LEIA
 » S.A.R.S. -
   UMA DOENÇA NOVA
 » DRAMA NA ILHA
   DE SAN NICOLÁS
 » O Passageiro
   Clandestino
 » Lidereiros com bisua
 » EM OFF
 » DOLOROSAMENTE
    PORTUGUÊS
 » A Minha Nota
 » CRÓNICA PICOENSE
 » INVENTOR MOSTRA
   ''PALINHA MÁGICA''
 » Edições Anteriores
 
S.A.R.S. - UMA DOENÇA NOVA
 
Há trinta anos que oiço, com frequência, o boato, pelos vistos bastante aceite nesta terra, de que "vem aí uma doença nova", que é muito séria e perigosa. Desta vez não se trata dum boato. Temos realmente uma doença nova e séria.

Esta é uma das tais semanas em que tenho o problema de querer abordar dois ou três assuntos que me parecem importantes, tendo que escolher apenas um, uma vez que, não sendo jornalista profissional, não dispendo o tempo que eu desejaria a escrever no jornal.

Aproveitando aquilo a que se chama em inglês contemporâneo a "window of opportunity" (tempo oportuno), eu tinha planeado escrever sobre o Conselho das Comunidades pela oportunidade de me pronunciar à sexta-feira num jornal que será impresso na segunda-feira sobre o assunto, antes de saírem os resultados das eleições. Este desejo era ainda mais motivado por uma carta dum leitor desconhecido que, pelos vistos, não percebeu nada do que eu tinha escrito, neste jornal, sobre o assunto. As piadas de mau gosto, obviamente não me atingiram, porém, fico triste quando as pessoas não conseguem perceber o que eu quero dizer.

Também outro assunto para hoje seria o "orçamento-espectáculo", apresentado pelo governo Conservador do Ontário, não no lugar devido, o Parlamento, mas perante um grupo de convidados em Brampton e para as câmaras de televisão. Será que os conservadores pensam, que já todos temos o cérebro tão atrofiado pela televisão, que nada somos capazes de perceber se não for fornecido pela "stupid box" (caixa de estupidez)? Não posso, porém, deixar de mencionar que este orçamento, feito pelos vistos mais para a propaganda eleitoral do que como administração do dinheiro do Estado, que é como quem diz de todos nós, não agradou, nem ao jornal conservador Globe and Mail, que ficou espantado com as manigâncias nele contidas, como essa de colocar nas Receitas verbas que, possivelmente, virão a ser recebidas, no próximo ano, do governo federal, e possíveis lucros da venda, também no futuro, de bens do governo, isto é, do povo.

O que virá a seguir?... Julgamentos, enterros, casamentos ou debates parlamentares, feitos nos estúdio da televisão?

Voltando ao nosso assunto do dia, tentarei informar os leitores sobre esta doença realmente nova e bastante séria que está neste momento a atingir, pelo menos 15 países, sendo um deles aquele em que vivemos, o Canadá, ainda por cima na região de Toronto.

Tentarei responder a algumas perguntas que me têm feito sobre o assunto, embora gostasse, em primeiro lugar, de colocar as coisas em perspectiva.

NÃO É UMA CALAMIDADE

Primeiro, teremos de reconhecer que, embora se trate dum problema sério, que mereceu e muito bem a atenção das autoridades de Saúde Pública, não se trata, pelo menos por enquanto, duma calamidade como as que existiram no passado. Por exemplo, a peste negra que lavrou na Europa, no século XV, durou vinte anos e matou três quartos da população. Também, em tempos mais recentes, a epidemia da gripe, chamada o Spanish flu (Gripe espanhola), que apareceu nos anos 1918 e 1919, logo a seguir à I Guerra Mundial, matou, no Canadá, 50.000 pessoas e 20 milhões em todo o mundo. Neste momento existem 35 casos confirmados de SARS, em Toronto, dos quais morreram 3 pessoas, e ainda possivelmente 12 na British Columbia.

Ao que parece, a doença já foi reconhecida em 15 países e, até ao momento que escrevo, estão identificados 1.408 casos com 53 mortos. Não há dúvida de que se trata duma razão para nos preocuparmos, mas ainda estamos muito longe de atingir a proporção das epidemias do passado.

Quanto à informação que irei apresentar, uma vez que ainda não existem livros sobre o assunto, é baseada numa circular aos médicos, enviada pelo Ministério da Saúde e assinada pelo Chief Medical Officer (Delegado de Saúde) da Província do Ontário, Dr. Collin D'Cunha, e uma circular para o pessoal da University Health Network, da autoria do Director da Divisão de doenças infecciosas, Dr. James Burton.

COMEÇANDO PELO NOME

S.A.R.S. são as iniciais de "severe acute respiratory syndrome" o que se poderá traduzir, em português, por sindroma (um conjunto de sintomas) respiratório agudo e severo ou sério. A propósito já foi traduzido em português como pneumonia atípica. Pneumonia atípica é uma doença que já é conhecida, há dezenas de anos, enquanto SARS foi descoberta há poucas semanas. Realmente o SARS pertence ao grupo das pneumonias atípicas, mas o A significa Acute (agudo).

