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Obedientes aos paradigmas, pensamos ou somos pensados?
Parte II
Temos que assumir os nossos atos. Dizer que foi por vontade de um ser superior, não passa de uma jogada para obter conforto psicológico pelas arbitrariedades que cometemos e para nos eximirmos das responsabilidades

Continuando a falar sobre os paradigmas, a música " Seres Humanos" de Roberto Carlos, segue dizendo: estamos sempre em busca de uma solução; quando foi preciso voar, inventamos o avião; quando foi preciso falar à distância, inventamos o telefone, o rádio, etc. È a tecnologia capaz de resolver tudo. Assim, sem juízo crítico, somos levados a pensar que podemos transformar nossas florestas em pastagens, poluir os mares e tudo mais, pois, quando for necessário obtê-los de volta, criaremos uma tecnologia para recuperá-los.

Há um consenso entre grandes grupos hegemônicos de que é mais barato despoluir do que preservar. Pergunta-se: quanto custa o desaparecimento de espécies? Elas podem ser recuperadas pela tecnologia? Serão restabelecidas as inter-relações, construídas através dos milênios? Os comandos de nossas vidas estão nos lugares mais sutis e insuspeitáveis. Muitas de suas músicas antigas defendiam a ecologia, dando-lhe credibilidade. Você já tinha suspeitado disso, ou tinha aplaudido o rei Roberto Carlos? Manipuladores, agindo à surdina, sabem que direcionando ídolos pode-se fazer o que quiser com suas multidões de fãs e seguidores. Somos maravilhosos, continua a música, em defesa do paradigma "antropocêntrico" defendido pela filosofia humanística, plenamente refutada pela ciência.

O "paradigma dualista", que vem dos antigos gregos, ainda persiste em nossos dias, depois de passados mais de dois mil e quinhentos anos. A idéia de alto ou baixo, feio ou bonito, grande ou pequeno, preto ou branco, etc., ainda persiste. Quando alguém diz: não sou contra nem a favor, muito pelo contrário, não passa de uma piada.

Entretanto, ao contrário do que parece, ele assume uma posição, onde concorda em parte com as coisas que lhe são apresentadas, admite a relatividade dos modelos referenciais. Entre o alto e o baixo existem infinidades de outras alturas, as duas expressões informam apenas valores extremos, relativos. Entre o feio e o bonito, infinitas belezas, e assim por diante. Ao nos posicionarmos em um ou em outro, todo o universo de situações localizadas entre os dois extremos passam despercebidas. A beleza da diversidade fica abstraída.

O "paradigma determinístico", nos trás a idéia de que algo está além do nosso alcance ou da nossa capacidade, controlando nossas vidas, independente de nossas vontades, um todo poderoso, uma força externa capaz de controlar tudo. Essa idéia errônea que temos de Deus, divindades ou das consciências superiores, nos induzem a assumir uma postura de espera, acomodação, passividade, contemplação e submissão. Um fator dificultador para a nossa evolução, pois, ao contrário do que pensamos, uma consciência mais evoluída dispensa seguidores, sabe "intervir sem interferir", não tem mais necessidade em ser temida, idolatrada, bajulada, respeitada, sacralizada, etc...

Não mais permite que alguém se ajoelhe aos seus pés, dispensa primarismos dessa natureza, não nos tira do comando de nossas vidas e do exercício pleno do nosso livre arbítrio. Respeita plenamente nossas vontades, do contrário, teria torcido o pescoço de George Bush e Saddam Hussein e evitado tanto sofrimento e tanta destruição.

Temos que assumir os nossos atos. Dizer que foi por vontade de um ser superior, não passa de uma jogada para obter conforto psicológico pelas arbitrariedades que cometemos e para nos eximirmos das responsabilidades. Até que ponto é lícito alguém se eximir dos resultados produzidos por suas ações, intencionalmente anticosmoéticas e antifraternas? Uma frase de Gilberto Gil, ao ter que deixar o Brasil em plena ditadura, onde todos esperavam que ele atribuísse a culpa a alguém, dizia o seguinte: "meu caminho pelo mundo eu mesmo traço... quem mais sabe de mim sou eu". Isso é arbítrio! Isso é maturidade! Quanto maior o arbítrio de um indivíduo menor a ação do determinismo sobre ele, e vice-versa.

Independentemente de nossa vontade, onde existem regras, procedimentos, princípios valores que estabelecem limites de comportamento, há um paradigma. Se por um lado eles modelam, organizam, estruturam os processos necessários a toda e qualquer iniciativa, por outro lado focalizam a atenção, concentram esforços e reforçam a confiança na ação. Isto é, nos protegem da informação desnecessária porque removem estímulos que o indivíduo julga não importantes.

Esta proteção, entretanto, pode ser exatamente a "viseira" de todos nós. Os paradigmas acima comentados, mesmo com seus prazos, há muito tempo já esgotados, superados, seus limites rompidos por perspectivas novas, mais amplas e profundas, continuam no controle de nossas vidas. Instala-se, assim, a paralisia paradigmática que aprisiona pessoas, culturas, organizações, deixando de ser apenas um modelo estrutural a serviço da transformação para tornar-se um serviço de adestramento para a esmagadora maioria da humanidade, infelizmente.

* Paulo J. Rafael é jornalista, professor universitário e doutorando em Ciências Políticas e Administração Pública pela AWU- American World University of Iow



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Toronto,
11/Agosto/2003
Edição 793

ANO XXIII

   
   
    * Paulo J. Rafael
   Direto do Brasil
   

 

 

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