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S.A.R.S. E A POLÍTICA
Este é um assunto que quer queiramos ou não nos atinge a todos, especialmente numa altura em que tantos luso-canadianos estão a concorrer.

Lá está ele a misturar a política, com tudo, dirá algum leitor com opiniões diferentes das minhas... na realidade, em tudo na vida, as coisas estão relacionadas, e em tudo se envolve a política.

O sujeito, que ontem encontrei no café, e que depois de muitos anos de trabalho, bem pago, num dos maiores hotéis de Toronto, perdeu o seu trabalho, pode rela-cionar o seu problema, não só com o casal desta cidade, que foi a Hong Kong, visitar os filhos, e que aceitou uma prenda, que viria a ser trágica, uma estadia à borla num dos hotéis da cidade, aonde seriam infectados por um médico chinês, de visita à cidade, para assistir a um casamento de família, mas também a muitos outros factores alguns deles políticos, desde o sistema ditatorial da China, em que se esconde a verdade ao povo e aos media, até à eleição de George Bush nos Estados Unidos, à "guerra da madeira" entre esse país e o Canadá e à recusa do governo canadiano de ser um cúmplice na invasão do Iraque. O nosso compatriota, que como muita gente só se interessa pelo futebol e pensa que "a minha politica é o meu trabalho" como se dizia nos tempos antigos em Portugal é afinal uma vítima duma série de acontecimentos políticos os quais ele desconhecia e em que não participou.

Comecemos porém com as boas notícias. Com o último caso da doença reportado há quase um mês, muito além portanto, dos vinte dias que a Organização Mundial de Saúde (W. H. O.) requer para considerar a doença debelada, pode-se afirmar que neste momento a luta contra a doença foi vencida, embora continuem a existir pessoas, com essa doença, a serem tratados em isolamento rigoroso, em certos hospitais de Toronto. Infelizmente, ainda estão a morrer pessoas nesse grupo de doentes, como uma enfermeira, um dos heróis na luta contra a doença. A propósito, essa morte foi noticiada com grande destaque, pela media americana, especialmente a C.N.N., que normalmente pouco se importa com o que se passa no Canadá, o que é parte do processo político a que nos vamos a referir.

De notar, que finalmente, os media em Portugal, descobriram o nome da doença, baptizada pela Organização Mundial de Saúde em meados de Março. Chamam-lhe agora S.R.A., que corresponde a Síndrome Respiratório, Aguda tendo-lhe removido o S, que corresponde a "Severe" que se poderá traduzir por "Severo", ou "grave". Quanto à primeira palavra Sindroma, que também se pode chamar Síndrome ou Sindromo, nestes casos um substantivo feminino, significa como se sabe um conjunto de sinais clínicos e sintomas. Na realidade já era tempo de acabar com a "pneumonia atípica", nome criado há mais de 50 anos para outra doença.

UMA GUERRA ANTIGA

Desde que em 1812, quando os americanos invadiram o Canadá, lançando fogo à cidade de Toronto de que resultou que os canadianos ajudados pelas tropas inglesas e os índios lhes infligiram uma grande derrota e como retaliação, terem invadido Washington aonde queimaram a casa do Presidente, que mais tarde seria reconstruída e pintada de branco, razão porque hoje é chamada Casa Branca, que as relações destes países têm tido pontos altos e baixos. Os baixos, são quase sempre causados por governos americanos da direita, que são pro-teccionistas, isto é têm uma politica de protecção ao comércio e industria americanos em detrimento dos do Canadá, reaccionários e ofendem-se com a política mais progressista e liberal do país em que vivemos ou imperialistas e desejam controlar todo o continente ame-ricano e mundo em geral. Claro que o governo do Sr. Bush, que ganhou as eleições com menos votos que o seu adversário, e por um processo eleitoral, que em certa maneira lembrava as eleições nos tempos de Salazar, pode-se classificar das direitas, proteccionista e desejando dominar o mundo. Desta maneira não admira que hoje nos Estados Unidos, os media quase tão influenciados pelo governo, como o famoso Pravda, o jornal oficial da União Soviética, se dediquem entusiasticamente à tarefa de atacar o Canadá, a quem põem as culpas de tudo, incluindo o ataque terrorista de 11 de Setembro a Nova York e Washington, embora os indivíduos envolvidos, fossem na sua maioria oriundos do grande amigo e aliado dos Estados Unidos, a Arábia Saudita e tivessem sido admitidos legalmente no país, pelas autoridades americanas. A propósito é bom de lembrar que na Arábia Saudita existem os maiores jazigos petrolíferos do mundo, controlados por companhias americanas.

