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CONVERSANDO COM OS LEITORES ...

Desde que eu comecei a escrever esta coluna, já lá vão uns bons anos, que foi minha intenção, de vez em quando deixar os temas habituais ou os comentários ao que se vai passando no Canadá e por esse mundo fora, e dialogar directamente com os leitores, muitos deles "habitués" de longa data.
Dois assuntos a que me irei referir, mais adiante, levaram-me a finalmente estabelecer esse diálogo com os meus leitores, embora não resista à tentação de abordar alguns factos passados na última semana, que não posso de forma alguma, deixar de mencionar.
Ao nível nacional, estarão lembrados que no meu artigo da semana passada eu criticava os média e os políticos americanos e japoneses que para se vingarem da falta de ajuda na invasão do Iraque e por razões políticas internas, estavam a usar o facto de se ter descoberto uma "vaca louca"no Canadá, para proibir a importação de carne deste país.
Embora tudo o que eu disse seja verdade, a CBC acabou por noticiar que essa intransigência e reacção excessiva à doença, que hoje está a ser cometida pelos Estados Unidos e Japão, é uma atitude semelhante à que o próprio Canadá tomara em relação a outros países, há dois ou três anos, quando o país em que vivemos não tinha a doença e cerca de trinta nações por esse mundo fora, incluindo Portugal, tinham sido atingidos. À semelhança do que estão agora a fazer os Estados Unidos e o Japão, o Canadá também proibiu a importação de carne ou outros produtos oriundos da vaca, vinda de pelo menos três países, um dos quais era a Finlândia, em que existiu apenas um caso da doença das "vacas loucas". É caso para dizer, usando a expressão do nosso povo, que quem com ferro mata, com ferro morre.
Também em relação ao Canadá, devo mencionar que a convenção que no fim deste ano, irá escolher o líder do Partido Liberal do Canadá, e portanto, dada a maioria esmagadora que possuem no Parlamento em Otava, o Primeiro Ministro, se vai transformar dum processo eleitoral, na coroação do Sr. Paul Martin, um político notável, embora na minha opinião e de muitos comentadores políticos, mais próxima dos conservadores, do que do Partido de Pierre Eliot Trudeau.
Na realidade, a corrida para o lugar de líder do Partido Liberal, que começara com vários políticos, como os senhores Allan Rock, Brian Tobin e outros, acaba de perder John Manley, o último concorrente com algumas possibilidades de fazer frente ao agora "coroado" líder o Sr. Paul Martin. A razão principal apresentada para a desistência de John Manley, leva-nos a encarar com tristeza o processo democrático no Canadá e na maioria das chamadas democracias ocidentais, que supostamente são um exemplo de liberdade e igualdade para o mundo - falta de dinheiro. Enquanto o Sr. Paul Martin, ele próprio um milionário, com grandes amizades e influências nos meios da alta finança, angariou oficialmente 6 milhões de dólares, o pobre John Manley apenas conseguiu 2,2. Fica desta maneira na competição, apenas um verdadeiro liberal, Sheila Copps com contribuições no valor de 340.000 dólares.
Num país com a extensão do Canadá e com a sofisticação que hoje as campanhas atingiram, é caso para dizer que, parafraseando o milionário e proprietário de jornais americanos William Randolph Hearst, que a democracia é muito bonita para quem tenha dinheiro para a comprar. É na realidade importante, em defesa da democracia deste país, que o Parlamento implemente, como já o está a fazer, leis que imponham limites às despesas com as campanhas eleitorais e para a nomeação de posições como a de líderes dos partidos. Caso contrário, o dólar irá substituir o voto do cidadão.
Finalmente, não poderei deixar de mencionar um caso flagrante de violência e hipocrisia, ao nível internacional.
Os Estados Unidos acabam de assassinar os filhos do antigo presidente do Iraque, Uday e Quasay Hussein. Claro que eles não eram boas prendas, embora muitas das patifarias que lhes atribuem, parece terem sido inventadas pela oposição e a CIA. Ao que dizem, dá impressão que só lhes faltava comerem criancinhas. Porém bons ou maus, em vez de serem apreendidos na casa onde estavam escondidos, o que poderia ter sido feito, usando gases lacrimogéneos, armas equipadas com visão nocturna, ou pura e simplesmente estabelecendo um cerco e esperando que se rendessem, os dois filhos do antigo ditador, um guarda e um jovem de 14 anos foram assassinados usando mísseis, canhões e até um helicóptero. Os americanos, que tanto bradaram contra a crueldade, barbaridade e falta de respeito pelos mortos, demonstrada pelo governo do Iraque ao mostrar os corpos dos por americanos mortos em combate, estão agora a divulgar por todo o mundo, fotografias arrepiantes dos cadaveres dos filhos de Sadam Hussein. Em vez de prender estes indivíduos, usando métodos humanos e de os levar a tribunal - afinal é a base da nossa lei que todos são inocentes até que a justiça os considere culpados - os governantes da grande democracia nossa vizinha, estão a usar os mesmos métodos bárbaros de Sadam Hussein. Esta atitude é tão repugnante, que até o comentador Eric Margolis, pessoa bastante das direitas mas com bom senso, que escreve no jornal SUN, a criticou severamente numa entrevista à CBC. É isto a que o nosso povo, chama moralidade do funil, larga de um lado e estreita do outro.
CORRECÇÃO: Vários leitores me chamaram a atenção de que o subtítulo da coluna da semana passada - aquelas palavras abaixo do título que muitas vezes coloco nos meus artigos - não fazia sentido com o assunto abordado e era uma repetição da semana anterior. Estão absolutamente certos. Eu escrevo os meus artigos à mão, ainda sou da moda antiga, e alguém no jornal passa-os ao computador. Pelos vistos o computador foi buscar um bocado do artigo da semana anterior, ao disco onde estão todas as minhas colunas, que um dia eventualmente irei publicar num livro como tenho prometido a muita gente sem o ter cumprido. Como não mexo no computador e nada tenho que ver com a impressão, só descobri o erro na segunda-feira quando distribuíram o jornal no meu consultório. As minhas desculpas, e para o leitor que me disse que coleccionava os meus artigos, aí vão as linhas comidas pelo computador.
"Não são só os nossos compatriotas, que vivem em Portugal, que se aproveitam desta doença (S.A.R.S.), para nos atacar. Os nossos vizinhos americanos também o fazem, prejudicando a indústria turística do Canadá, na qual muitos portugueses trabalham". Enfim estas coisas acontecem e até no Globo and Mail e no Toronto Star, tenho encontrado das famosas "gralhas" que tanto irritam, jornalistas, editores e até leitores.

