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" ENCONTRO INESPERADO "
C O N T O

- Porque não tentamos ver se com a ajuda um do outro, podemos descerrar a pouco e pouco as cortinas do nosso passado, que em vista de nos conhecermos, deve ter sido comum?

- E qual é o seu plano? Quiz saber a D. Bandeira cheia de curiosidade.

- Simples, minha Sra., conforme já vimos, não perdemos todas as nossas faculdades, reconhecêrmo-nos foi o princípio; vamos agarrar-nos ao pouco que cada um sabe e tentar complementar-nos. Usarei uma palavra ou um gesto seu para espevitar a minha memória, e a Sra. fará o mesmo com respeito a mim. Essas coisas às vezes põem a máquina em funcionamento, disse o homem que gostava de alegorias, apontando para a cabeça.

- Podemos tentar, aprovou a D. Bandeira.*

Haviam escolhido um lugar solitário, onde não espe-ravam ser incomodados pelos outros hóspedes daquela colónia de repouso afim de iníciarem as suas experiências.

Agora que tudo estava assente, o Joaquim começava a sentir-se receoso do que pudesse vir a descobrir do seu passado, que pusesse em risco as relações cordeais que tentava estabelecer com a sua companheira naquele lugar estranho.

Não queria de modo algum voltar à vida solitária de antes. Tinha uma vaga sensação de que nem sempre haviam sido amistosas, as suas interferências com a senhora que tinha na sua frente e que dava pelo nome de Henriqueta!….

Por sua parte a esquelética criatura, deslizava pela mesma corrente de ideias, sentindo iguais apreensões, quanto à possibilidade de perder a companhia do Napoleão. Via-se que o par temia o isolamento do lugar, tentando salvaguardar a todo o custo a cordealidade do casual encontro!

Após confessarem os mútuos receios, ambos, em quem a curiosidade era mais forte do que o medo, estabeleceram um pacto. Fosse o que fosse que pudessem vir a descobrir, nada alteraria as suas relações presentes. Estavam ambos fartos de viver solitários, entre desconhecidos e não se sentiam dispostos a voltar à mesma situação.

Firmes nos seus propósitos, estenderam as mãos para selar o pacto que haviam concluido e quase em unísono, soltaram um grito de espanto; não havia nada que apertar de parte a parte. A mão da D. Henriquêta passara através da mão do Napoleão e a deste, não encontrara também qualquer resistência.

O véu que por tanto tempo teimara em obscurecer-lhes a realidade da nova situação em que se encontravam, começava a partir-se! Eram dois corpos vaporosos, onde só restavam aparências.

* * *

Havia seis meses que a bonita senhora se encontrava viuva. Ainda não se refizera da perda do marido que estremecia.

Acima de tudo o que mais a fazia sofrer, era a lembrança de que o seu pobre Joaquim morrera sosinho, longe de-la!… Sosinho, não era mais do que força de expressão, o avião onde se deslocava, ia cheio de passageiros, mas para ela, na sua dor, considerava-os uns estranhos.

Enxugando uma lágrima, a inconsolável viuva foi guar-dar o jornal, que começava a amarelecer do uso permanente ao contacto com as su-as mãos, onde resumidamente viera descrita a morte do Na-poleão. Na notícia, que pelos vistos, já havia lido vezes sem conta, ao ponto de a poder dizer de cor: podia ver-se:

"Ocorrência Pouco frequente"

Faleceu repentinamente de um ataque cardíaco, quando se deslocava para o Cairo, num dos aviões da Klanka Air Lines, em viagem de negócios, o Sr. Joaquim Napoleão, representante dos famosos vinhos de mesa Colarinho.

As hospedeiras e oficiais de voo, tentaram massagens e respiração artificial, mas tudo foi inútil; o Sr. Napoleão que não pudera resistir ao ataque, acabara perdendo a sua ultima batalha.

Lamentando a trágica ocorrência, resta-nos enviar as mais sentidas condolências à sua inconsolável esposa.

Fora a primeira e a última vez que o nome do marido viera nas notícias. Para uma pessoa recatada e de modestas condições, como ela, ainda mesmo tratando-se da morte do seu Napoleão, sentia uma certa vaidade, sempre que mostrava o jornal a alguém das suas relações.

Era um prazer masochista, pois a D. Laura derramava sempre algumas lágrimas nesses momentos, mas quem pode discutir as fraquezas humanas? Gostara do marido continuando ainda a amá-lo, mas acima de tudo, onde sentia mais a sua falta, era na cozinha.

Napoleão fora um bom gastrónomo… Um bom garfo, como costuma dizer-se! Não só comia bem, quase sempre mais do que devia, como insistia ainda no pão e nos molhos, o que por certo o havia ajudado a levar mais cedo para a cova.

(continua na próxima edição)


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Toronto,
28/Abril/2003
Edição 778

ANO XXIII

    F. Feliciano de Melo
   

 

 

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