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FINALMENTE DESCOBRI UM!
 
Algumas reflexões sobre a guerra que, em breve o Sr. Bush e o seu "impedido" Tony Blair, irão desencadear sobre o pobre povo do Iraque

Até agora ainda não tinha descoberto um português, com excepção do Primeiro-Ministro de Portugal Durão Barroso, que fosse a favor do ataque ao Iraque pelas forças Armadas americanas e britânicas. Finalmente, um leitor, ao que me diz, assíduo, escreveu-me a apresentar argumentos a favor de semelhante acto de pirataria internacioal, que levou um membro do Parlamento inglês a preconizar, no caso da invasão se concretizar, que o líder do seu partido, o Sr. Blair, deveria ser, não só demitido da sua posição de Primeiro-Ministro, mas enviado ao Tribunal Internacional de Haia para ser julgado como um criminoso de guerra.

Poderia dizer ao meu leitor que talvez nunca, na História da Humanidade, tenha existido um movimento que tivesse unido tanta gente, em todos os países do mundo, com a mesma opinião. Começando pelos líderes, seguindo com os artistas, intelectuais, religiosos e outras pessoas notáveis e famosas, pode-se dizer que desde o Papa a Nelson Mandela, passando por alguns destacados políticos nos Estados Unidos como o ex-Presidente Carter e o senador Kennedy, muitos se opõem a esta guerra. Sondagens da opinião pública, feitas em todos os continentes, incluindo Portugal, Espanha, Itália e Grã-Bretanha, mostram que uma maioria esmagadora da população do mundo se opõe à guerra. O mesmo se passa no Canadá, em que mais de 70% da população é contra o ataque ao Iraque. Interessante de notar que até nos Estados Unidos, apesar duma constante lavagem ao cérebro feita através dos media - e diziam eles mal do "Pravda" e outros meios de informação nos tempos da União Soviética - cada vez mais americanos, estão em desacordo com o ataque ao Iraque.

Vejamos, pois, alguns dos argumentos do meu leitor que, pelos vistos, suporta a afirmação do Sr.Bush e seus ajudantes.

DESOBEDECENDO ÀS NAÇÕES UNIDAS

Um dos argumentos usados pelos Estados Unidos, como uma desculpa para invadirem o Iraque, é que Saddam Hussein, não obedece às decisões das Nações Unidas no que respeita a se desarmar e que, portanto, deveria ser atacado. Se não fosse trágica, esta seria uma afirmação ridícula e quenos faria rir a todos.

Um estudo apresentado pela CBC (radiodifusão nacional do Canadá) mostrou que 88 decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas foram desrespeitadas, sendo mais de 50 delas por Israel, que não quer abandonar os territórios ocupados na Palestina. Outros que desobedeceram às determinações das Nações Unidas foram a Turquia no caso do tratamento da minoria Curda, a Arménia pela ocupação de parte do Azerbeijão, a Indonésia pela invasão de Timor, Marrocos pela invasão do território Saharui (Oeste do Sahara) e, claro, os Estados Unidos.

De destacar que todos estes países são aliados dos Estados Unidos. É caso para dizer, quando é que os americanos vão bombardear e invadir Israel que, por sinal, tem pelo menos uma "arma de destruição em massa", a bomba atómica e, ao que se suspeita, armas químicas e biológicas.

Vendo-se isolados, os Estados Unidos estão a tentar convencer as nações pobres, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, tais como Angola, Guiné, Camarões, Chile, Paquistão e México. Para isso estão a ameaçá-los com sanções económicas e a oferecer-lhes biliões para lhes comprar o voto. Também, segundo informação obtida por um jornal inglês, os Estados Unidos estão a fazer escutas telefónicas e a usar outros métodos de espionagem para vigiar os delegados desses países às Nações Unidas. Calcule-se o que diriam os Media se o Iraque fizesse o mesmo...

