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Obedientes aos paradigmas, pensamos ou somos pensados?
Parte I
Temos que assumir os nossos atos. Dizer que foi por vontade de um ser superior, não passa de uma jogada para obter conforto psicológico pelas arbitrariedades que cometemos e para nos eximirmos das responsabilidades

Para nivelar nossa conversa, paradigma significa modelo, design, padrão estrutural, que conduz os rumos do pensamento, do sentimento e da ação humana, numa certa época. Eles direcionam percepções, organizam conceitos e práticas, definem o modo como os indivíduos percebem a realidade. Até os nossos modos mais íntimos, personalíssimos, individualíssimos de ser, sonhar e sofrer, podem ceder às suas imposições.

Eles nos dão, de certo modo, as frases prontas para responder a qualquer indagação, ou sejam, as receitas de bolo, economizando nossos esforços para pensar. Respostas velhas para questionamentos novos fazem parte do dia-a-dia em nossos relacionamentos. Algumas delas com centenas de anos de existência, parecem ter sido formuladas antes de qualquer pergunta. Com o argumento de que os últimos serão os primeiros, respondemos uma infinidade de coisas e nos conformamos com o que somos.

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando é aceito com total automatismo. Existem aos milhares, seria impossível citá-las todas. Penso que é mais coerente dizer que os últimos serão os últimos. E se um pássaro dissesse a você que mais vale um homem preso do que dois em liberdade, o que você diria? Como verdadeiros sonâmbulos, defendemos a liberdade ao mesmo tempo em que mantemos animais presos em nossas casas, e o que é pior, com o pretexto da estimação. Este é o conceito de estima que nós temos pelo outro?

Castramos o cão, uma violência à sua sexualidade, e o chamamos de nosso melhor amigo. Em ecologia, expressamos nosso egoísmo, defendemos as espécies, não porque estamos preocupados com o seu desaparecimento, mas, por medo de perdermos algo que ainda não conhecemos, pois poderiam nos trazer benefícios ou prejuízos no futuro. Uma ação ecológica altruística compreende que as espécies precisam ser protegidas pelo seu legítimo direito de existir e evoluir, independentemente do valor que elas possam ter para os humanos. Aliás, segundo algumas áreas do conhecimento humano, somos, por enquanto, neste planeta, a única espécie a obter a autoconscientização existencial, em outras palavras, sabemos que existimos, temos consciência de estarmos conscientes e vivos. Isso é um privilégio, mas também um compromisso com a caminhada evolutiva das demais.

O "paradigma tecnicista" parece estar em todo o lugar. Até a música do Roberto Carlos, um dos maiores cantores brasileiros, "Seres Humanos" trás idéias preconcebidas de que podemos nos eximir de nossas responsabilidades. Sua letra diz mais ou menos o seguinte: que negócio é esse de que somos culpados de tudo que há de errado...; que negócio é esse de que nós não temos os devidos cuidados com o mundo em que vivemos... Desculpar-se com o pretexto de que "não somos perfeitos, ainda", é "autocorrupção consciente".

Afinal, se não somos nós, quem mais poderiam ser os responsáveis? A paca? A onça? O tatu? O vírus? É com esse pensamento que estamos produzindo armas químicas, biológicas e outras mais, que destroem as mais diferentes formas de vida sem o menor constrangimento ou sentimento de responsabilidade. Toda vez que uma estrutura dá sinais de ruir, alguns planejadores invisíveis lançam um salvador da pátria para fortalecer o modelo que lhes dá sustentabilidade, passando-nos as mesmas idéias conservadoras como se fossem novas, em cenários cuidadosamente pensados com o que há de mais atual.

(Continua na próxima edição).

* Paulo J. Rafael é jornalista, professor universitário e doutorando em Ciências Políticas e Administração Pública pela AWU- American World University of Iow



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Toronto,
4/Agosto/2003
Edição 792

ANO XXIII

   
   
    * Paulo J. Rafael
   Direto do Brasil
   

 

 

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