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NAS ILHAS COM
A SENHORA DA BOA VIAGEM (2)

 

Como ficou dito anteriormente, a primitiva ermida no Bairro do Corpo Santo (Terceira) assentava numa rocha sobranceira á baía d'Angra, e era da invocação de S. Pedro Gonçalves. Em data imprecisa passou a ser conhecida por Ermida de N. S. da Boa Viagem, e continuou ao cuidado dos pescadores, merecendo dest'arte a carinhosa alcunha de "ermida dos mare-antes." Foram os próprios pescadores aqueles que mais directamente, nos anos 1930, se responsabilizaram pela transferência e construção da ermida actual.

Escrevendo p'ró jornal "A União" nos anos 1970, Valdemar Mota registou os apontamentos que, a seguir, transcrevo num aceno da nossa velha amizade:

"No alto da rocha fronteiriça ao Porto de Pipas e à imensão do mar, existia ainda nos princípios deste século a ermidinha do Corpo Santo, também conhecida por ermida dos Navegantes ou de S. Pedro Gonçalves. Dizem que era dos templos mais antigos da cidade d'Angra e terá sido ao tempo da navegação á vela luzeiro alto p'ro qual os navegantes em perigo levantariam os olhos aflitos e pronunciariam preces, ou se encomendavam na hora da partida. Ermida de N. S. da Boa Viagem p'rós homens do mar era salvação, o fogo de santelmo, S. Pedro Gonçalves, lumo vivo (na fraseologia camoneana), Corpo Santo como ficou sendo conhecida a branca ermidinha do alto do Cantagalo p'rós marítimos da terra e p'rós navegadores de longo curso. Corpo Santo entrou também na toponímia da terra desde recuados tempos. O velho bairro marítimo da cidade - o bairro do Corpo Santo - ainda hoje se nos afigura envolto no mistério e doce perfume da crença lendária dos antigos mareantes."

(Histórias & Tradições dos Açores, Pg. 99, Ed. 1986).

Nas notas p'rá toponímia da cidade d'Angra, que o Instituto Histórico da Ilha Terceira publicou no seu Boletim em 1946, e depois coligiu p'rá edição em 1985 do livro intitulado Ruas da Cidade & Outros Escritos, o respectivo autor dr. Henrique Bráz (1884-1947) recorda "a sadia, alegre e canora qualificação de Cantagalo, ao cimo da rocha, frente ao mar, compreendendo a rua que tem o nome camarário do Castelinho e do largo, onde foi a ermida, desce ao porto de pipas." Embora não se encontre em documentos antigos, de há muito Cantagalo serve de ponto de referência á conhecida faixa do bairro albergando a Ermida do Corpo Santo dos Mareantes.

A Senhora dos Mareantes
Tem vistosa morada:
Fica lá no Cantagalo
Á beira d'água salgada.

A Senhora da Boa Viagem,
Como ela sabe brilhar:
Tem a sua ermidinha
Levantada á beira-mar.

Apenas a título de curiosidade, convém relembrar que a expressão CORPO SANTO deve-se à ingenuidade dos marítimos em relacionar com a intercessão de S. Pedro Gonçalves "o fenómeno metereológica natural de descargas elétricas luminosas de fraca inten-sidade, que provocam o aparecimento de corpos luminosos de várias cores ( corpo santo) nos mastros dos barcos, o que era considerado como bom augúrio por ser sinal de que o tempo ia melhorar. " (Padre Vital Cordeiro Dias Pereira, Igrejas & Ermidas da Graciosa, Pg. 235, Ed. 1986).

Merece interesse acrescentar que tal fenómeno aparece na última fase duma trovoada, depois de passar o vento forte e a agitação do mar que o acompanha, a cujo respeito Cortes Rodgrigues escreveu: "Por isso veio a chamar-se fogo de Santelmo á chama azulada que, na eminência dos temporais, fosforeia na extremidade dos mastros das embarcações. E daí bradarem os marinheiros ao ver o fenómeno da electrização, acreditando que era o próprio S. Pedro Gonçalves que os vinha socorrer: Corpo Santo! Corpo Santo! " (Voz do Longe, Vol. I, Pg. 36, Ed. 1973).

