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COMEMORANDO O 25 DE ABRIL
 

Abordar o tema do 25 de Abril, não é uma tarefa fácil, especialmente se o estivermos a fazer a uma audiência, que ao longo dos anos me tem ouvido pronunciar sobre o assunto. Afinal, o 25 de Abril, não muda, o orador também é o mesmo, e até a assistência, parafraseando a famosa frase do filme Casablanca, são ''os suspeitos do costume'', isto é as pessoas que, na nossa comuni-dade se interessam por este tipo de assuntos.

Também, debater assuntos históricos, ano após ano, vai-se tornando cada vez mais difícil, uma vez que à semelhança da batalha de Aljubarrota ou à descoberta da Índia, é difícil de apresentar qualquer novidade sobre o assunto, que já tem sido abordado, dezenas de vezes pelo orador e milhares de vezes, por todos os sítios deste mundo, aonde há Portugueses.

Não esperem pois, nenhuma novidade sensacional, uma nova interpretação histórica, ou alguma revelação que irá revolucionar o que nós sabemos sobre a revolução dos cravos.

Outro aspecto um pouco preocupante das comemorações, é que cada vez parece ter acontecido há mais anos.

Até aqui há algum tempo, os acontecimentos, tinham sido passados há alguns anos, depois há umas dezenas, a seguir há um quarto de século, e agora há 28 anos, o que faz com que aqueles de nós que nos lembramos desta data histórica, sejamos nós próprios também um pouco de ''históricos'', ou usando palavras mais simples, velhos.

Nesta medida, os mais jovens, quando ouvem alguém falar do 25 de Abril, começam a encarar o narrador, como uma velharia,de outra geração. Claro que jovens ou velhos, têm a beneficiar, em tomar conhecimento do 25 de Abril, que hoje faz parte da história do nosso povo, tentar interpretá-lo e o que ainda é mais importante, tirar dele lições que nos guiem na interpretação do presente e até do futuro.

Falar do 25 de Abril, como o dia da liberdade, não chega. À semelhança do dia da mulher, do da criança ou do da paz, o dia da liberdade não se deverá restringir a um dia do calendário, mas a todo o ano - deverá ser 25 de Abril, sempre.

Um dos problemas, de se ter vivido de certa maneira uma data histórica é a tentação de falarmos de nós próprios. Isto acontece com o 25 de Abril, não acontece com a batalha de Aljubarrota e não irá acontecer, com certeza de aqui a meio século, sendo pouco provável, que por essa altura ainda estejamos aqui todos juntos, a comemorar a revolução dos cravos.

Para os da minha geração, o 25 de Abril é sem duvida, uma data importante, mas também uma questão pessoal, que invoca vivências do passado, que nunca esqueceremos, e claro tendemos a partilhar com os outros, quando temos uma audiência.

A minha primeira lembrança do chamado Estado Novo, data dos tempos da guerra mundial - espero que aqueles mais jovens não pensem como o meu filho, que quando era jovem me perguntou se as minhas memórias eram da primeira ou da segunda.

Durante a guerra, nós ouviamos em minha casa, a BBC de Londres, a rádio Moscovo e outras estações que apoiavam as forças aliadas contra os nazis de Hitler, e os fascistas de Mussolini, que nessa altura tinham o apoio de Salazar, que mais tarde viria a virar o bico ao prego, receber a Rainha de Inglaterra em Portugal e seria uma das muitas ''democracias'' que o governo americano iria apoiar. Já nessa altura os Estados Unidos, a semelhança do que se passou no Iraque, lutavam contra os estados ditatoriais, que achavam que eram contra os seus ingresses e apoiavam ditaduras como as de Salazar e Franco. Afinal, a história, como se sabe,repete-se e já nessa altura aqueles que hoje são os nossos vizinhos do Sul, lutavam contra as ditaduras de quem não gostavam e à semelhança do que se passa hoje com a Arábia Saudita e o Paquistão, apoiavam estados em que não existia democracia, quando isso lhes interessava

A minha primeira experiência dramática, com o sistema de Salazar, foi o da prisão de meu pai, ao que parece por ter cometido o crime horrível de além de ser do contra, ter um lenço de bolso, como se usava na época, que tinha as bandeiras e os retratos dos líderes dos Aliados, Churchill da Grã Bretanha, Roosevelt dos Estados Unidos, Charles De Gaulle da França e Joseph Estaline da União Soviética. Pelos vistos, no dia da sua prisão, o bocado do lenço, que trazia o retrato do líder, com a bigodaça preta, e a foice e o martelo, estava um pouco à vista, embora nessa altura suportar os Estados Unidos ou as outras nações ocidentais fosse suficiente para ir ser preso.

