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BOMBARDEANDO SADDAM HUSSEIN
 
Será que as bombas estão a cair em cima dele ou do povo do Iraque?

Embora condenada pela esmagadora maioria da população do mundo, pelos líderes das principais religiões mundiais, desde o Papa aos dirigentes budistas, protestantes e muçulmanos, rejeitada por pensadores, artistas, cientistas, escritores em todas as nações do mundo, incluindo os Estados Unidos, o Sr. George Bush e o seu cúmplice Tony Blair começaram a agressão contra o povo do Iraque que, além de suportar há 24 anos um ditador como Saddam Hussein, esteve sujeito, nos últimos 12 anos, às sanções económicas mais cruéis, que proibiram a importação de certos químicos essenciais para a produção de medicamentos e à purificação das águas do que resultou a morte de dezenas de milhar de ciranças inocentes, segundo os relatórios das Nações Unidas e de várias organizações internacionais de Saúde.

Apesar das ameaças e tentativas de suborno, feitas pelos Estados Unidos, apenas cerca de um quinto dos 180 governos existentes no mundo apoiaram esta agressão armada, moral e legalmente injustificável.

Quanto ao governo canadiano, o seu Primeiro-Ministro Jean Chrétien e o Parlamento canadiano, apesar dos esforços da extrema-direita e de grande parte dos media, dominados pelos grandes interesses financeiros, rejeitaram categoricamente a participação do Canadá na invasão do Iraque.

Diga-se de passagem que as sondagens da opinião pública mostram que a população do Canadá, à semelhança da de todos os países da Europa, incluindo a Grã-Bretanha, Espanha, Itália e Portugal são contra a guerra contra o Iraque.

Estamos agora a ser sujeitos, neste país e em todo o mundo, a uma ofensiva de guerra psicológica, em que a propaganda do governo americano e dos seus admiradores, muitas vezes os homens da alta finança, proprietários dos media, tentam fazer-nos aceitar o acto repugnante de atacar um país e, portanto, de expôr o seu povo à destruição que a guerra produz.

UMA OUTRA GUERRA

Winston Churchill, ele próprio um mestre da propaganda política, disse que a primeira das vítimas da guerra era a Verdade. Queria ele dizer que, uma vez que um conflito armado começa, as partes envolvidas começam a usar todo o género de mentiras e, o que é ainda pior, meias-verdades.

Também o escritor inglês George Orwell, famoso pelos seus livros em que atacava os sistemas ditatoriais, na sua obra "1984", uma crítica ao fascismo e ao líder soviético Joseph Stalin, ao falar duma sociedade do futuro, desumana e ditatorial, descreve um governo em que existia um Ministério da Informação que deturpava os factos, usando uma linguagem chamada o "newspeak" (nova linguagem) que mudava as palavras a fim de ocultar ou deturpar os factos.

Nos últimos anos, o exército americano, a CIA e os media daquele país, que hoje parece o português nos tempos de Salazar, incapaz de criticar o governo, tem também produzido o seu "newspeak". Por exemplo, a "invasão" do Iraque é a "libertação" desse país, e menciona-se a toda a hora o nome de Saddam Hussein, como se se tratasse apenas de atacar um homem e não invadir e destruir uma nação que, além do ditador que se menciona a toda a hora, tem civis, velhos, mulheres e crianças. Na realidade não é um ataque ao Sr. Hussein, um ditador quase tão cruel como os governantes da Arábia Saudita, e de tantos outros déspotas que, nos últimos anos têm aparecido por esse mundo fora, a maioria deles suportados pelo governo dos Estados Unidos, mas a uma nação, chamada Iraque.

Uma das palavras criadas para nos fazer aceitar os horrores da guerra foram as chamadas "smart bombs" (bombas inteligentes). A propaganda, durante a guerra do Golfo, há 12 anos, inventou essa palavra para as bombas guiadas, que iriam atingir o alvo e não causar estragos nas zonas vizinhas. Assim, a bomba contra um quartel ou outra base militar atingiria só esse alvo e deixaria os edifícios civis e os que os habitavam intactos. Esta lavagem ao cérebro era acompanhada por imagens na televisão, imitando os jogos de computador, em que se via a "bomba inteligente" a atingir o alvo. Claro que não mostravam os corpos despedaçados, sem cabeça, pernas ou braços, ou os que ficavam aleijados para toda a vida. No entanto, o pior é que, comprovando o ditado que meia verdade é pior que uma mentira, dois factos muito importantes eram ocultados ao público. Em primeiro lugar, em sítios como o Kosovo, as tais "smart bombs" eram apenas 10% das lançadas, a maioria era das antigas, que caíam mais ou menos ao acaso, causando a destruição de edifícios sem utilidade militar, e matando e ferindo civis, entre os quais mulheres e crianças.

