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NOVAS DA
 SRA. DA BOA VIAGEM (1)

 

Desde já previno que esta crónica em nada se relaciona com cadeia regional da Boa Nova em Ponta Delgada, nem tão pouco se intromete na polémica gerada à volta do hospital militar da Boa Nova em Angra do Heroísmo.

Tenciono simplesmente discorrer àcerca dum aspecto da religiosidade popular açoriana, espelhada na devoção a Nossa Senhora da Boa Nova, e assinalada em encantadoras ermidas dispersas pelas nossas atlân-ticas ilhas.

Senhora da Boa Nova,
Pequenina e airosa,
Venho aqui de tão longe,
Só p'ra ver tão linda rosa.

Desejo, ó minha Senhora,
Cantar-te cada vez mais, Amar-te sempre na terra
E no céu onde habitais.

Começando pela ilha de Santa Maria, informa-nos Urbano de Medonça Dias que, na Vila do Porto, "junto ás casas de João Severino Gago da Câmara levanta-se a ermida de N.S. da Boa Nova, de que foi primeiro padroeiro o sargento-mór João de Sousa Falcão, no século 17." (História dos Açores, Pg. 26).

Diz-me igualmente ter sido esta ermida edificada pelo "capitão-mór João Falcão de Sousa e sua mãe D. Margarida de Sousa, junto das casas da sua residência em Vila do Porto, sendo-lhe dado património por escritura pública de 6 d'Abril de 1657." (Apontamento Histórico & Etnográfico, Vol. IV, Direcção Escolar de Ponta Delgada).

João Falcão de Sousa foi superintendente das for-tificações de Santa Maria, e participou no cêrco ao Castelo da ilha Terceira na época da Restauração, tendo-se distinguido pelos seus feitos militares.

No primeiro volume das suas "Crónicas", Monte Alverne inclui o nome de N.S. da Boa Nova entre as várias ermidas pertencentes á Matriz da Vila do Porto ...

Senhora da Boa Nova,
Acolhe neste dia
Meus votos e louvores,
Cheios de tanta alegria.

Senhora da Boa Nova,
Lá vos deixo o meu cordão;
Ele fica bem entregue,
Senhora, na vossa mão.

Passando á ilha de S. Miguel, a invocação de N. S. da Boa Nova aparece na lista das ermidas pertencentes á paroquial de S. Pedro em Ponta Delgada, e devidamente enumeradas quer no segundo volume das "Crónicas" de Monte Alverne, quer ainda no livro "A Margarita Animada" de Francisco Afonso de Chaves e Melo.

É, porém, Diogo das Chagas quem nos fornece esta mui preciosa notícia: "Nossa Senhora da Boa Nova, que ao longo de suas casas aonde se diz calheta, fundou Pedro Borges de Souza, e é uma das mais perfeitas e acabada ermida em seu tanto, de todas quantas tem a ilha."(Espelho Cristalino, Pg. 189, Ed. 1989).

Por calheta entende-se, no dizer de Gaspar Fru-tuoso, "um pequeno porto de cascalho, chamado a Calheta de Pero de Teve, do nome dum homem honrado que ali morava, aonde têm hoje seus her-deiros suas custosas casas." (Saudades, Lv. IV, Pg. 177, Ed. 1998).

Urbano de Mendonça Dias assegura-nos que esta ermida, situada na Calheta, teria sido construída em 1610 por Pedro Borges de Gandia, que a dotou com cinco alqueires de terra. Em meados do século 19, o terreno foi expropriado á família Borges de Sousa quando se construíu a Cadeia da Relação dos Açores, edificando-se uma Capela no interior do edifíci, invocada á mesma Senhora. (História dos Açores, Pg. 37).

