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" ENCONTRO INESPERADO "
C O N T O

Joaquim Napoleão que toda a sua vida fora uma pessoa calma, incapaz de perder as estribeiras, a menos que se encontrasse a uma mesa com um bom leitão estufado na sua frente, sentia-se no momento completamente desorientado e o caso bem visto, não era para menos…

Estranhos acontecimentos, para os quais não encontrava uma razão plausível, vinham ocorrendo com ele, havia já algum tempo (ao certo nem sabia bem quanto, tal a confusão) que havia acabado por o convencer de que o calen-dário não funcionava naquele local.

Vinha a sentir-se possuidor de capacidades que desconhecia e o deixavam atónito.

Era como se houvesse nas-cido há pouco, entrando no mundo do impossível pela porta das traseiras, sem ter sequer um manual de aprendizagem para se orientar.

A par das suas invulgares descobertas, uma que mais que todas, bastante o inquietava, era a da perda de memória. Sentia um vácuo no lugar onde lhe parecia ter a cabeça.

Deambulava por aquele lugar de sombras, como se não tivera um passado…

Uma ideia vaga que tentava repelir, e sempre que o fazia voltava a apresentar-se-lhe mais clara, parecia querer insinuar-lhe no raciocínio, se é que ainda tinha algum, a realidade do seu estado actual, que ele temeroso, não parecia querer aceitar ou aprofundar.

Por vezes um surto de memória, como nuvem a deslocar-se veloz impelida pelo vento, mostrava-lhe que as coisas haviam sido diferentes numa outra fase da sua vida, não lhe deixando porém tem-po para que esmiuçasse o passado, ou o lugar da sua origem, onde julgava, tudo fora normal e limitado.

No espaço estranho onde vivia agora, podia deslocar-se com incrível rapidez, mais pelo esforço do pensamento, que das pernas e nenhum obstáculo até ao momento, fora capaz de o impedir nas suas correrias, que fazia mais para se maravilhar, do que com qualquer outra finalidade. Parecia um rapazito num parque de recreio.

Se uma parede se lhe apresentava pela frente, não tentava contorná-la, passava através dela, a gargalhar dos seus prodígios.

Da primeira vez que encetara estas proezas, tal como a criança que tenta os primeiros passos, sentira-se eufórico, uma espécie de "super men"!… Com o tempo viera-lhe o tédio dessas aventuras sem propósito.

O que acima de tudo queria no momento, era encontrar alguém cohecido, estabelecer amizades que lhe tornassem menos penosa a solidão, e ao mesmo tempo lhe exclarecessem as dúvidas terríveis em que se debatia.

Os estranhos que tentara abordar, por uma raazão ou outra, difícil de compreender, haviam-se afastado dele. Todos pareciam estar ocupados com assuntos de certa importância, que o Napoleão não conseguia perceber. Era quase como se estivessem a trabalhar afincadamente, sem fazerem nada e não quizes-sem ser importunados por um ocioso!

Quando já perdera a esperança de resolver o mistério, que mais e mais se viera adensando à sua volta, algo aconteceu, que veio modificar-lhe as desalentadas expectativas e derramar alguma luz, nas trevas das suas indecisões.

Surgira do nada como quase tudo por ali; tratava-se de uma figura esquelética de mulher, parecendo mais uma folha sêca impelida pela brisa, do que uma criatura humana; a aparição dirigia-se para ele. No seu rosto simpático estampara-se verdadeira surpresa, ao topar o Napoleão. O es-panto da parte deste não fora menor.

Pela primeira vez naquele fantasmagórico e estranho cenário de sombras e dúvidas, as duas figuras indecisas e patéticas, correram uma para a outra - acabavam de topar alguém que mútuamente conheciam.

- Mas é a D. Henriquêta Bandeira!… Disse jubiloso o Joaquim; julgo não estar equivocado. - Como vai a senhora?

- Cheia de confusões, Sr. Napoleão! Como vê não se enganou, mas se quer que lhe seja franca, não me recordo como nos conhecêmos e quando!

- Nessa espécie de charada, não a posso ajudar!… Eu mesmo estou a passar por tais trabalhos, minha senhora; ao vê-la lembrei-me do seu nome e de que a conhecia!… Quanto ao resto não há forma de penetrar no meu passado. Este por certo não é o lugar onde sempre vivi.

- É estranho que nesse aspecto, ambos estejamos a viver em idênticos moldes, disse a D. Henriquêta, após ouvir a breve história do Napoleão, dos seus lápsos de memória e ainda das suas fantásticas capacidades de acrobata.

- Todos esses factos e mararavilhas de circo, são comuns; também as tenho vindo a experimentar, devem ser inerentes a este lugar.

Ponderando alguns momentos, o Joaquim inquiriu:

(continua na próxima edição)


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Toronto,
21/Abril/2003
Edição 777

ANO XXIII

    F. Feliciano de Melo
   

 

 

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