O meu pai, foi preso no famigerado Aljube, em Lisboa, de onde saiu em coma, por falta de cuidados médicos - ele era diabético e tomava insulina - para o hospital de S. José, aonde escapou, ao que dizia a minha avó, que era muito devota, por um milagre da sua santa favorita.
Com esta experiência, numa idade em que eu ainda andava de calções, eu poderia ter ficado ou com medo para o resto da minha vida, ou um pouco dum revolucionário. Calculo, que os que me estão a seguir saberão já o caminho que tomei.

Encurtando uma história longa, como se diz em inglês, lá fui parar à Faculdade de Medicina de Lisboa, nessa altura, na opinião da PIDE, um ninho de revolucionários e comunistas, que era assim que eles chamavam a todos que eram contra o chamado Estado Novo. É pena que eu esteja a escrever e não a falar, porque senão teria pronunciado COMUNISTAS, num tom muito especial, que a gente da PIDE, legionários e outros, usavam na altura.

Como se não chegasse, além de estar na Faculdade de Medicina, ainda por cima, me fiz membro de uma organização altamente subversiva, na opinião do governo, a Associação dos Estudantes, tendo ainda agravado a situação, por ter sido eleito presidente de tão "sinistra" organização que nessa altura era vista pela polícia política, como hoje é a Al Queida, do sr. Bin Laden.

Embora tivesse sido assistente da Faculdade, participado no exército português, 3 anos no Continente e 2 no Ultramar, acabei por perder o meu lugar e ter de partir para o estrangeiro, razão porque me estão a aturar neste momento.

No entanto, a razão porque estou a impingir-vos a "história da minha vida" é, não porque desejo que me ofereçam uma medalha -já tenho duas portuguesas e duas canadianas- mas para ilustrar o efeito na minha geração, dum sistema que nos tirou os direitos à li-berdade e fez de Portugal um pária entre as nações livres da Europa.

Partilharei, convosco uma experiência que poderá ilustrar esta situação. Depois de ter saído à pressa e um pouco ilegalmente de Portugal e isso dava para outra história fui para a Inglaterra, aonde me convidaram para uma recepção, a médicos estrangeiros que estavam a treinar nos hospitais escolares da Universidade de Londres.Como era o único português, lá me chamaram ao palco, aonde passei pelo vexame de ser ignorado e terem-se recusado a a apertar-me a mão, vários de-legados de países europeus e do terceiro mundo. Depois, vários, vieram-me pedir desculpa e explicar, que nada tinham contra mim, mas sim contra um sistema em Portugal, que oprimia o seu povo e os que viviam nos seus territórios africanos.

Todos nós sabemos o que se passou no dia 25 de Abril. o sistema que estava decrépito, acabou por ser derrubado, por um grupo de oficiais do exército, que afinal se tinham organizado poucos meses antes, e por razões que tinham mais que ver com reivindicações profissionais, do que salvar a nação.

Sem menosprezar os militares, afinal poderiam ter feito como em muitos lados, tomar conta do poder e criar uma ditadura, não devemos esquecer, os milhares de portugueses que durante quase meio século lutaram contra o sistema, tendo perdido a sua liberdade, saúde, famílias, carreiras profissionais e até a própria vida, nas masmorras do Aljube, Caxias, Peniche e nos campos de concentração como o de Tarrafal.

Num dia como o de hoje, não deveremos esquecer o sofrimento de todos os que lutaram, para que Portugal, passasse a ser uma nação democrática, igual às outras da Europa e do chamado mundo ocidental.