O retábulo da primitiva ermida encontra-se presentemente na ermida de N. S. do Loreto, mandada edificar em 1699 pelo Capitão Lourenço de Frias Coutinho, na Fajã de Baixo, onde se realiza anualmente, na primeira oitava da Festa da Páscoa, uma concor-ridíssima romaria conhecida pela designação de Romaria á Senhora da Boa Nova. Actualmente, "quase se esqueceu o nome de Senhora do Loreto, devido á grande devoção que os fieis ali vêm manifestar a N. S. da Boa Nova. " (Apontamento, Vol. V, Direcção Escolar de P.D.).

Senhora da Boa Nova,
Mandai acender as velas,
Que vos vem p'ra visitar
Um ranchinho de donzelas.

Senhora da Boa Nova,
Mandai acender as velas,
Que vos vem p'ra visitar
Um ranchinho de donzelas.

A tradição, acima aludida e conhecida por Segunda-Feira da Boa Nova, foi recentemente registada na "Nota de Abertura" assinada pelo nosso bom amigo Santos Narciso, recordando que antigamente "o estabelecimento prisional da Boa Nova, na Calheta, engalanava-se e iluminava-se. Durante todo o dia era bonito ver-se as centenas de pessoas que prestavam homenagem á Virgem e ali também confraternizavam num dia diferente. O mesmo acontecia com a célebre romaria á Senhora da Boa Nova, na Fajã de Baixo, hoje apenas uma saudosa memória que seria bom algum grupo ou instituição tentar restaurar e manter, como muito se tem feito a favor do património colectivo desta ilha. " (Atlântico Expresso, 21/Abril/03).

Numa edição comemorativa (1999) dos 500 anos da elevação de Ponta Delgada a Vila-Concelho, lê-se na página 38 que no interior da ermida de N. S. do Loreto, "guarda-se uma tela pintada por Reinoso no início do século 17, que é ainda hoje objecto de devoção popular e concorrida romaria anual á Senhora da Boa Nova."Transitando agora ao Faial, apraz-me transcrever a seguinte informação de interesse histórico que nos legou Diogo das Chagas:

"Vindo pelo norte, por cima da Vila (Horta), em distância dum tiro de mosquete está outra ermida, que fez o capitão-mór Francisco Gil da Silveira, e sua mulher Helena de Boim, que é muito formosa com sua cerca e suas casas em roda, com seu páteo e claustro, merecedora de nela se fundar um convento, do orago e invocação de N. S. da Boa Nova." (Espelho Cristalino, Pg. 476, Ed. 1989).

António Cordeiro escreveu a este respeito: "Há mais nesta nobre Vila (Horta) um Convento de Carmelitas, fundado há mais de 60 anos por Helena da Silveira, viúva do capitão-mór Francisco Gil da Silveira." (História Insulana, Pg. 453, Ed. 1981).

Afinal de contas, em que ficamos - Ermida da Boa Nova ou Convento do Carmo?

Não querendo deixar o devido crédito em mãos alheias, nos seus Anais do Município da Horta, explica-nos Marcelino Lima que o capitão-mór e sua esposa tinham, de facto, determinado fundar uma ermida com a invocação de N. S. da Boa Nova em 1639. No entanto, depois de viúva, D. Helena decidíu ampliar a devoção, criando junto da capelinha um hospício a fim de agasalhar frades carmelitas.

Visto que o casal não tinha filhos, não houve dificuldades em revogar o testamento e obter licença do rei D. João IV em 1649 p'rá fundação do ambicionado hospício que, a seu tempo, tornar-se-ia em convento ou mosteiro, com o acréscimo duma ermida mais ampla iniciada em 1698.

Com a extinção das Ordens Religiosas em Portugal ressalvou-se a igreja, mas o convento passou a património do Estado, servindo de quartel militar, até ficar arruínado pelo terramoto de 1926, dando lugar a outro que agora lá se ergue.

Aqui voltaremos de novo com nova crónica e curiosas novas àcerca da Senhora da Boa Nova!

Senhora da Boa Nova,
Vinde abaixo dar-me a mão,
Que sou romeirinha nova,
Canso do meu coração.



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Toronto,
14/Julho/2003
Edição 789

ANO XXIII

 
      Por
Ferreira Moreno

   


 

 

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