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DRAMA NA ILHA DE SAN NICOLÁS

 

A Ilha Tristão da Cunha, localizada no Sul do Mar Atlântico, 1.400 milhas da costa d'África e 1.700 milhas d'Ámerica do Sul, foi descoberta em 1506 pelo almirante português Tristão da Cunha que, originariamente, lhe deu o nome ''The Lonely Island'', ou seja, a ilha desolada.

Esta informação transmitida por Peter Freuchen no Livro dos Sete Mares, (Book of the Seven Seas, New York 1957), é acrescida com aqueloutra informação do mesmo autor atribuíndo á Ilha Juan Fernández o título da ''mais desolada'' de todas as ilhas, embora destacando-se entre as mais famosas, como adiante direi.

Situada a oeste de Valparaíso ao largo da costa do Chile no Sul do Oceano Pacífico, esta ilha foi descoberta em 1563 pelo explorador espanhol Juan Fernández, cuja tentativa em povoá-la redundou em fracasso. E assim a ilha permaneceu, isolada e deserta, sendo visitada esporádicamente por embarcações de piratas e corsários.

Ora aconteceu que, em Setembro de 1704, a galé ''Cinque Ports'' ali fundeou a fim de recolher dois indivíduos que, acidentalmente, tinham ficado abandonados na ilha. Foi então que o tripulante britânico Alexander Selkirk (1676-1721), devido a uma desavença com o respectivo capitão. Thomas Stradling, resolveu trocar as agruras da vida a bordo pelas incertezas duma estranha permanência em terra.

E, de facto ali, sobreviveu solitáriamente durante 4 anos e 4 meses, até ser descoberto e recolhido em Janeiro de 1709 pelo Capitão Woodes Rogers do barco-corsário ''Duke.'' Eventualmente este episódio inspirou o autor inglês Daniel Defoe (1660-1731) na criação do lendário protagonista Robinson Crusoe.

O primeiro volume '' The Life & Strange Sur-prizing Adventures of Robinson Crusoe'' apareceu em Abril de 1719, seguindo-se-lhe quarto edições em quarto meses. O segundo volume foi publicado em Agosto do memo ano, ocupando-se com a descrição de novos episódios àcerca de Crusoe. Em abono da verdade, porém, incumbe-me acentuar que Defoe ex-agerou demasiadamente; a sua prolífica imaginação fê-lo descaír nas malhas de ficção.

Todavia devemos dar inteiro crédito a Defoe em ter-nos nas ''Aventuras de Robinson Crusoe'' uma autêntica obra clássica, ainda hoje assim classificada na literatura novelesca. Outrossim bastará apontar a ideia singular do autor em narrar o que alegadamente teria ocorrido com um homem civilizado, mas perdido e sozinho, numa ilha deserta.

Entretanto a história que ora tenciono descrever, é largamente verídica e plenamente confirmada através do testemunho de vários investigadores, e agora na minha visita á Missão de Santa Bárbara.

A história, que se segue, ultrapassa os mais inconcebíveis meandros da imaginação...

O drama ocorreu na Califorlândia, numa ilha (8 milhas de comprimento, 3 de largura e 890 pés de altitude) chamada San Nicolás, situada aproximadamente a 75 milhas sudoeste de Los Angeles e cerca de 200 milhas distantes de Santa Bárbara.

Descoberta pelo explorador espanhol Sebastián Vizcaíno (1548-1629) aos 6 de Dezembro de 1602, dia da festa de S. Nicolau, esta ilha foi habitada por uma tribo de Índios, a quem os Russos infligiram brutalidades incontáveis. E já me explico.

Os Russos haviam estabelecido uma colónia ( Fort Ross) no Condado de Sonoma em 1812. Juntamente com as Esquimós, afiliados á colónia, os Russos Partiam em expedições á procura de lontras do mar (sea otters). Sempre que desembarcavam em San Nicolás, eles violavam as raparigas e mulheres da ilha, bem como matavam os Índios quando este se lançavam na defesa das companheiras.

Com a extinção das lontras e falência comercial da colónia do Fort Ross, os Russos abandonaram a Califórnia em 1839, após uma ocupação territorial que se alastrou por quase três décadas, apesar da contínua oposição espanhola.

Entretanto, em 1835, os padres franciscanos da Missão De Santa Bárbara promoveram a transferência p'ra terra firme dos vinte e tantos Índios, que ainda se encontravam na ilha de San Nicolás, enviando uma escuna (irónicamente cognominada Peor es Nada) sob o comando do Capitão Charles Hubbard.

Já com os ''passageiros'' a bordo, uma rapariga índia deu pela falta do seu bébé, e na sua aflição atirou-se á água, desaparecendo na praia. Nesse momento uma borrasca rebentou com tamanha que o capitão viu-se obrigado e desprender as amarras, rumo ao Porto de San Pedro em Los Angeles, deixando atrás a mãe índia.

Evidentemente que o capitão tencionava regres-sar, mas em San Pedro Recebeu ordens p'ra se dirigir imediatamente p'ra San Francisco, onde e escuna se afundo nas imediações da Golden Gate. Os tripulantes conseguiram salvar-se e foram eles que propalaram o boato àcerca da mulher Índia abandonada na ilha. Infelizmente nada se fez por muitos anos, presumindo-se que a mãe e o bébé certamente tinham morrido.

Mas, como reza o velho ditado, ''a esperança é a última a morrer'', aconteceu que em 1852, ou seja, 17 anos depois, George Nidever (1802-83) foi de barco de Santa Bárbara até á ilha de San Nicolás a fim de arrecadar ovos de gaivotas. Percorrendo a ilha, ficou tolhido de surpresa ao observar marcas com os contornos dum pé feminino. A curiosidade de que a ilha servia de residência a um ser humano, fez renascer a hipótese da possível sobrevivência da mulher Índia.

No regresso a Santa Bárbara, Nidever informou Frei José Maria de Jesus González Rubio (1804-75) àcerca dos vestígios deparados na ilha. A instâncias do padre franciscano, Nidever Voltou á ilha e notou novas marcas, mas não encontrou a mulher. Visto ser já inverno, ficou determinado adiar subsequente expedição. E em Julho de 1853, Nidever embarcava p'ra San Nicolas na Companhia de Índios da Missão.

Desta vez foram bem sucedidos, pois que descobriram a mulher Índia que, sem estranheza, acolheu a presença dos visitantes a aparência de 50 anos d'idade, e o único embaraço consistia em comunicar oralmente apenas com sons ininteligíveis, pois havia perdido por completo a facilidade em pronunciar palavras.

No que respeita a pormenores como teria sob-revivido completamente abandonada na ilha durante 18 anos , ou que destino teve o seu bébé, constitui ainda hoje um mistério deveras insondável.

Em Santa Bárbara passou a residir com a Família Nidever, falecendo sete semanas depois, devido a uma gastrite ocasionada pelo seu insaciável apetite em devorar fruta fresca. Antes, porém, foi batizada com o nome de Juana Maria. Jaz Sepultada no Cemitério da Missão. Os seus ''teres e haveres'', utilizados na ilha, seguiram p'ra Roma.

Como oportunamente assinalei nesta crónica, a história de Robinson Crusoe reveste-se dum cenário algo fantasioso. Mas a história da Juana Maria não resultou duma narrativa lendária. Na realidade, os factos apontam um daram vivido por uma mulher, cuja valentia lhe valeu sobreviver, durante qusae duas décadas, isolada numa ilha inóspita!



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Toronto,
31/Março/2003
Edição 774

ANO XXIII

 
      Por: Ferreira Moreno


 

 

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