Porém, a característica mais sinistra das "bombas inteligentes" é que elas não eram tão "smart" como pareciam. Em cada 10, umas 3 ou 4 não acertam no alvo, o que quer dizer que vão cair em qualquer sítio, incluindo escolas, hospitais e habitações civis. Por exemplo, uma dessas bombas, que não era tão inteligente como parecia, lançada dum avião americano, durante o bombardeamento da capital do Iraque, há doze anos, caiu num abrigo aéreo, cheio de civis, na sua maioria mulheres e crianças, e matou mais de 400. A propósito, esta é a versão oficial, porque há também quem diga, ou seria propaganda do lado do Iraque, que a bomba foi lançada, baseada em informação errada, obtida pela espionagem americana, que informou de que se tratava dum centro de comando militar. Seja como for, dezenas de inocentes foram mortos. Desta maneira, quando o leitor vir, na próxima vez, na televisão, a imagem duma bomba a atingir o alvo, imitando um jogo de computadores, e não se esqueça das que não acertaram no alvo e cairam em cima dalguns inocentes e que mesmo aquelas imagens que parecem a dum passatempo electrónico correspondem a seres humanos a ficar despedaçados e queimados vivos.

Uma outra expressão, criada pelos responsáveis em nos fazer as lavagens ao cérebro, é "colateral damage" (estrago colateral), aplicado às bombas que atingem os civis, e a que já acima fiz referência. Em vez de se dizer que caíram por engano ou por que queriam aterrorizar a população civil, usam estas palavras bonitas.

Outra expressão, e esta criada há poucos dias pelos militares americanos, é para a descrição dos bombardeamentos ao Iraque que estão planeados e que serão os maiores até agora infligidos a uma população, excepto quando das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, por sinal também lançadas pelos Estados Unidos. Essa expressão para descrever os próximos bombardeamentos que irão espalhar a destuição, incêndios e morte em áreas habitadas por civis, a uma escala nunca vista, foi baptizada pelos peritos da guerra psicológica como "uma acção" de shock and awe" (para chocar e espantar), em vez dum nome que possa descrever o horror dum bombardeamento, utilizando uma quantidade de bombas nunca até hoje usado.

Para essa tal campanha de destruição em massa, baptizada com a expressão benigna de "shock and awe", os Estados Unidos criaram uma bomba monstruosa, pesando mais duma tonelada, capaz de matar e destruir mais do que qualquer outra até hoje construida. Calcule-se como lhe chamaram: "destruidora", "mata-tudo", "monstro" ou qualquer outro nome que venha a reflectir o poder destrutivo de semelhante bomba? Os peritos da lavagem ao cérebro, que nos querem fazer aceitar a guerra, baptizaram-na de "mother of all bombs". Uma expressão simpática e benigna para uma máquina de matar.

A propósito, as armas químicas, nucleares e biológicas que o Iraque teria e que nunca foram descobertas pelos inspectores das Nações Unidas, ou os satélites espias dos Estados Unidos, que são capazes, lá do espaço, de ler a matrícula dum automóvel, eram "armas de destruição em massa", enquanto os mesmos armamentos, na posse dos Estados Unidos, Israel, Paquistão, Grã-Bretanha e tantos outros, são apenas designados pelos seus nomes como "armas nucleares".

BOMBARDEANDO SADDAM

O ataque ao Iraque começou na quinta-feira passada, com dezenas de mísseis "Tomahawk" e bombas lançadas por aviões F-117 sobre a cidade de Bagdad, capital do Iraque. Os "media", seguindo a informação fornecida pelas Forças Armadas americanas, divulgaram que se tratava dum "ataque a Saddam" e que estavam a tentar atingir o ditador do Iraque e os seus ministros. Custa um pouco a acreditar que, baseado no que se tem passado, que as bombas e os mísseis fossem tão "smarts" que chegassem a Bagdad, entrassem pela janela dum edifício, descessem as escadas para o abrigo subterrâneo de Saddam e seus ministros e fossem matá-los sem atingir mais ninguém. Bombas e mísseis, lançados sobre uma cidade causam mortos e feridos, muitos deles, entre a população civil.

A propósito, os mesmos meios de informação, ou melhor "desinformação", declararam que se tratava dum ataque para "decapitar" o governo do Iraque, em vez de explicar que os queriam assassinar.

PAGAM OS INOCENTES

O uso da maior e mais mortífera Força Armada do mundo para atacar um país pobre, com uma população de pouco mais de 20 milhões, que há mais de vinte anos tem-se visto envolvida pelos seus líderes em guerras, sanções económicas e miséria, irá com certeza atingir muitos civis, mulheres, crianças e tantos outros que não têm a culpa das loucuras e megalomania de Saddam Hussein.

Ao atacar o Iraque, George Bush, outro megalómano, e expondo a população civil aos horrores da guerra, "assume uma grave responsabilidade perante Deus, a sua consciência e a História", como disse o Papa João Paulo II. Nenhuma propaganda ou "lavagem ao cérebro", praticada pelo governo americano, ou pelos media controlados por aqueles que suportam a agressão contra o povo do Iraque, poderá minimizar este acto ilegal e imoral, levado a cabo pelo Sr. Bush e os seus cúmplices. Quem está a ser bombardeado não é o ditador Saddam Hussein, mas o povo mártir do Iraque.



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Toronto,
24/Março/2003
Edição 773

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira


 

 

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