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" O CARPINTEIRO "

Antes porém de poder realizar o enlace que vinha apressando nascera o filhito, inconsciente das dificuldades financeiras à sua volta.

Fora mais um revés para o carpinteiro que amava enter-necidamente a jovem mãe e o pequenino fruto dos seus amores.

Como se tal não bastasse, numa tarde de triste lembrança, o jovem ao regressar do trabalho viu que mãe e filho tinham desaparecido de casa.

Como louco o carpinteiro correra o povoado à procura deles ou de qualquer indício, que pudesse orientá-lo nas suas buscas, sem qualquer resultado. Fulminado por mais aquela nova agressão da má sorte e sem coragem para continuar a lutar contra ela, decidira aca-bar a existência, de novo mergulhada numa solidão atroz.

A noite tormentosa em que não conseguira pregar olho a debater o modo que iria usar para findar com a sua triste vida, acabou por arrebatá-lo sobre a manhã, mergulhando-o num sono profundo em que continuou, através de um pesadelo horrível, a luta em que o seu subconsciente estava empenhado.

Via-se a caminhar para a curva do rio que passava além num pinhal, junto ao povoado - numa garganta funda e apertada, onde as águas eram bastante tumultuosas e pretendia lançar-se.

Dos tufos de verduras e trepadeiras, que no local serpenteavam à volta das árvores - o vulto desgrenhado de sua mãe, tendo os olhos desmesuradamente abertos, corria para ele de braços abertos. Podia ver-lhe na face uma súplica angustiada.

O fantasma querido do seu passado estendia-lhe as as mãos. Os seus lábios moviam-se numa petição:- José, o teu corpo não vale muito! Lembra-te porém que não é teu para dispores dele; nunca te pertençeu!… Não queiras desgraçar a tua alma!… Tudo há-de passar meu filho!… Tudo irá acabar bem, verás!… - Tudo irá… Sem concluir, o fantasma ou visão da mãe sumira-se do pesadelo, porém as suas palavras aflitas, continuavam a ecoar-lhe no cérebro, a ferí-lo como línguas de fogo!

O pobre carpinteiro acordara estarrecido da experiência - tal a veracidade da visão, disposto de momento a acei-tar o pedido sobrenatural, produto de um sonho, para o qual talvez a sua mente excitada tivesse contribuido!… Ou quem sabe o espírito de sua mãe que muito o amara e a quem ele retribuira do mesmo modo!

Resolvera deixar por al-gum tempo aquela terra que sempre lhe fora adversa e ir procurar esquecer-se noutro lugar, das suas ideias suicidas ou encontrar um bálsamo para as suas dores!…

Aproximava-se o Natal, Festa de alegria para celebrar com família!… Ele não tinha ninguém, nem tampouco coragem…

Apenas sombras habita-vam o seu pequeno casebre… Pelo menos ao longe, não sentiria tanto a presença delas.

*

O Sol ao mover-se na sua rota diurna, deixara de incidir sobre os cristais do candelabro, fazendo desaparecer os pingos luminosos de vermelho, amarelo e azul, onde o carpinteiro por algum tempo tivera a vista pregada, despertando-o das suas reminiscências tristes.

Embrenhado nos seus pensamentos, o jovem e acabrunhado mestre, não dera que a igreja aos poucos, tinha vindo a encher-se. Lá encima o padre acabava de entrar no altar.

Decidindo assistir à missa, o carpinteiro puxou o casaco e as ferramentas para junto a si, afim de fazer lugar no banco para algum retardatário. Um jovem, talvez pela sua idade, acabava de ajoelhar-se a seu lado, entregando-se piedoso a uma oração.

* *

Como faltassem apenas duas semanas para o Natal, o celebrante dissertara no evangelho, acerca da aceitação do homem à vontade de Deus.

Apontara como exemplos a aceitação de Maria aos Seus desígnios de fazê-La a Mãe do Redentor e ainda a de S. José, o carpinteiro de Nazareth, pai adoptivo de Jesus, que ao descobrir a gravidez da Esposa pensara repudiar discretamente a virgem e fora exclarecido num sonho pelo anjo do Todo Poderoso, do que vinha a operar-se com sua mulher tendo também ele aceitado a Sua vontade.

Era talvez isso o que lhe vinha faltando, pensou Matias, abrindo esperançoso o espírito, à palavra de aceita-ção, enquanto varria para longe da mente, as suas ideias suicidas.

Os fieis aos magotes, iam saindo… A missa havia acabado.

O pobre mestre começou também a recolher as suas coisas para deixar o templo, quando deu pelo jovem que se ajoelhara a seu lado, de olhos fitos nele, como a tentar dizer-lhe qualquer coisa.

Toronto - 1989
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Toronto,
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