade e a morte.

É verdade! Só durante a Segunda Guerra Mundial, houve um total de mais de 30 milhões de soldados mortos, não se incluindo aí os mais de 20 milhões de civis mortos.

Ora, se sabemos de antemão os efeitos nefandos das guerras, pergunta-se por que fazê-las? Por que existem as guerras entre as nações? Quais são os interesses em fazer guerras? As guerras são necessárias?

Já nos tempos de República de Platão, pessoas que pensavam reconheciam que o desejo pelo luxo era a base da guerra. Platão escreveu: "Não precisamos dizer ainda se a guerra faz o bem ou o mal, mas somente que descobrimos sua origem nos desejos (pelas riquezas) que são a fonte mais frutífera dos males, tanto para os indivíduos quanto para os estados... Todas as guerras são travadas por amor à obtenção do dinheiro". São Tiago, Bispo da igreja primitiva em Jerusalém, em sua epístola, corroborando com o pensamento platônico, diz: "De onde procedem guerras e contendas, que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais, e nada tendes; matais e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras"

Os muitos males da guerra são bem conhecidos, e não é necessário alongar-nos sobre o assunto aqui.

O concomitante da guerra é morte e a destruição. A fome a peste freqüentemente resultam da guerra também. Talvez não haja maneira de estimar a tristeza, a dor, e até mesmo a crueldade e a tortura em função da guerra.

Se não bastassem as mazelas usualmente vinculadas à guerra, ainda surge a esperteza de alguns líderes políticos com suas especulações econômicas. Agora mesmo, ao sinal do presidente Bush em atacar o Iraque, o chefe da Casa Civil do então líder trabalhista e defensor dos pobres e oprimidos, Lula, senhor José Dirceu, tentando justificar os cortes feitos pelo seu governo que retiram da área social cerca de R$ 5 bilhões, saiu-se com essa: "O país (Brasil) está preparado para a possibilidade de guerra e que, nessa hipótese, não haveria mais cortes". É obvio que quem vai pagar parte da conta advinda da suposta guerra entre EUA e Iraque somos nós os povos do mundo inteiro, notadamente, os que vivemos sob o imperialismo norte-americano. Afinal, a conta sobra sempre para quem está na sapata (base) da pirâmide social.

Para que mais guerras? Pergunta um patrício, do alto da sua sapiência cabocla. Não basta a fome que mata aos montões e essa misteriosa doença desconhecida de nome AIDS "síndrome de imunidade deficiente adquirida" que se tornou um, dentre outros, componente grave dos desastres que afligem o mundo? Pois bem, é nesse clima mundial de agonia e desespero que milhares de brasileiros viveram o reino de Momo, em plena folia, e só pararam na "quarta-feira, ingrata, de cinza".

O carnaval hoje no Brasil, envolve grandes negócios e altos consumos que vão desde as drogas indistintamente ao gigantesco empreendimento de produção de camisinhas. Os meios de comunicação no Brasil divulgam, distribuem e incentivam o uso de preservativos(camisinhas) a medida é polêmica. A igreja católica, por exemplo, é contra a distribuição por achar que é um incentivo a mais a prostituição. Outros setores da sociedade radicalizam ao afirmarem que: Quem quiser transar com segurança que compre a sua própria "camisinha". O certo é que a incidência de AIDS após o carnaval deve aumentar grandemente. Mas, o bom senso pede que providências sejam tomadas com o uso de "camisinhas", pois esta doença fatal já deixa uma trilha espantosa de morte. Na África de hoje a AIDS deixou de ser uma epidemia, pois se tornou uma pandemia. Isto quer dizer que a epidemia tornou-se incontrolável, uma praga assoladora de âmbito global. Instituições que pesquisam o grande mal do presente século, dizem numa projeção otimista, que pelo ano 2010 o número total de casos pode ultrapassar 40 milhões de homens, mulheres e crianças infectadas com AIDS.

Outro fator gritante na festa de momo brasileira é que os governos estaduais e municipais falidos subsidiam parte das despesas das pequenas e grandes escolas de samba. Ai deles se não o fizerem! Serão taxados de anticulturais e outros adjetivos não publicáveis. "É de fazer chorar..."

O carnaval é uma guerra. Seria bom que fosse somente uma guerra competitiva, do melhor samba-enredo, da melhor porta-bandeira, da melhor bateria, dos melhores adereços, enfim. Mas não é! O carnaval há muito deixou de ser uma festa folclórica para ser o que é hoje, uma grande e nefasta orgia que infelicita muitos adolescentes e jovens nos quadrantes da nação brasileira.

Num mundo assim mutável, imprevisível, cheio de contradição e freqüentemente destrutivo, cai bem a velha marchinha carnavalesca: "Bandeira branca...eu peço paz."

* Paulo J. Rafael é jornalista, professor universitário e doutorando em Ciências Políticas e Administração Pública pela AWU- American World University of Iow



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Toronto,
10/Março/2003
Edição 771

ANO XXIII

   
   
    * Paulo J. Rafael
   Direto do Brasil
   

 

 

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