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" ENCONTRO INESPERADO "
C O N T O

- Pode confiar em mim, respondeu tímida e curiosa a D. Laura, ao mesmo tempo que sentia aumentarem-lhe as pulsações do coração.
Apertando as mãos com um certo nervosismo, o Acácio começou:
- Gostaria que jantássemos juntos todos os Domingos, ou melhor todos os dias, mas a nossa sociedade nestas coisas começa logo a meter o nariz e a fazer comentários desagradáveis. Como nenhum de nós tem qualquer motivo, suponho, que possa impedir que jantemos juntos para o resto dos nossos dias, proponho simplesmente que nos liguemos pelo matrimónio.
D. Laura a quem o sangue subira às faces, estava de olhos no chão, muda como um penedo. No seu íntimo uma onda de prazer, havia-a tomado por completo e duas lágrimas afloraram-lhe aos olhos, sem que desta vez fossem dedicadas ao Napoleão.
O Acácio surpreendido do seu próprio arrojo, olhava com certa inquietação para a face transtornada da sua amiga e para as lágrimas, a que equivocado, dera uma interpretação errada. .
- A Laura perdõe-me se a molestei com a minha proposta de casamento. Fui impulsivo, deveria ter esperado mais alguns meses...
- Peço-lhe que não faça de mim uma ideia errada, não queria ofendê-la! Notando a aflição que se estampava no rosto do Bandeira e já recomposta, tomando-lhe a mão carinhosamente, a D. Laura disse:
- Não se aflija meu bom amigo, aceito a sua proposta, que o meu marido lá no céu, ou onde quer que se encontre, por certo aprovaria.
- Aprovaria, como quem diz, resmungou uma sombra anafada, perto do reposteiro, com um sorriso a geito de careta… Uma outra sombra magrizela havia-lhe pisado os calos.
- Podemos começar as formalidades legais, continuou a dona da casa, que nos permitam jantar juntos todos os dias, sem receio de bisbilhotices. Não somos crianças e sinto que o Joaquim e a Henriquêta aprovariam a nossa decisão.
- E´ curioso, tenho o mesmo sentimento, apoiou o Bandeira; quase me sinto tentado a afirmar, sentir a mão deles neste nosso romance!
- Quem sabe?... Disse a Laura com um arrepio.
Com o acordo assentado para uma próxima união, chegara de novo o momento para as duas sombras conspiradoras, debandarem sorridentes daquela casa.
- Estão a ir depressa os marotos, comentou a Henriqueta.
- Pudera não, respondeu o Joaquim, com uma mulher bonita, carinhosa e boa cozinheira, não há que perder tempo!…

* * *

A cerimónia fora simples e a recepção que se seguira, limitada a meia duzia de amigos íntimos de ambas as partes. Os Bandeiras quase não haviam tocado no jantar, a felicidade não os deixava comer.
Quando chegou o momento dos noivos e convidados se retirarem, o Napoleão, que desde o princípio, na companhia da sua amiga, viera a seguir o desenrolar dos acontecimentos, com interesse mórbido, que a estrategista a seu lado viera controlando, perguntou-lhe:
- Que fazemos agora? Achas que devemos segui-los?… Para o caso de precisarem qualquer coisa!…
- Quanto ao resto, sabem como proceder e sentir-se-hão melhor sem os nossos auxílios. - Proponho que os esqueçamos! A nossa missão terminou!
- Parece-me que tens razão Henriquêta, é tempo que cuidemos de nós.
- A propósito, meu querido amigo, com a azáfama dos últimos dias, noto que tens vindo a perder algum peso, acho-te mais elegante! Toma porem cuidado, não quero que adoeças!…
- Escuta minha sereia, o peso que me falta, ganhaste-o tu, o que diga-se de verdade, te torna bastante sedutora e é um bom sinal de saúde!...
- Malandro, a falar de saúde, quando nem sequer vida tem! Devia ter-te conhecido no meu passado, quando era ainda livre… Não dirias esses galanteios impu-nemente; agarrar-me-ia a ti, fazendo-te o meu imperador!
- Podes crer que se tal coisa tivesse acontecido, duas das minhas primeiras batalhas contigo, teriam sido travadas na cozinha, fazendo-te cozinhar e obrigando-te a comer!
- E quem sabe?… Talvez fosses mesmo capaz de as vencer!
Com estas últimas palavras, enlaçando-se, no que parecia um tardio devaneio, ambas as sombras desapareceram no espaço.

Toronto - 1989
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P'lo Vento


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