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Alguém viu o Fome Zero
e o governo de Lula por aí?
Não quero gorar, mas tenho minhas dúvidas sob o resultado desse programa após quatro anos. Continuo insistindo que programas sociais sem contrapartida, além de caracterizarem assistencialismo, são inviáveis economicamente

Provavelmente você leitor não tenha visto os resultados do programa Fome Zero a não ser em imagens e discursos da belíssima e competente propaganda oficial de Duda Mendonça. O pior de tudo é que, entrando no décimo mês da administração petista, muitos brasileiros famintos não o viram e durarão muito a ver. O governo petista fez um julgamento incorreto do que é administrar um país do nosso porte. Não basta boa vontade. Muitas iniciativas que dão certo quando executadas municipalmente são impraticáveis, ou melhor, são incomparavelmente mais difíceis de serem implementadas em nível nacional. Iniciativas como doações de alimentos por restaurantes para alimentar nosso povo chegou a ser cômico pela estreiteza de visão administrativa.

Não quero gorar, mas tenho minhas dúvidas sob o resultado desse programa após quatro anos. Continuo insistindo que programas sociais sem contrapartida, além de caracterizarem assistencialismo, são inviáveis economicamente, no longo prazo. Se a intenção é fazer com que a população rompa com a barreira da miséria, a distribuição de alimentos é, como já disse antes e repito, um indutor de acomodação.

Se você exigir da população uma contrapartida, como, por exemplo, frequentar cursos de qualificação de mão-de-obra, cursos técnicos, formação de cooperativas, hortas comunitárias e mercados do povo, etc., e vincular sua permanência no programa ao empenho por uma inserção no mercado de trabalho, o gasto, no longo prazo, tende a diminuir, pois cada vez menos pessoas vão precisar de ajuda do governo para se alimentar. Isso é óbvio e claro.

Não sei até quando o governo vai insistir em dizer que o Fome Zero não é assistencialista. Como disse Abraham Lincoln "você pode enganar algumas pessoas durante todo o tempo, você pode também enganar todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo". "Eu aprendi uma coisa na minha vida", disse e disse várias e várias vezes nosso aprendiz de presidente. Pois bem, vamos ver até quando duram os discursos sociais e medidas anti-sociais deste pretenso governo da mudança.

Por hora, a meu ver, o programa Fome Zero teve o efeito de impedir o desgaste do governo, dando um discurso social para os descontentes com os rumos conservadores, além de desgastar a imagem de um homem tecnicamente preparado, qualificado, um grande pesquisador dos problemas agrários do Brasil e por quem tenho profunda admiração, o professor José Graziano.

Mas por que o governo Lula não decola?

Por mais que os governistas( petistas e aliados) insistam em dizer que há desenvolvimento na agricultura, na indústria e no comércio, não é isso o que se constata: há uma paralisia generalizada no Brasil. E como toda paralisia, há um atrofiamento visível em todos os setores.

E tomando do grande escritor Euclides da Cunha frase dita em relação à nossa evolução biológica - ''Ou progredimos ou desaparecemos'', este é o brado dos brasileiros nos nossos dias. Por não progredirmos, estamos sujeitos a desaparecer.

A economia respira com grande dificuldade e por mais que o médico Palocci a mantenha na UTI, falta fôlego em todos os ramos produtivos do país, com reflexo danoso no nosso cotidiano, com assombrosa taxa de desemprego e empobrecimento assustador das classes trabalhadoras e média/média. Se as palavras não têm peso de convencimento, a realidade que nos circunda dá o seu depoimento: a fome e a subalimentação se dizem ''presentes'' em nossas casas. A queda de venda dos produtos de primeira necessidade é constatada nas mercadorias expostas nos mercados e frigoríficos. Não há abundância ou produto sobrando: há estoque acumulado à falta de compradores.

Um detalhe relevante: os desempregados não têm condição de se deslocar de casa para a busca de trabalho à falta de dinheiro para as passagens. E muitos assalariados percorrem longas distâncias entre suas moradias e o trabalho, para segurar o vale transporte e transformá-lo em moeda nas quitandas dos bairros ou bodegas dos quarteirões, ainda vendendo ''fiado'' ou cadernos de ''dependura''...

''Ou progredimos ou desaparecemos''.

Mas, se não houve progresso, muito se dialogou em encontros, reuniões com políticos, e a ''sociedade civil organizada'', tanto em mesas redondas em Brasília, como nos Estados - com ministros cortando os céus do Brasil numa movimentação surpreendente e exuberante...

Pelo visto, o ''negócio'' é movimentar, é conversar, é enrolar, é fazer churrascada e jogar um futebolzinho com os compadres nos finais de semana e deixar o tempo passar. Assim, ninguém vai perceber que o país está parado...

* Paulo J. Rafael é jornalista, professor universitário e doutorando em Ciências Políticas e Administração Pública pela AWU- American World University of Iow



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Toronto,
27/Outubro/2003
Edição 802

ANO XXIII

   
   
    * Paulo J. Rafael
   Direto do Brasil
   

 

 

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