COMO COMEÇOU?

Na opinião dos epidemologistas a doença começou na província chinesa de Guangdong. Parece que um médico, professor universitário, o Dr. Liu Jianlun, que tinha estado a tratar doentes com SARS nessa província chinesa, esteve hospedado no hotel Metrópole em Hong-Kong aonde infectou seis pessoas que levaram a doença para o Vietname, Singapura e Canadá. Por sua vez, estas pessoas infectadas passaram a doença a outras com quem viajaram e hoje há casos em vários países, incluindo os Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha. Que eu saiba, ainda não chegou a Portugal.

Ao que parece, um casal idoso, que viajou de Hong-Kong para Toronto, trouxe a doença para este país. Eles eram dois residentes de Toronto, a Sra. Kwan Suichu e seu marido, que tinham ido a Hong-Kong visitar o filho que vive nessa cidade. Na realidade, não precisavam de se alojar no hotel e poderiam ter ficado em casa de seu filho. Infelizmente, ela tinha recebido uma oferta duma agência de viagens para uma estadia no hotel Metrópole. Aí ela e seu marido foram infectados pelo Dr. Liu Jianlun de que resultou a sua morte, poucos dias depois de regressar a Toronto. Entretanto, o seu filho Tsé Chi Kai, que vive na América, sua mulher e três filhos que estavam em Toronto de visita, foram infectados. Pouco depois o Sr. Tsé Chi Kai morria no Scarborough Grace Hospital. Uma semana mais tarde, um doente, que tinha estado no mesmo quarto, falecia.

No mesmo dia em que o Sr. Tsé Chi Kai morria em Toronto, um outro hóspede do hotel Metrópole, o comerciante Johnny Cheng falecia em Hong-Kong, depois de ter visitado Hanói, no Vietname, aonde infectou o pessoal do hospital em que fora admitido e, voltando à China, contagiou mais uma dezena de pessoas.

Um dos doentes deste hospital foi transferido para a unidade de cuidados intensivos do Mount Sinai Hospital, que, como é sabido, é um hospital da Baixa de Toronto, tendo infectado mais doentes, o pessoal médico e doutros serviços.

Na véspera de escrever este artigo, o York Central Hospital foi encerrado por nele terem sido diagnosticados 4 casos de SARS.

Neste momento, as autoridades de Saúde Pública estão a mandar todas as pessoas que visitaram o Scarborough Grace Hospital, depois de 16 de Março, a ficar de quarentena nas suas próprias casas, a usar máscaras e a separar roupas, talheres e outros utensílios dos dos seus familiares. Esta quarentena, que é voluntária, durará 10 dias, que é o tempo máximo de incubação da doença, isto é, desde que uma pessoa é infectada até que a doença se manifesta. Presentemente estão em casa, em quarentena, milhares de pessoas que trabalham no Mount Sinai, Scarborough Grace, York Central e muitos outras expostas infecção, incluindo 70 médicos.

COMO SE TRANSMITE

Neste momento, a única certeza é que a doença é contagiosa, isto é, passa dumas pessoas para as outras. Parece que o micróbio, ainda desconhecido, é transmitido por "close contact" (contacto próximo). Seria necessário estar a cerca de 1 ou 2 metros da pessoa para ser infectado. Possivelmente o micróbio seria transportado pela saliva e outras secreções nasais, quando se tosse ou espirra, e ficaria nos objectos e roupas. Quando alguém mexe nos objectos infectados e depois toca na sua boca, nariz ou olhos, a doença seria transmitida.

Pensa-se que uma pessoa que está no mesmo quarto, mas afastado mais de dois metros dum doente com SARS, não será infectado. Um cientista disse que se um doente com SARS estiver numa escada rolante, a pessoa atrás e à frente dele poderão ser infectados, mas não as outras.

QUAL É O MICRÓBIO?

Neste momento há dezenas de cientistas, em todo o mundo, a estudar o assunto. Parece ser um vírus, semelhante ao que produz a constipação, embora outros pensem que pertence ao grupo que produz o sarampo. Em termos práticos, pode-se afirmar apenas que se trata dum organismo que passa de pessoa para pessoa, mas que, por enquanto, é desconhecido. Quem sabe, talvez quando este artigo tiver chegado às mãos do leitor, já tenha sido descoberto o micróbio que causa o SARS. Claro que, entre descobrir-se o micróbio e a cura da doença ou uma vacina podem decorrer muitos anos.

COMO SE TRATA?

Por enquanto, não se conhece tratamento. No Canadá têm sido usados vários antibióticos e certos medicamentos para o vírus da SIDA como o Ribavirin, mas não se sabe se os doentes que escapam se puseram bons devido ao tratamento ou por que as defesas naturais do corpo venceram o micróbio.