Muitas pessoas, ao analisarem a situação em Portugal, desde o dia 26 de Abril, isto é depois da revolução, até hoje ficam desapontadas e pensam que afinal não se conseguiu aquilo porque muitos de nós, uns mais outros menos sacrificaram as suas nossas vidas, perdendo carreiras profissionais, indo para a prisão, ou ter sido obrigados a imigrar.

É hoje oportuno, examinar o 25 de Abril, e não o ver como uma espécie de redenção dos pecados da nação ou a criação dum novo paraíso na terra, mas uma fase da evolução de Portugal, que à semelhança da Espanha e da Grécia se libertaram de regimes ditatoriais e ingressaram no grupo das nações desenvolvidas e democráticas, da Europa, a criação dum sistema, em que existem liberdades individuais, eleições livres, e se cumprem as leis foi um passo importante na história de Portugal. No entanto, democracia, com "um homem, ou melhor uma pessoa, um voto", não chega. Democracia, não é, ou não deverá ser, apenas, o direito a votar ou a ter liberdade de expressão. Existem muitos países, como é o caso de alguns na América do Sul, em que há uma democracia igual à do Canadá ou de Portugal, em que todos têm liberdades individuais, mas em que as pessoas vivem na maior das misérias. Para uma mãe, que não tem com que alimentar os filhos, num bairro de lata, no Equador, Colômbia ou até Brasil, pouco interessa, que existam eleições livres.

Liberdade, não é o direito de eleger e ser eleito, mas também a liberdade de não ter pobreza, discriminação racial, religiosa ou outras, direito à educação, aos serviços de saúde e justiça, preservar a sua cultura viver num meio ambiente sem poluição, etc. etc..

Liberdade, é também o povo poder dizer não a uma guerra, imoral, injusta e ilegal, como a invasão do Iraque. Afinal, os governantes eleitos, legalmente do Reino Unido, Espanha, Itália e até Portugal, suportaram a invasão americana do Iraque contra a maioria esmagadora do seu povo.

Não quero de forma alguma, no aniversário da reintrodução da democracia em Portugal -ela afinal já existia no tempo da primeira república e até da monarquia constitucional- menosprezar o 25 de Abril. Ele foi uma data, que marcou uma mudança essencial na histórias de Portugal e que veio a permitir-lhe ingressar no grupo das nações democráticas e livres da Europa.

Sem o 25 de Abril, Portugal continuaria a ser um pária na Europa, e à semelhança do que me acontecera em Londres há mais de trinta anos, a ser rejeitado pelas nações democráticas do mundo.

É pois importante, que comemoremos o 25 de Abril, e prestemos homenagem aos milhares que lutaram e sofreram pela criação duma sociedade livre e democrática em Portugal.

Não devemos porém esquecer, que uma revolução, num dia há vinte e oito anos, não chega. A liberdade, é como ser bom ou ser justo. Não acontece num dia só. Deverá acontecer, todos os dias.

A liberdade é como uma planta, terá de ser regada todos os dias, com o suor do nosso esforço e muitas vezes, ate com o nosso sangue.

Também a liberdade, não é apenas de tantos em tantos anos, deitar um voto, numa urna ou o direito de criticar os que nos governam.

A liberdade, é também o direito a um nível de vida razoável, à educação, saúde, justiça, igualdade e paz.

A melhor homenagem que podemos fazer aos que ao longo de quase meio século sofreram e trabalharam para que se desse o 25 de Abril, é continuar a sua obra.
Aqueles de nós, e eu tenho orgulho de ser um deles, que nos últimos meses, por várias vezes marchamos, por vezes, debaixo de neve ou enfrentando temperaturas mais adequadas ao ártico do que ao sul do Ontário, pela baixa de Toronto, em manifestações contra a invasão do Iraque, estávamos de certa maneira, nestas terras do Canadá a continuar o nosso 25 de Abril.

Se quisermos realmente comemorar esta data importante da nossa história, deveremos lutar para, em Portugal, no Canadá ou em qualquer parte do mundo, seja "25 de Abril", não apenas no dia assinalado no calendário, mas em todos os dias do ano.
Conferência, incorporada nas comemorações do vizéssimo oitavo aniversário do 25 de Abril, realizadas na Casa do Alentejo.



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Toronto,
28/Abril/2003
Edição 778

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira


 

 

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