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NÃO PAGARAM O SEGURO
 
Mais uma vez, volto à questão do S.A.R.S. (Sindroma Respiratório Agudo Grave) desta vez nas suas relações com as decisões politicas tomadas pelos governos do Ontário e Canadá.

O meu pai costumava dizer numa época em que o governo queria que nos ocupássemos apenas de futebol e fado que tudo nesta vida tinha de certa maneira relação com a politica.
Hoje iremos demonstrar, que a catástrofe do S.A.R.S., não foi apenas causada por pouca sorte e que decisões politicas, tomadas principalmente pelo governo do Ontário, vieram agravar uma situação, já de si séria, o aparecimento nesta Província duma nova doença infecciosa.
Costuma-se dizer nesta terra, que os acidentes não "acontecem", mas são "causados" por qualquer coisa. Embora exagerando um pouco, é uma frase, que chama a atenção para o facto, que em muitas tragédias além da pouca sorte, existe a culpa de alguém, que não tomou as medidas necessárias para evitar o acidente.

A SAÚDE PÚBLICA

Em todas as sociedades modernas, existem serviços destinados à prevenção de doenças. Enquanto os clínicos tratam as pessoas doentes, os médicos e outros profissionais que se dedicam à saúde pública, procuram proteger as populações contra infecções, tóxicos, e outros factores que irão produzir doenças. São estes serviços que zelam pela qualidade e limpeza dos alimentos e da água que consumimos, estabelecem programas de vacinação, evitam que substâncias tóxicas nos venham a envenenar, protegem a nação contra a entrada de novas doenças, procuram evitar as epidemias, enfim dedicam-se à prevenção das doenças, em vez do seu tratamento.
Infelizmente, enquanto toda a gente toma conhecimento dos transplantes de órgãos, dos novos antibióticos ou das últimas técnicas operatórias, poucos sabem do esforço dos trabalhadores da saúde pública, que se dedicam a tarefas pouco, "sexy" e glamorosas, como zelarem pela qualidade da água que bebemos, das vacinas das nossas crianças, ou das medidas para evitar novas doenças, vindas de outras partes do mundo, se introduzam no país em que vivemos.
Também os políticos, não ganham fama, por dedicar verbas destinadas a assegurar a qualidade da água ou melhorar as condições de saúde das crianças pobres. Claro que a inauguração dum hospital novo ou a instalação dum M.R.I (Ressonância Magnética), dão aos políticos muito mais publicidade. Não é pois de admirar que certos governantes, mais interessados em permanecer no poder, do que no bem estar dos cidadãos, não gostem de gastar com a saúde pública.

CORTANDO NO "SEGURO"

Conheço um sujeito, dos tais que gostam de se mostrar importantes, gastando em carros caros, barcos, e casas luxuosas, que me disse outro dia que ainda não tinha pago o seguro contra incêndios da sua casa. Lá me explicou, que tinha comprado um carro famoso, cujo nome desconheço, e que por isso não lhe chegava o dinheiro para o seguro. Como ele me disse, toda a gente via o carro, mas ninguém sabia do seguro.
Em certa medida, o governo conservador da Província do Ontário, primeiro dirigida pelo Sr. Mike Harris e depois pelo Sr. Ernie Eves, fizeram o mesmo. Desejando cortar nos impostos para ajudar as classes abastadas que os apoiam e "comprar"os votos dos eleitores, esses senhores cortaram nas despesas com coisas que não davam nas vistas. Uma delas, foi com o Ministério do Ambiente, o que contribuiu para a tragédia da cidade de Walkerton, em que dezenas de pessoas adoeceram ou morreram, porque o abastecimento de água tinha sido infectado por um micróbio, E. Coli , a outra foi com a saúde pública.
Ao fazerem cortes nesta área da saúde pública, que normalmente, não dá nas vistas, os dirigentes conservadores, facilitaram a disseminação do S.A.R.S. tornaram a tarefa dos trabalhadores de saúde pública mais difícil e arriscaram a população desta província e até deste país a uma epidemia de proporções catastróficas.
Ao cortarem nas verbas para a saúde pública os conservadores reduziram os números de médicos, cientistas e outros trabalhadores da saúde pública, encerraram laboratórios e expuseram a população desta província ao risco duma epidemia com consequências graves.
Eles estavam a proceder da mesma maneira que o nosso compatriota de gostos extravagantes, a não pagar no seguro, que não se vê e a gastar no carro de luxo, que todos podem admirar.