Uma boa notícia é que os que sobrevivem ficam, ao que parece, completamente curados e, talvez, vacinados contra a doença. Uma má notícia é que, à semelhança do tal professor de medicina que trouxe a doença da provínica de Guangdong para Hong-Kong, morre-se com SARS.

Os números presentes dão uma mortalidade de 4%, mas, como tudo o que tem que ver com esta doença, nada é definitivo.

Embora não exista, pelo que se sabe, um antibiótico que mate o o micróbio do SARS, oxigénio, respiradores artificiais, fluidos intravenosos e outras medidas poderão ajudar o doente a resistir à doença e a sobreviver.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS?

É importante que não se estabeleça o pânico e que as pessoas não pensem que, se espirrarem, têm SARS. Devo dizer que os meus doentes se têm comportado muito bem e não vi ainda sinal de pânico entre os que visitam o meu consultório.

O principal sintoma é uma febre elevada, de mais de 38º centígrados ou 100.4 Fareneight que aparece subitamente, acompanhada por tosse e dificuldades em respirar.

Calculo que poucos dos meus leitores terão visitado, recentemente, a província chinesa de Guangdong, Hong-Kong, ou Hanói no Vietname mas, se o fizeram, terão de ter mais cuidado com estes sintomas, pois poderiam estar expostos ao vírus. Pessoalmente visitei esses lugares, mas, felizmente, foi em Dezembro do ano passado e o período de incubação da doença é de menos de 10 dias.

E SE TIVER SARS?

Suponhamos que o leitor ou alguém junto a si começa, subitamente, com febre acima de 38º C e sem poder respirar. Aconselho-o a não ir ao seu médico. Ele não tem possibilidades de o tratar e o doente poderá infectar os outros que estão na sala de espera. O seu médico de família também não poderá mandar-lhe fazer exames de sangue, espectoração ou radiografias necessários porque os laboratórios e serviços de radiologia não estão equipados para lidar com casos de SARS. Ainda ontem recebi uma circular para os médicos, escrita pelo director dum dos maiores laboratórios de Toronto, o qual serve a maioria dos consultórios de Toronto e Missisauga, recomendando que não lhes sejam enviados doentes que tenham sintomas sugerindo o diagnóstico de SARS.

A pessoa suspeita de ter esta doença ou os seus familiares poderão contactar o seu médico de família pelo telefone e ele poderá tomar as medidas necessárias, tais como chamar uma ambulância e enviar o doente para uma emergência equipada para lidar com esta doença. No caso de não poder ser contactado o médico de família, os serviços de Saúde Pública de Toronto têm um Telefone para aconselhar as pessoas com possível infecção pelo SARS, ou que tenham estado em contacto com a doença. O número é 416-338-7600 e ainda o Grátis1-866-797-0000 ou a website: www.health.gov.on.ca

Também, existe uma clínica aberta 24 horas por dia no Women's College Hospital, situado na Greenville St., que é próximo à College Street, entre a University Ave e a Bay Street.

PRECAUÇÕES?

Não há razão para começarmos a andar de máscara ou a não sairmos de casa. O leitor tem, possivelmente, mais possibilidades de ser atropelado do que de apanhar SARS. Claro que devemos usar o bom-senso e, como diz um perito nestas doenças, o Dr. Bhagirath Singh, devemos evitar visitar pessoas com febres elevadas ou outras doenças respiratórias.

Quanto àqueles que irão,estar expostos `infecção, como sejam os familairres dos doentes, deverão usar máscaras, luvas e batas. A propósito, as máscaras vulgares não são suficientes. As apropriadas são chamadas "TB masks N 95", que são as que se usam para a tuberculose. Essas máscaras deverão ser mudadas duas vezes ao dia. Uma medida de protecção importante, não só contra o SARS, mas todas as infecções respiratórias, como gripe e constipação é lavar as mãos, cuidadosa e frequentemente.

CONCLUINDO

Desta vez, temos mesmo uma doença, nova e realmente séria. Não há, porém razões para pânico, tanto mais que o número de pessoaa atingidas é relativamente pequeno e, pelo menos até à altura em que estou a escrever, não está a aumentar.

Para colocar as coisas em perspectiva, deveremos comparar o número de doentes e de mortes, devido a esta doença, com o número de vítimas de desastres de automóveis nesta província.

Enfim, há razões para estarmos atentos ao que se passa, mas não para estarmos assustados. Afinal, morre muito mais gente devido a guiar depois de beber, por fumar, por nãofazer exercício, por ganhar peso em excesso ou por dependência de drogas, incluindo o álcool.



Copyright © 2003, VOICE Luso Canadian Newspaper Ltd. First Luso Canadian Paper to Jump on the Net! For more information contact [email protected]

 
Toronto,
31/Março/2003
Edição 774

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira


 

 

  Desenvolvimento - AW ART WORK