UMA RAZÃO PARA REGOZIJO

Disse-me esta semana, um amigo meu, que no sítio onde trabalha, ele e outros portugueses, muitas vezes à hora do almoço, juntam-se para debater assuntos abordados nos meus artigos.
Claro que como era de esperar, nem todos estão de acordo, e na realidade não é esse o fim de escrever estas colunas, porém é com prazer que constato que aquilo que eu escrevo é utilizado para estimular o debate de assuntos que interessam à nossa comunidade, ao país ou até a qualquer ser humano em geral. Afinal nem tudo nesta vida é fado e futebol, duas actividades que como português me interessam, e é importante que estejamos informados e tenhamos uma opinião baseada em factos exactos, sobre o que se passa à nossa volta. Não é minha intenção proselitizar, ou usando um português mais popular, vender o meu peixe, mas sim abordar assuntos que parecem importantes para todos nós. Se o conseguir, isso será uma boa paga para o esforço que despendo todas as sextas-feiras entre as 7 e as 10 da manhã, escrevendo estas colunas e estabelecendo um diálogo com os meus leitores. Na realidade não me interessa, se os colegas do meu amigo, que acima mencionei, estão de acordo comigo, o que eu desejo é que os meus artigos incitem um debate lógico e sensato sobre o que se passa à nossa volta.

