LEIA
 » NÃO PAGARAM
   O SEGURO
 » LEMBRANÇAS
   DE BARBEIROS
 » " ENCONTRO
    INESPERADO
    " C O N T O
 » Homenagem as Mães
 » EM OFF
 » PARABÉNS
 » CRÓNICA PICOENSE
 » Edições Anteriores
 

" ENCONTRO INESPERADO "
C O N T O

- Irei ouvir-te agora, meu pobre amigo! Disse com um grito de angústia e agonia a Henriquêta Bandeira, ao sentir-se acusada pela sua consciência. Deveria tê-lo feito antes, enquanto era tempo, mas como tu, meu pobre e infeliz marido, bem o disseste, deixei-me cegar pelas minhas vaidades, ao ponto de perder a noção da realidade.
Boquiaberto, ao lado da Henriqueta, o Napoleão olhava para o estranho acontecimento, sem perceber que bicho mordera a sua companheira.
Esta sem lhe prestar atenção, continuou: - Não estou certa de me poderes ver ou sentir a minha presença, mas irei fazer o impossível para te ajudar, uma vez que fiz tudo quanto estava ao meu alcançe, para te perder e tornar infeliz.
Após este estranho monólogo, que o Joaquim não sabia a quem havia sido dirigido, a sua esquelética companheira, voltando-se para ele, disse-lhe:
- Amigo Napoleão, chegou o momento da verdade e espero em si um aliado, pois um inimigo só iria tornar o meu trabalho mais difícil.
- Explique-se, minha querida Sra., o seu preambúlo deixou-me cheio de curiosidade. Pode crer que terá um amigo a seu lado, aconteça o que acontecer!…
Tem a minha palavra! Estou pronto para qualquer batalha!
- Havíamos chegado já à conclusão de que não eramos simples mortais e que os nossos estranhos poderes, faziam parte do mundo de espíritos em que nos encontramos, disse a D. Henriquêta, o que ainda não sabíamos até ao momento, era a quem havíamos estado ligados na Terra.
Acabo de o descobrir, apenas para verificar que o meu marido está em grande aflição e precisa da minha ajuda, ou talvez da nossa.
- Posso saber quem era o seu marido?
- Pois evidentemente; vocês até fizeram amizada; o seu nome é Acácio
Bandeira, professor secundário.
Napoleão sentiu como se uma pancada lhe houvesse ferido a fronte e lhe tivesse chocalhado as ideias; via agora claramente um passado, que até aí lhe teimara em fugir.
A visão furtiva da sua Lau-ra, mergulhada em solidão e tristeza, passou-lhe breve pelos olhos; pela primeira vez sentia saudades de um corpo que já não possuia. Assaltára-o uma nostalgia tremenda.
- Pelo que vejo, abri-lhe as portas do seu passado, disse a D. Bandeira, com um sorriso onde transparecia cumplicidade.
- E de que modo! Pode a custo balbuciar o Napoleão.
- Não se agarre a ideias mórbidas e seja prático. A Laura no presente está num corpo e o Joaquim, tal como eu, não tem nenhum para lhe oferecer. Olhe apenas para a situação em que a pobre vive agora e procure ajudá-la. Presumo que ela, como o meu marido, não esteja a levar uma vida que possa chamar-se invejável!
- Tem toda a razão Henriquêta, tudo isto veio de improviso, perdoe-me a minha fraqueza momentânea; já passa!
Haviam perdido a cerimoniosidade inicial, começando a tratar-se por tu, o que os ponha mais á vontade, para, na qualidade de aliados, ouvirem confidências e assentarem planos.
- Devo começar por dizer-te que fui uma má esposa e má amiga e que até certo ponto fui culpada na infelicidade que rondou no meu lar e nas nossas relações.
- Não vejo de que modo isso nos pudesse ter afetado, disse o Joaquim, que não era muito dado a compreender maquinações ou enrêdos femininos, como que a tentar desculpar a sua amiga.
- Em breve o compreenderás, quando acabar a minha história.
"Como sabes morávamos na mesma rua, em casas ao lado uma da outra, apenas separadas nos quintais por um muro baixo. Muitas vezes quando a Laura te preparava os seus magníficos cozinhados, eu tinha de ir à pressa fechar a porta de rede que dava para o pátio."
Joaquim, olhos fixos num ponto vago, parecia não deitar atenção à conversa. Mais do que tudo, pensava nos acepipes culinários que perdera para sempre, e a visinha teimava em recordar.
- Vejo que te penduras de novo num galho frágil, meu amigo! Por aqui não há frangos assados no espêto, nem estômagos para os digerir.
Envergonhado joaquim Napoleão, como uma criança apanhada em flagrante, prometeu pela segunda vez escutar atento, a narrativa da Henriquêta Bandeira. Esta continuou:
- "A razão porque fechava a rede, não é difícil de compreender, as minhas dietas estúpidas, traziam-me numa fome permanente e esses odores, Joaquim, eram insuportáveis, quase me enlouqueciam. Quantas vezes me senti tentada a ir bater-te à porta e sentar-me à tua mesa."
- Teria sido um prazer para mim e para a Laura que sempre gostamos da vossa companhia, interrompeu de novo o Napoleão, feliz por falar do seu tópico favorito.

(continua na próxima edição)

Toronto - 1989
Leia do autor:
A Ilha do Dolphin
e Folhas Levadas
P'lo Vento


Copyright © 2003, VOICE Luso Canadian Newspaper Ltd. First Luso Canadian Paper to Jump on the Net! For more information contact [email protected]
 
Toronto,
12/Maio/2003
Edição 780

ANO XXIII

    F. Feliciano de Melo
   

 

 

  Desenvolvimento - AW ART WORK