UM CONTENCIOSO MODERNO

Desde que o Sr. George Bush filho, chegou ao poder, que as relações com o Canadá pioraram. O governo do Sr. Chrétien, aos olhos do novo presidente dos Estados Unidos, foi logo de princípio visto como perigosamente liberal e progressista, ao que nada ajudou a atitude digna do primeiro ministro canadense, que ao contrário do seu antecessor, o conservador Brian Mulroney, não foi a correr para a capital dos Estados Unidos, como um cãozinho a abanar a cauda quando vê o seu dono.

Diga-se de passagem, que quando me refiro ao Sr. Bush, terei de esclarecer, que o pobre homem, quando chegou ao poder não tinha a menor ideia do que era a politica do Canadá, como o revelou numa intervenção à CBC em que mostrou que nem sabia o nome do primeiro ministro deste país. É caso para dizer, que em vez do Sr. Bush, devemos mencionar os seus acessores, pessoas com ideologias reaccionárias, imperialistas e de protecção exclusiva aos interesses económicos americanos.

Dentro desta politica de protecção aos interesses económicos americanos, os Estados Unidos, impuseram contra as leis em vigor regulando o comercio internacional, impostos enormes na madeira importada do Canadá e que teve consequências catastróficas para a economia de certas áreas do país como a British Columbia. Claro que o Canadá apresentou o caso a vários tribunais internacionais, que decidiram que este país, tinha duma maneira geral a razão do seu lado. Como era de esperar os Estados Unidos, que se consideram acima de qualquer lei ou tratado internacional, como é o caso das convenções para banir o uso de minas, guerra química ou bacteriológica, protecção dos mares e do ambiente e crimes contra a humanidade, recusaram-se a obedecer aos tribunais, e apesar de meses de negociações a industria da madeira canadiana continua a sofrer perdas incalculáveis.

Embora o Canadá tenha participado na guerra do Afeganistão, na qual morreram quatro militares canadianos, por sinal bombardeados por um avião americano, ele não participou na invasão do Iraque um acto imoral e ilegal, não sancionado pelas Nações Unidas e por as autoridades morais e religiosas deste mundo,desde algumas das principais igrejas protestantes americanas ao Papa.

Desde a recusa do governo do Sr. Jean Chrétien de par-ticipar nesta guerra, que os media americanos, intensificaram os seus ataques ao Canadá.

As leis para descriminalizar a marijuana, por exemplo foram vistas como um ataque aos Estados Unidos, com milhares de drogados vindos do Canadá a corromper a juventude americana, como se eles precisassem da nossa ajuda para ser corrompidos.

Pelos vistos tudo o que se passa neste país, desde as leis de imigração mais tolerantes e humanas ao casamento entre homossexuais serve de motivo para os media ame-ricanos atacarem o Canadá.Tudo isto, obviamente prejudica o turismo e as relações económicas entre os dois países, não sendo apenas o Canadá o prejudicado.

Por exemplo, uma vez que a madeira canadiana era muito mais barata, os impostos excessivos criados pelo governo americano, vieram a aumentar o preço das casas nos Estados Unidos, a ponto de milhares de americanos não serem hoje capazes de comprar uma habitação, devido aos aumentos no custo da construção.

Também, muitos negócios na Flórida, sofreram com a diminuição dos turistas canadianos, assustados com a xenofobia americana e com a maneira como eram tratados, pelas autoridades na fronteira com os Estados Unidos.

DUAS BOAS OPORTUNIDADES

Para aqueles que nos Estados Unidos se dedicam a atacar o Canadá -embora seja importante acrescentar que muitos americanos encaram este país como um exemplo a seguir e admiram a sociedade liberal, tolerante e humana em que vivemos- apareceram duas boas oportunidades para denegrir o país em que vivemos.