FACTOS E OPINIÕES

Em contactos com alguns leitores, notei que eu, um modesto amador, nestas coisas do jornalismo, tenho um problema semelhante ao dos meus colegas profissionais, mesmo do prestigioso Globe and Mail - os leitores por vezes têm dificuldade em distinguir o que é um facto do que é uma opinião. Assim quando eu afirmo que o cartão antigamente vermelho no tempo dos liberais, e hoje azul com um governo conservador, que todos possuímos e que nos dá direito a todo e qualquer serviço de saúde grátis, se chama Health Card e não Hospital Card, trata-se de um facto. Este serviço que já existia há trinta anos tem portanto o nome de Health (saúde) e não Hospital ( a palavra é igual em português). Isto trata-se de um facto e não de uma opinião. No entanto, quando eu afirmo que o governo liberal do Ontário, emitiu um cartão vermelho, isto é, como as cores do seu partido e os conservadores um azul, identificada com esta formação partidária, estou apenas a manifestar uma opinião.
Procuro nos meus artigos, fazendo uma pequena pesquisa, fornecer factos correctos, como nomes, datas e locais certos. Às vezes, e isso até se passa com colunistas prestigiados de jornais importantes como é o caso de Hugh Winsor, numa coluna escrita no dia 23 de Julho no Globe and Mail, em que afirma que o ministro das finanças do Canadá e nessa altura candidata à liderança do partido liberal John Manley, tinha 47 anos de idade, quando o homem já fez 53 em Janeiro, saem alguns enganos como aquela vez em que eu chamei à mulher do Rei D.Diniz, que fez o tal milagre das rosas, D.Beatriz em vez de D. Leonor (ou será ao contrário?), o que ofendeu alguns leitores.
Como todos os que escrevem, gostava que os leitores procurassem aceitar os factos como eles são, coisas estabelecidas como a superfície de Portugal (92.082 Km quadrados), ou o nome do cartão de saúde ( Health Card), e que não julgassem que elas são opiniões minhas - como diz o nosso povo, contra factos não há argumentos. Embora nem sempre seja fácil de o fazer, tentarei sempre separar os tais factos que são imutáveis, daquilo que são opiniões minhas.
Quanto às opiniões, não são de forma alguma uma intenção de converter alguém às minhas ideias, mas uma tentativa de iniciar um debate útil, estimulante e saudável.

PARTIDOS?

Finalmente, gostava de esclarecer que não é minha intenção nesta coluna defender qualquer linha dum partido, do que resulta, que muitas vezes as opiniões aqui apresentadas são diferentes das dos partidos que normalmente apoio. Algumas pessoas ficaram admiradas, que eu, que voto pelo NDP, escrevesse que um concorrente ao lugar de líder de um partido liberal do Ontário era em certas áreas, muito à esquerda para o meu gosto, ou que em certos assuntos eu tenha estado de acordo com as políticas de um conservador, o famigerado ex-primeiro ministro do Ontário Sr. Mike Harvis.
Na realidade, estava apenas a emitir a minha opinião pessoal sobre o assunto e a divulgá-la, porque achava que ela seria útil para um debate sobre um assunto. Pessoalmente, desde os meus tempos de universidade, que sempre gostei de ter as minhas opiniões e não apenas as de um partido. Isto não quer dizer, que eu não admire e aprecie aqueles que seguem rigorosamente a linha de um partido, no entanto eu pessoalmente prefiro seguir o meu próprio caminho. Talvez seja essa a razão, porque me dediquei a esta coisa de escrever colunas num jornal.
A propósito desta independência na maneira de pensar, tenho arranjado inimizades entre os que são supostos pertencer ao "meu" partido. Por exemplo, talvez, por causa das minhas críticas, à política de "equidade" e a certos aspectos da sua política social, durante os quatro anos em que o NDP esteve no poder, nunca fui nomeado para qualquer cargo relacionado com o governo provincial. O mesmo se poderia dizer em relação ao Partido Socialista Português do qual fui um dos fundadores, do núcleo em Toronto em 1975, mas isso é outra história, voltando porém ao Ontário. Claro que fui presidente de corpo clínico do meu hospital e tive outros cargos, mas foram todos por eleição. No entanto, quando chegou, o partido conservador, o Conselho de Ministros nomeou-me para o Concelho Distrital de Saúde. Também posso dizer que a medalha de ouro da Secretaria do Estado das Comunidades, e a de Comendador da Ordem de Mérito foram-me oferecidas por um, governo português do PSD e a dos 150 anos do Canadá por um governo canadiano conservador. Quanto à Rainha, com certeza que não sabia das críticas que lhe fiz, quando me deu a medalha comemorando os 50 anos do seu reino. Ou talvez a boa Senhora, seja tolerante e respeite como eu, as opiniões dos outros...
Concluindo, não me quis de forma alguma alongar "a contar a história da minha vida", mas para explicar aos meus leitores, a minha coluna, que apresenta afinal a minha forma de pensar e agir - uma voz independente, não subordinada a uma linha partidária. Não é, que eu goste de "ser do contra"mas é preciso que existam pessoas que digam o que pensam.
E por hoje chega de conversa com os meus leitores, que são para mim também os meus amigos. Até para a semana, felicidades para todos.



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Toronto,
28/Julho/2003
Edição 791

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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