Viajando agora até S. Jorge, deparamos com a Senhora da Boa Viagem na encantadora ermida que o povo construíu no lugar do Portal, p'ra onde a sua ima-gem foi transportada em Procissão na manhã de sábado de 26 d'Outubro de 1901. O cortejo teve início na Matriz de Santa Catarina e alongou-se até ao Portal p'rá cerimónia da benção da ermida.

No primeiro volume das suas Notas Históricas, o Padre Manuel de Azevedo da Cunha (1861-1937) assinala que o cortejo tornou-se deveras pitoresco, não só pela sua extensão numa estrada primitiva, mas também pela variedade dos trajes de cerca de três mil participantes, "ora acotevelando-se, ora separando-se, através daquelas veredas, subindo e descendo em linha quebrada, aparecendo de outeiro em outeiro." No adro da ermida apinhavam-se muitos romeiros á espera da Senhora, ouvindo-se violas a tocar e reinando muita animação pelas barracas, onde se vendia pão e queijo, vinho e licores.

Senhora da Boa Viagem,
Senhora tão marinheira,
Inda cá hei-de voltar,
Ou casada ou solteira.

Senhora da Boa Viagem,
Eu bem alto vo-lo digo
Não torno lá outro ano
Sem levar amores comigo.

Desembarcando no Pico, estugámos o passo p'ra ir abraçar N. S. da Boa Viagem, quer na ermida do lugar do Arco, inaugurada aos 4 d'Agosto de 1935, quer na ermida no lugar da Areia Larga, benzida a 21 de Junho de 1981.

A Senhora da Boa Viagem
Veio descalça lá do mar,
Chamar-nos á penitência
P'ra bem de nos salvar.

A Senhora da Boa Viagem
Fica mesmo á beira-mar:
Quando o sol se está a pôr,
Dá-lhe a réstia no altar.

Atravessando o Canal aportamos ao Faial, e por intermédio de Marcelino Lima ( Anais do Município da Horta ) descobrimos a Ermida de N. S. da Boa Viagem, ignorando-se a data da sua função, mas sabendo-se ter sido instituída por Francisco de Barros e consorte, que nela foram sepultados. Valeu-nos aqui Diogo das Chagas com o seu Espelho Cristalino indicando (página 477) que esta ermida é dos mareantes, e está pegada a um forte de boas peças de artilharia. Achei deveras curiosa a sua observação de que a Horta "está cercada de ermidas, conventos e templos, servindo-lhe como de fortalezas, e defendendo-a de seus inimigos, em particular dos Mouros.

Senhora da Boa Viagem,
Vós onde estais bem nos vedes;
Cortai os mastros aos mouros,
Que rondam os portugueses.

Senhora da Boa Viagem,
Eu na vossa ermida estou;
Botai-me a vossa benção
Qu'eu sem ela me não vou.

Gaspar Frutoso não fala desta ermida, mas temos o testemunho de António Cordeiro informando-nos que ela se encontra "junto do porto da Horta, é confraria dos mareantes e muito rica." (História Insulana, Pg. 453, Ed. 1981). Este testemunho foi corro-borado por Frei Agostinho de Santa Maria, ex-vigário geral da Congregação dos Agostinhos Descalços de Portugal, no livro que publicou em 1723 ao título sugestivo de "Santuário Mariano & História das imagens milagrosas de Nossa Senhora & das milagrosamente aparecidas que se veneram em todo o bispado do Rio de Janeiro & das Minas & em todas as Ilhas do Oceano."

E termino a minha romaria revelando que Guido de Monterey, no seu livrinho sobre o Faial, inseríu uma reprodução fotográfica da Capela de N. S. da Boa Viagem, algures em Castelo Branco, com um barco varado justamente á porta d'entrada da moderna ermida faialense.

A Senhora da Boa Viagem
Prometeu-me boa sorte,
Mas se tal for em vida,
Prefiro-a à hora da morte.



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Toronto,
7/Julho/2003
Edição 788

ANO XXIII

 
      Por
Ferreira Moreno

   


 

 

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