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" O CARPINTEIRO "

O encontro daquele olhar, que nada tinha de casual, provocou no carpinteiro uma comoção inexplicável, mixta de confiança e bem estar como já não sentia há muito.

- Está de novo aqui na vila? Quiz saber o desconhecido.

- Sim, repondeu baixo o Matias, com um assentimento da cabeça! Cheguei esta manhã.

- Veu por trabalho? Voltou a perguntar o estranho interlocutor apontando para as ferramentas, como quem se mostrava interessado.

- Sim… Por trabalho, que ninguém vive sem comer!… Mas acima de tudo para fugir à minha triste vida!

Meneando a cabeça a geito de solidariedade o jovem propôs:

- Vamos até lá fora! Este lugar não é próprio para conversas… Julgo poder indicar-lhe onde precisam um carpinteiro disse o estranho em tom convincente olhando intencionalmente para as pobres ferramentas do Matias.

No adro, contornado por um muro baixo, que ladeava a igreija e se abria numa escada para a rua, os dois homens, abrigando-se do vento frio que soprava, haviam procurado o vão de uma das portas laterais, para acabarem o diálogo que haviam iniciado no interior do templo.

- Não precisa ir longe - aqui na casa da paróquia, estão a precisar de carpinteiro. Têm lá trabalho para uns tempos, o qual o ocupará e ao mesmo tempo o impedirá de fugir à sua vida.

O Matias sorriu, um sorriso triste, que não podia disfarçar. Aquele amigo de ocasião, que devia ser boa pessoa, e talvez nunca houvesse experimentado contratempos na sua vida, não se esquecera do pormenor, que sem querer, lhe havia mencionado na igreja.

- Não fuja da vida, meu amigo!… Procure fazer-lhe frente com coragem, de outro modo não encontrará nunca felicidade. Todos os homens têm momentos de desânimo! Até Cristo, para nos mostrar a fraqueza humana, os teve, pedindo auxílio ao Pai! - Não descreia Dele! A sua bondade é imensa!… Peça-lhe confiante!

Matias meneava a cabeça em sinal de assentimento ás exortações sensatas daquele homem, que pela sua idade, se lhe afigurava extraordinário e do qual emanava um magnetismo poderoso que o inibia de enfrentar por longo tempo o seu olhar. Dando uma ligeira palmada no ombro do carpinteiro, em geito de despedida, o jovem desconhecido partiu, deixando este imerso numa onda de bem estar e confiança como já há muito não experimentava.

Parecia-lhe sentir mais o frio, agora que se encontrava só. O melhor seria ir procurar o trabalho da casa paroquial, que o estranho mencionara.

* *

Correndo por entre a multidão que saia da missa, pedindo desculpa a uns e atropelando outros, José Matias procurava chegar próximo de uma jovem, que em companhia de uma mulher de meia idade, se dirigia para uma das ruas laterais. Inconsciente de haver despertado o interesse de quem quer que fosse, ali na casa de Deus, a jovem sentindo que a seguravam pelo braço, fitou com os olhos desmesuradamente abertos o homem que saíra da multidão para a vir agarrar.

Conhecia-o bem, a jovem desconhecida que sem aviso o havia abandonado e parecia agora (dada a sua palidez) não ter coragem de o enfrentar.

- Estás a magoar-me José, queixou-se a jovem é melhor que falemos! Largando o braço da rapariga o Matias disse:

- Márcia, porque me abandonaste? - Que mal te fiz eu para me infligires tamanha dor?… Quase estive para dar cabo de mim!

A outra mulher que era a mãe da jovem chegara-se para ela em geito protectivo, olhando para o carpinteiro, com uma expressão de surpreza e curiosidade no semblante…

Era então aquele o homem que amara a filha, do qual ela tanto lhe falara. Gostava dele; por qualquer razão o operário emoldurava-se ao quadro do homem que a filha lhe tinha posto na ideia!

Trémula com os olhos marejados de lágrimas, Márcia replicou:- Este não será talvez o lugar mais indicado, para te dar a explicação a que tens direito. Enquanto assim falava, a rapariga procurou fitar a mãe, que lhe deu um leve sinal de adesão com a cabeça.

- Vem conosco, em casa poderemos falar, se acaso estiveres disposto a ouvir a minha história até ao fim, convidou a rapariga.

O jovem desconhecido, que na chegada do carpinteiro á vila, estivera ajoelhado a seu lado na igreija e falara com ele no adro, acabava de passar por eles, trocando uma ligeira saudação em que envolvia todos.

- Sempre lhe deram o trabalho na casa paroquial? Perguntou num tom bondoso e interessado.

- Sim, meu bom amigo; - nunca poderei esquecer a sua amável interferência e acima de tudo os seus bons conse-lhos. Encontrava-me perdido, sem atinar com um rumo.

Toronto - 1989
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