CORTES E MAIS CORTES

Antes do mais, quero esclarecer algum leitor, que pense que estou a usar o S.A.R.S., para atacar o governo conservador, que me estou a basear na opinião de várias pessoas conhecedoras do assunto e muito especialmente num trabalho de jornalismo de investigação, feito pelo Globe and Mail por sinal um jornal conservador por Carolym Abraham e Lisa Priest.
Cerca de 16 meses antes da chegada do S.A.R.S. a Toronto o governo do Ontário deu layoff a cinco cientistas dos serviços de saúde pública da Província, porque não eram necessários.
Conforme, mencionado no Globe and Mail o Sr. Gordon Haugh declarou, em nome do Ministério da Saúde, que não precisavam de cientistas e que era improvável que um novo micróbio chegasse ao Ontário. Esta afirmação é ainda mais extraordinária devido ao facto que há vários anos que as autoridades médicas vinham a alertar o governo do Ontário da possibilidade duma epidemia, causada or um vírus do sistema respiratório vindo do Oriente, muito especialmente da China. O vírus do S.A.R.S., não foi uma surpresa para os cientistas, que à muito tempo esperavam um surto duma infecção deste tipo.
O laboratório de doenças infecciosas da Província do Ontário, considerado um dos mais aperfeiçoados do mundo, tem sido progressivamente reduzido pelos cortes no orçamento feito pelo governo conservador. Dois dos seus cientistas de mais prestígio, Dr. Ching Lo que estava a criar um teste para diagnosticar a doença do Nilo Ocidental (West Nile Virus), outra doença que irá chegar este Verão, produzida pelos mosquitos e o Dr. Martin Preston que descobrira uma maneira de identificar a bactéria E.Coli, semelhante à que causou a infecção da água de Walkerton foram despedidos, porque segundo o governo os seus serviços não eram necessários.
Despedimentos e cortes nos orçamentos deixaram, o serviço de saúde pública do Ontário reduzido ao mínimo, em crise e incapaz de desempenhar as suas tarefas e claro encarar uma crise da magnitude do S.A.R.S..
Na província mais próspera do Canadá, num dos sete países mais ricos do mundo, quando o S.A.R.S. chegou, não havia um serviço de saúde pública capaz de o enfrentar.

UM MILAGRE?

Com um sistema de saúde pública, completamente desmantelado, pelos cortes selvagens do governo conservador, muitos dizem que foi um milagre que o surto do S.A.R.S., não tivesse evoluído para uma epidemia em larga escala.
Outros são de opinião que a luta contra o S.A.R.S., hoje quase vencida, só foi possível devido à dedicação de vários médicos, cientistas e outros trabalhadores dos serviços de saúde, que em poucos dias, conseguiram reorganizar um serviço que tinha sido desmantelado.
Trabalhando dia e noite, muitos deles sem receberem um centavo pelo seu esforço esses heróis da luta contra o S.A.R.S., arriscando a sua saúde, dedicaram-se de alma e coração, à tarefa de proteger a sociedade contra esta nova doença. A Dra. Susan Richardson do Hospital for Sick Kids, o Dr. Donald Low do Mount Sinai, o Dr. Ian Jhonson da Universidade de Toronto e tantos outros, recrutaram médicos e cientistas em Halifax, Kingston, Otava e até Vancouver. Com uma rapidez e eficiência extraordinária, dezenas de médicos e cientistas organizaram a luta contra uma doença da qual quase nada conheciam. Mantendo contactos com colegas em todo o mundo, pela Internet, eles foram aprendendo aos poucos e tudo leva a crer que a doença está neste momento controlada.
Finalmente, não devemos esquecer, o nome dos Medical Officers of Health (delegados de saúde) os Drs. Sheela Basbur e o Dr. Colin D'Cunha, que trabalharam de forma eficiente e infatigável.
"The last not the least" (os últimos, não os de menos importância) são as centenas de clínicos, enfermeiras e outro pessoal de saúde, que arriscaram a sua saúde e a sua vida, ao trabalharem longas horas nos hospitais, muitos deles expostos ao S.A.R.S., e a contrair esta doença.
É caso para dizer que a coragem, diligência e dedicação do pessoal de saúde, compensaram a falta de cuidado que o governo conservador do Ontário teve ao enfraquecer e parcialmente desmantelar os serviços de saúde pública do Ontário, expondo assim a população desta cidade, desta província e até deste país, a uma epidemia, de consequências catastróficas.
Voltando à opinião expressa no princípio, a politica realmente tem consequências em toda a nossa vida, até na saúde.
Os cortes nos impostos, podem comprar votos, mas colocam a nossa saúde em perigo.



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Toronto,
12/Maio/2003
Edição 780

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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