A mais recente, que está a custar à província de Alberta e portanto ao país, milhões ou talvez biliões de dólares, foi a suspensão da importação de carne por causa de se ter descoberto, que uma vaca, ao que parece vinda dos Estados Unidos, tinha B.S.E. (doença das vacas loucas). A reacção a que me referi, noutro artigo, é completamente despropositada, tanto mais que nos Estados Unidos, em que o sistema de vigilância e fiscalização do gado, é muito inferior ao do Canadá ou da União Europeia, é impossível saber-se se está ou não livre de infecção. No entanto, os media americanos, têm aproveitado esta pobre vaca para lançarem uma campanha contra o Canadá. A propósito, à semelhança da madeira, os Estados Unidos também têm sido prejudicados pela proibição da importação de carne e mais uma vez os preços subiram devido às medidas draconianas tomadas pelas autoridades americanas.

De notar que a decisão do Japão, que também tem sido um entusiasta pela abolição da importação de produtos de vacas canadianas, a ponto de afirmar que deixará de importar carne americana porque ela pode estar misturada com a canadiana, também está a actuar por motivos políticos.

No Japão aonde houve já sete casos da doença das vacas loucas, o partido no poder, o Liberal Democrático, actualmente a governar em coligação, vai precisar dos voto dos camponeses para ganhar as próximas eleições. Para isso está a arranjar a maneira de banir a importação de carne de vaca estrangeira que é muito mais barata, para favorecer os produtores locais e assim ganhar os seus votos. Outra razão política para o zelo do governo japonez em proteger o seu público da carne canadiana, é o desejo de se limpar, pela incompetência e corrupção das au-toridades, que lidaram com os primeiros casos do SBE no Japão, a ponto de a primeira vaca louca, nem sequer ter sido queimada como mandam as regras de saúde pública e a carcassa ter sido usada, para fabricar alimentos. Aliás os Estados Unidos, estão neste momento muito contentes com o governo do Japão por terem apoiado a guerra no Iraque e acabado com a politica pacifista que existia no país, desde a Segunda guerra mundial. Desta maneira, ao aliarem-se com o Japão, na proibição da importação de carne de vaca canadiana, est!ão por um lado a agradecer a este país de ter sido um cúmplice na invasão do Iraque e por outro a punir o Canadá, por não se ter envolvido em semelhante guerra.

A propósito, isto da economia não parece preocupar o Sr. Bush e os seus amigos milionários. O presidente dos Estados Unidos que tinha recebido da administração do Sr. Clinton uma economia com saldo positivo, com os seus sonhos imperialistas de dominar o mundo, conseguiu produzir um déficite não de milhões, ou biliões mas de triliões de dólares.

O S.A.R.S ou o S.R.A. como agora, finalmente lhe chamam em Portugal foi sem dúvida o grande pretexto para atacar e punir o Canadá.

Oriunda da China, aonde a doença apareceu possivelmente nos últimos dois ou três meses do ano de 2002, nada se soube dela no princípio porque as autoridades chinesas, suprimiram todas as notícias referentes ao assunto.

Se na China existisse uma imprensa livre como no Canadá, talvez as autoridades de saúde pública deste país tivessem tido tempo de tomar precauções a tempo de evitar a disseminação da doença e hoje o nosso compatriota não tivesse perdido o seu emprego, um exemplo típico duma situação política a milhares de quilómetros de distância, ter influência na vida de pessoas que estavam completamente alheadas dos acontecimentos.

A reacção dos media americanos ao S.A.R.S. tem sido sensacionalista, tendenciosa e até desonesta. Não foi só em Portugal que se deu ao público a ideia que em Toronto, a vida tinha parado, as pessoas estavam escondidas em casa e só iam à rua com máscaras. Afinal, os repórteres portugueses, estavam muitas vezes a basear-se na famigerada C.N.N., hoje o porta voz do governo americano. Os nossos "amigos" americanos, não tinham porém a desculpa de estar à distância, e não há dúvida que fizeram o que era possível para assustar os turistas que desejassem visitar o Canadá.

Um outro aspecto interessante da campanha lançada contra o Canadá, foram as insinuações que o que tinha acontecido no Canadá foi devido ao nosso sistema de saúde, que contrariamente ao dos Estados Unidos aonde há hoje quarenta milhões de pessoas sem seguro médico, é como sabemos gratuito e igual para todos.

