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Mulheres Apaixonadas
Para se entender o inconsciente coletivo, o porquê do impacto desta novela de mulheres no cio, é necessário sair um pouco do reducionismo imposto tanto pela psiquiatria como pela psicanálise

Estou lendo um livro que aborda aspectos da psiquiatria e da psicanálise, e vou basear-me nele, pelo menos vou tentar, para analisar a novela das oito da Rede Globo que tem o título deste artigo. Recentemente tive a oportunidade de assistir a um capítulo deste dramalhão global, e as cenas que vi causaram-me um profundo impacto. Uma mulher é espancada pelo marido e não o denuncia porque tem medo, uma outra, por se sentir rejeitada, esfaqueia o marido que não a quer mais. Acredito que do ponto de vista psicanalítico, o sentimento de paixão, em um relacionamento a dois, pode ser considerado patológico. Sendo assim, as mulheres da novela das oito, Mulheres Apaixonadas, estão padecendo de um transtorno mental, carente de cuidados psiquiátricos. Como as produções globais são feitas para mexer com o inconsciente coletivo, há muitas pessoas interessadas em saber que loucura é esta, se é contagiosa como é a pneumonia asiática, se é capaz de matar como nas UTIs deste país, se tem cura, e qual seria a medida preventiva no caso de uma epidemia.

Em primeiro lugar diria que a paixão é um amor acendrado, alimentado de forma ardente pelo fogo do narcisismo. A história mítica de Narciso serve, de forma simples e clara, para esclarecer esse sentimento. O seu namoro com Eco jamais daria certo. Ele se achava bonito demais e sua beleza lhe bastava, motivo pelo qual morreu quando mergulhou no lago para abraçar a sua imagem refletida na água. Ele não conseguia se auto-representar de outra maneira porque o seu insight encontrava-se ofuscado pelas forças pulsionais do seu inconsciente. Em síntese, a paixão é pura masturbação, ou seja, nos papéis que na novela representam, elas adoram a si mesmo.

Em segundo lugar, a Organização Mundial da Saúde (OMS), através da sua atual classificação das doenças, aboliu de vez a idéia de doença. Portanto, não existe mais doente psiquiátrico, mesmo que louco de pedra, só existem transtornados. Então elas são um bando de transtornadas. Isto significa dizer que a psiquiatria contemporânea pouco valoriza a etiologia da enfermidade, como também, a história de vida do paciente. A estratégia é delinear quadros sindrômicos, onde os sinais e sintomas são agrupados conforme critérios estabelecidos por grupos de estudiosos no assunto. Moral da história, o número de síndromes tem aumentado assustadoramente e curiosamente pouco se fala em cura. Anos atrás elas seriam diagnosticadas de ninfomaníacas, mulheres realmente taradas.

Para se entender o inconsciente coletivo, o porquê do impacto desta novela de mulheres no cio, é necessário sair um pouco do reducionismo imposto tanto pela psiquiatria como pela psicanálise. Epistemologicamente sabemos que os conceitos são mutantes, como a ninfomania e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC-sexo) que é o mal de que elas padecem. Obsessão é idéia fixa e repetitiva que aprisiona o indivíduo, da mesma forma a compulsão que produz um acrisolamento do ser pelos rituais irracionais. Quando se tenta romper com este circulo mórbido, o indivíduo pira nas idéias com paranóias ou afetando o organismo com somatizações, tonturas, angústias e outras sensações desagradáveis.

Quanto a uma possível ''epidemia'', um meximento em massa do inconsciente feminino, diria que a nossa sociedade atual não é puritana e nem machista como antigamente. Indubitavelmente as mulheres ampliaram os seus espaços real e simbólico. Como nada é de graça, o homossexualismo tem crescido vertiginosamente. Hoje não se fala mais em feminismo, a luta agora é mercadológica e o sexo tornou - se uma mercadoria vulgar, não precisa ir a farmácia, loja, nem bodega, ele está na rua e abunda mais do que venda de camelô.

Dessa forma, o TOC-sexo pode matar, é uma epidemia de narcisismo, não existe pílula milagrosa. A psicoterapia tende a aumentar o narcisismo, grupos de auto-ajuda do tipo Alcoólicos Anônimos são mais oportunos. Como não existe cinto de castidade como antigamente, a prevenção é ter juízo e não ser Maria vai com as outras.

* Paulo J. Rafael é jornalista, professor universitário e doutorando em Ciências Políticas e Administração Pública pela AWU- American World University of Iow



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Toronto,
2/Junho/2003
Edição 783

ANO XXIII

   
   
    * Paulo J. Rafael
   Direto do Brasil
   

 

 

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