O IRAQUE É UM PERIGO

O Iraque, um país pobre, que está, desde a derrota que se seguiu à guerra do Koweit, reduzido a um terço do seu território, pois, os terços Norte e Sul estão no que se chama "non fly zone",áreas em que os aviões do Iraque não podem voar. Essas áreas estão controladas por aviões militares americanos e britânicos que, frequentemente, bombardeiam as Forças Armadas do Iraque as quais não podem entrar nessas áreas. Por exemplo, no norte do país, os Curdos estabeleceram, em território do Iraque, um estado praticamente independente, que tem um Parlamento, hospitais e até uma Universidade. De notar que um dos grupos que actua no Norte, sob a protecção das Forças Armadas americanas, está, ao que parece, pelo menos ideologicamente, ligado ao grupo terrorista de Bin Laden, o que já serviu de justificação ao Secretário de Estado Americano, Collin Powel, para afirmar que o presente governo do Iraque era um aliado dos responsáveis pelo ataque às torres gémeas de Nova Iorque e ao Pentágono em 11 de Setembro de 2001. Como diz o nosso povo, é preciso ter descaramento!
O Iraque tem hoje um pequeno número de tanques e aviões militares antiquados, muitos deles já fora de serviço, uma vez que, devido ao bloqueio dos últimos 12 anos que se seguiu à guerra do Koweit, não têm recebido peças e materiais para fazer reparações. Quanto às famigeradas armas , nucleares, biológicas e químicas, apesar de dezenas de inspectores, nada foi encontrado. Interessante que, enquanto o Sr. Powell vai para as Nações Unidas dizer que sabe que o Iraque tem essas armas todas, ele nunca foi capaz de dizer aos inspectores, aonde elas estão.

Quanto às fotografias que este senhor mostrou, todos os sítios apresentados que eram supostos ser fábricas de armamento proibido, quando foram visitadas pelos inspectores, estavam vazias e abandonadas há vários anos. Quanto aos documentos apresentados a provar que o Iraque estava a comprar urânio para fazer bombas, eram, segundo a investigação feita pelos próprios inspectores, completamente falsos. Também um dos relatórios escritos pelos Serviços de Segurança britânicos, apresentado por Tony Blair, descrevendo as Forças Armadas do Iraque, era uma cópia, palavra por palavra, duma tese de doutoramento apresentada a uma Universidade inglesa há 12 anos. A aldrabice, descoberta por um professor universitário, era tão óbvia que até copiaram os erros ortográficos que estavam no documento original. É trágico que nações sejam destruidas e milhares de inocentes venham a morrer por causa de aldrabices como estas.

É caso para dizer que se o Sr. Collin Powel fosse como o Pinóquio, que cada vez que dizia uma mentira lhe crescia o nariz, pareceria já um elefante.

Entretanto, enquanto os americanos gastam 14 biliões de dólares para colocar um exército à porta do Iraque, a Coreia do Norte reactivou as suas centrais nucleares e têm, ao que parece, a bomba atómica. Também têm estado a fazer testes com os seus mísseis que são capazes de atingir o Japão e muitos países da Ásia, o que é um pouco mais do que os 150 Km autorizados aos do Iraque.

Como dizia um telespectador da CBC, se o Iraque exportasse, em vez de petróleo, couves, os americanos não se importavam com a sua "ameaça".

ATAQUES PREVENTIVOS?

O governo americano, apesar da fraqueza do Iraque, um país com 20 milhões de habitantes, reduzido a controlar um terço do seu território e sem quaisquer armas modernas - até os mísseis que tinham foram destruidos porque, segundo os americanos, podiam atingir alvos a 180 quilómetros, em vez dos 150 estabelecidos pelas Nações Unidas - continua a invocar o argumento de que tem que atacar o Iraque, antes que este ataque os Estados Unidos!

Segundo as regras das Nações Unidas, a guerra só é autorizada em defesa própria ou se uma invasão está iminente. Uma vez que o Iraque não tem tropas às portas dos Estados Unidos, nem foguetões, mísseis ou aviões para lá chegar, não há justificação para o ataque.

A propósito, o Iraque, com 300.000 soldados americanos, armados até aos dentes à sua porta, tanques, aviões, barcos e mísseis nas suas fronteiras e aviões americanos e britânicos já a bombardear partes dos seu território é que tinha, segundo a lei internacional, o direito de atacar as forças invasoras que estão na sua fronteira! Também é altura das Nações Unidas passarem uma moção a condenar os Estados Unidos e os seus cúmplices e enviar a esse país inspectores à procura de armas nucleares, biológicas e químicas.