Como é sabido, a industria de seguros para cobrir as despesas de saúde -os americanos que não são milionários precisam de comprar seguros para custear os custos dos serviços de médicos- é hoje uma das maiores dos Estados Unidos e está ansiosa por entrar no Canadá como já o fez em Portugal e outros países da Europa. Estas "industrias da saúde", com a sua influência nos media americanos, obviamente aproveitaram a oportunidade para denegrir o nosso sistema, tanto mais que sabem que há um grande movimento nos Estados Unidos, para instaurar uma forma de assistência médica semelhante ao do Canadá. Se para o Sr. Bush e seus amigos o Canadá tem todos os defeitos, para milhares de americanos este país é um exemplo a seguir. Mais uma razão para o Sr. Bush e seus asseclas nos detestarem.

APROVEITANDO ATÉ AO FIM

Seriam de esperar, que com a Organização Mundial de Saúde a declarar, que estávamos livres do S.A.R.S., os americanos nos tivessem deixado em paz.

Infelizmente nada disso aconteceu, e os medias americanos continuam a usar a sua fértil imaginação, para manterem o assunto nas notícias.

Por exemplo a morte duma enfermeira, em Toronto vitima da doença, um dos heróis da luta contra o S.A.R.S., foi amplamente noticiada nos Estados Unidos o que é pouco usual para um acontecimento ocorrido no Canadá. No entanto, a maioria da media esqueceu-se de dizer que a pobre senhora tinha contraído a doença em Maio.

Não quero porém acabar este artigo sem mencionar o caso mais recente e que mais evidentemente prova o desejo que existe nos Estados Unidos, de criar um ambiente de medo e pânico em relação à doença e à sua existência no Canadá.

Na semana passada nove aviadores americanos, oriundos do Texas que tinham participado num festival aeronáutico, e iam de regresso à sua base nos Estados Unidos, pararam durante uma hora no aeroporto de Toronto, que por sinal é situado em Mississauga, bem longe dos hospitais de Toronto aonde há um mês ocorreu a última infecção. Porque dois ou três adoeceram com febre e tosse, foram todos colocados de quarentena e submetidos a testes para verificar se tinham S.A.R.S.. Claro que esta notícia foi amplamente divulgada nos Estados Unidos, contribuindo para a paranóia sobre o assunto e claro prejudicar a indústria turística canadiana, que tem sido não só atingida em Toronto, como em Montreal, Otava, Galgary e até Vancouver que fica mais longe de Toronto do que a maioria da população americana. É muito mais curta a distância de Nova York, Chicago ou Detroit a Toronto do que dessas cidades Vancouver ou Calgary. Infelizmente o americano médio, pouco sabe de geografia, ou do que se passa no mundo com excepção do Iraque, Afaganistão, Cuba ou outros países aonde estão, ou eles julgam estar, os seus inimigos.

É caso para dizer que os nossos "amigos" dos media americanos estão a espremer a história do S.A.R.S. até ao fim.

No entanto, nos Estados Unidos aonde vivem muitos milhares de chineses, que frequentemente vão à China, , quase que não se fala no S.A.R.S. o que surpreendeu muitos dos médicos envolvidos no estudo e prevenção da doença como é o caso do delegadode saúde do Ontário Dr. Colin D'Cunha admirados que neste país apenas tenham sido reportados cerca de 180 casos. Será que estamos numa situação semelhante às das drogas tomadas pelos atletas olímpicos, em que os pobres canadianos com a sua honestidade disseram a todo o mundo que o Ben Jhonson tomara doping, enquanto os atletas americanos sabe-se hoje, também estavam drogados, e guardaram as medalhas de ouro conseguido provavelmente duma forma ilegal.

Acontecimentos como a paranóia, sobre o S.A.R.S. nos Estados Unidos, em relação ao Canadá, ou o medo da doença das vacas loucas na América e Japão, não acontecem por acaso, ou porque os americanos embirram com os canadianos. Eles são resultado dum processo politico, que é preciso compreender, para que possamos perceber o mundo em que vivemos.



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Toronto,
21/Julho/2003
Edição 790

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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