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O Passageiro Clandestino
 

– Não és muito alto nem forte para a idade, disse o comandante com um sorriso.
– Não, Sr., saio a minha mãe que também era miúda!
– Já não tens mãe?
– Morreu há um ano, disse o rapaz movendo a cabeça num gesto negativo, enquanto pelos olhos lhe passava uma nuvem de tristeza.
– Qual é a tua classe e como é que vão os teus trabalhos na escola?
– Vou passar para as aulas elementares!
– Tens tido dificuldades? pautou o interrogador… Por outras palavras, sentes que as lições são compreensíveis e estás bem a par do que tens aprendido? De olhos semicerrados Agostinho olhava para o oficial, tentando não perder o significado das perguntas.
– Eu e uma companheira de classe que quer ser professora, não estamos com medo de ir para a escola elementar. Somos os primeiros da aula!… Todos os dias, depois dos trabalhos escolares, vamos estudar e consultar livros na biblioteca da escola. Por que é que o senhor fez essa pergunta?
– Tenho cá as minhas razões, disse o comandante Ávila… Talvez por causa da tua curiosidade com as coi-sas de bordo!…Falaste da tua amiguinha, e tu, o que queres ser?
– Se eu pudesse - disse Agostinho em voz firme mas onde transpareciam uns laivos de dúvida - gostaria de estudar engenharia eléctrica.
Para o comandante ficara exclarecido o interesse do seu passageiro pela casa das máquinas, pelos seus dínamos e alternadores!
– Se tiveres força de vontade, talvez possas um dia realizar os teus sonhos. Veremos o que da nossa parte poderemos fazer para isso, disse o comandante em jeito misterioso que deixou o rapaz perplexo, por não perceber a que é que o oficial se referia.

* * *

O cargueiro Porto Formoso acabava de atracar em Nova York, (a cidade maior e mais discutida do mundo), num dos seus inúmeros cais que faziam lembrar o famoso e antigo labirinto de Creta.
Os pios das gaivotas de mistura com as sirenes dos rebocadores e os apitos dos trens e guindastes, numa cacofonia gigantesca e ensurdecedora, enchiam o espaço e a imaginação de quem se aventurava por aquelas paragens, ou de quem as via pela primeira vez.
De olhos desmesuradamente abertos, Agostinho Vieira, magro e pequeno para a sua idade, porém, inteligente e cheio de curiosidade, tudo ia abarcando com a vista. Debruçado na varanda da ponte de comando, vira aproximar-se a gigantesca figura de mulher, de diadema na cabeça e facho na mão, a estátua da Liberdade conhecida de toda a gente através do mundo. Fora oferecida pela França à jovem nação chamada América, para simbolizar nela a liberdade dos povos, que, pelas terras do Novo Mundo, ela vinha a ser o apanágio.
Armando, o moço de convés que se fizera um grande amigo do passageiro clandestino, fora encarregado pelo comandante Ávila de levar o pequeno a uma loja de roupas para lhe comprar uma indumentária completa, a começar dos sapatos até a um bonete e um lenço de pescoço, pois os dias começavam a ficar frios.
Guardando num saco plástico toda a sua roupa velha, Agostinho, ao sair do armazém de fatos prontos a vestir, tendo ao lado o seu companheiro, parecia um camaleão que tivesse mudado de cores, provocando um sorriso e uma algazarra de boas vindas entre os tripulantes e os oficiais ao regressar a bordo.
Frente à parede lisa ligeiramente abaulada, que, a meio do navio, sobe até à ponte de comando e se estende de uma amurada à outra, os oficiais a meio e os marinheiros distribuidos por ambos os lados, posaram para uma fotografia. Nela o jovem marinheiro “forçado” pelas circunstâncias, segurando o cabo do guindaste que o descera para o porão cheio de barris, sorria feliz no lugar de honra.
Duas semanas haviam decorrido desde que largara da sua terra…Quanto tempo mais iria durar tal sonho? Agostinho estava longe de o imaginar… Não estava habituado a tais tratamentos e sempre que as coisas lhe corriam bem, não demorava muito para que viessem os pesadelos atormentá-lo.

(continua)


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Toronto,
31/Março/2003
Edição 774

ANO XXIII

    F. Feliciano de Melo
   

 

 

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