UM DITADOR TERRÍVEL

Claro que o Sr, Saddam Hussein não é boa prenda. Trata-se dum ditador sanguinário que tem oprimido o seu povo e atacado dois vizinhos, o Irão e o Koweit. Porém, nos últimos cinquenta anos, dezenas de ditadores, tão maus ou piores do que Saddam Hussein, alguns deles colocados no poder pelos Estados Unidos, como foi Pinochet, no Chile, ou Suharto, na Indonésia, têm existido por esse mundo fora. No momento presente, existem ditaduras sanguinárias em todo o mundo, muitas delas apoiadas pelos Estados Unidos, como a Arábia Saudita.

Se compararmos este país e outros Estados do Golfo Pérsico, onde as mulheres não podem guiar, votar, ir ao banco, ou desempenhar qualquer cargo político, com o Iraque, pode-se dizer que o Sr. Saddam Hussein, face aos líderes desses países, é um democrata.

Quanto ao famoso incidente que os Srs. Bush, Powel e companhia estão sempre a mencionar, em que uma vila habitada por Curdos teve a maioria da população chacinada, por gases tóxicos, ao que parece, segundo a opinião dum agente da CIA, e que publicou um livro sobre o assunto, esse crime foi cometido pelas Forças Armadas do Irão. A propósito, o material usado pelo Iraque para a guerra química e biológica contra o Irão foi fornecido por empresas americanas e inglesas. Durante os nove anos que essa guerra durou, o governo dos Estados Unidos nada fez quanto a ela, e ainda recentemente a CBC mostrava, numa filmagem antiga, o Sr. Runsfeld, uma das pessoas mais importantes no gabinete de Bush, em amável conversa com Saddam Hussein. Nessa altura, quando o ditador do Iraque estava em guerra com o Irão, os governantes americanos não se ofendiam com o uso dos gases tóxicos, na guerra química.

QUEM VAI SOFRER

Ainda se as tropas americanas entrassem no Iraque e lutassem com o exército do Sr. Hussein fora das cidades, era caso para dizer que era uma injustiça, uma guerra ilegal e imoral, mas que, no meio de tantas coisas semelhantes por esse mundo fora, poderia ser esquecida.

Todos sabemos que, à semelhança do que sucedeu na antiga Jugoslávia e no Afeganistão, as Forças americanas e Inglesas irão bombardear cidades, vilas, pontes e aquilo que desejarem. Muitos dos objectivos atingidos são aquilo que a máquina de propaganda americana chama "colateral damage" (destruição colateral), isto é, as bombas não acertam no lugar para onde vão, e isso acontece em mais de 30% dos casos - e caiem em vilas, escolas, hospitais e outras áreas onde estão civis. A precisão e o cuidado dos bombardeiros americanos é bem conhecida no Canadá, pois 4 soldados em serviço no Afeganistão, foram mortos por uma bomba, lançada por um avião dos Estados Unidos.

CONCLUINDO

Uma guerra no Iraque irá custar milhares de vidas inocentes, que morrerão, não só devido aos efeitos directos das balas, bombas e mísseis, mas também às doenças, fome e privações, causadas pela guerra.

O que é também trágico, nesta corrida desenfreada para atacar o Iraque, é o facto que o Sr. Bin Laden e outros fanáticos e terroristas semelhantes devem estar contentes com a situação. Por um lado, vêem-se livres de Saddam Hussein de quem eles não gostam, por outro, quanto mais muçulmanos forem chacinados, expulsos das suas terras e humilhados, maior ódio haverá contra a América e as nações ocidentais e, portanto, será mais fácil de recrutar suicidas, bombistas e aderentes à sua ideologia.

O deputado trabalhista inglês que dizia que o seu líder e Primeiro-Ministro Tony Blair, se participasse na guerra do Iraque, deveria ser julgado pelo Tribunal Internacional de Haia como um criminoso de guerra, estava absolutamente certo.

É triste que, numa sociedade que se intitula de civilizada, se vá provocar uma guerra, que irá matar e fazer sofrer milhares de inocentes, especialmente crianças.

Será que os Srs. Bush e Blair e seus cúmplices não têm consciência?

E intitulam-se eles cristãos...



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Toronto,
17/Março/2003
Edição 772

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira


 

 

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