LEIA
 » CÂMARA DE TORONTO
   E O PARTIDO LIBERAL
   MUDAM DE DIRECÇÃO
 » TEMPO P'RA CHÁ
 » Fazer como
   os Espanhóis
 » HOMENAGEM
   AOS PIONEIROS
 » Universidade
   dos Açores
 » INDEPENDÊNCIAS...
   e Consulados...
 » EM OFF
 » Casa do Alentejo
 » CRÓNICA PICOENSE
 » Edições Anteriores
 
TEMPO P'RA CHÁ

 

Depois de, atenciosamente, ter lido o interessante e informativo artigo de Sara Nóia acerca do Chá da Gorreana, (Atlântico Expresso, 2/Abril/01), procurei no meu "dossier" a cópia dactilografada da palestra que o meu saudoso "Mestre" Carreiro da Costa (1913-1981) proferiu aos microfones do antigo "Emissor Regional dos Açores" (3/Novembro/50) acerca da cultura do chá nos Açores.

Aparentemente tal já ocorria em fins do século 18 na ilha Terceira, visto que em Novembro de 1799 o então príncipe regente D. João havia ordenado ao Conde de Almada, governador geral dos Açores, a remessa de älguma planta de chá" que, já ao tempo, vegetava na ilha Terceira.

A resposta do governador enviada ao ministro D.Rodrigo de Sousa Coutinho, com a data de 11 de Junho de 1801, está reproduzida nas páginas 365-366, do décimo volume do Ärquivo dos Açores", nestes termos:

"Por aviso de 29 de Novembro de 1799 é Sua Alteza Real servido ordenar-me que eu remeta a essa Côrte alguma planta de chá, que tem vegetado nesta ilha (...) Satisfazendo a determinação do mesmo augusto senhor, remeto agora pela fragata "Cisne" dois caixotes com a planta do chá, cuja vegetação é muito fácil nestes sítios produzindo sem outra alguma cultura, mais do que fazer a sua plantação, chegando a produzir ainda mesmo por entre pedras, como eu já pessoalmente examinei; porém as pessoas, que por curiosidade o tem, não fazem desta planta o maior apreço, por lhes ser inteiramente incógnito o modo de o secarem para poder chegar áquela consistência, que tem o chá que vem da Índia, e por isso abandonam esta planta de tanta utilidade, o que não aconteceria se tivessem quem lhes prescrevesse aquele método preciso para o fazer chegar à sua ultima perfeição".

Conforme o testemunho que nos legou Carreieo da Costa, a cultura e/ou plantação do chá transitaram p'rá ilha de S. Miguel aonde, dezenas d'anos mais tarde, tornaram-se objecto de largas experiências, por parte de vários proprietários locais, entre os quais convém destacar José do Canto que, no entretanto, havia iniciado algumas plantações no sítio da Caldeira Velha, adentro da sua vasta propriedade onde, depois, ficaram instalados os primeiros maquinismos p'rá manipulação das folhas da referida planta do chá.

Numa nota pessoal e do meu tempo de criança, lembro-me do galhofeiro Eduíno, residente na Rua dos Foros, que por muitos e longos anos trabalhou na Mata do José do Canto, e finalmente contraíu matrimónio com a minha vizinha Ester da Rua da Ponte Nova, (vulgo Rua do Outeiro, que ia desembocar no Adro das Freiras).

Ora aconteceu, segundo nos relata Carreiro da Costa, que a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, aos 13 de Novembro de 1877, conseguiu contratar dois chineses p'ra viagem aos Açores ensaiar a fabricação do chá. Graças à intervenção do Conselheiro Carlos Eugénio Correia e Silva, (governador de Macau), os dois chineses partiram de Macau p'ra Lisboa, a bordo do paquete "África", e na capital transferiram-se p'ró vapor "Luso", desembarcando em Ponta Delgada aos 5 de Março de 1878.

Gabriel de Almeida, (Manual do Cultivador do Chá, 1892), ocupa-se delesconforme a transcrição que Augusto Gomes nos oferece no seu precioso livro "Cozinha Tradicional da Ilha de São Miguel", página 250:

“Os dois operários contratados, Lau-a-Pan, mestre manipulador do chá, e Lau-a-Teng, intérprete e coadjutor, apresentavam os defeitos inerentes à sua raça, e bem assim todos os usos e costumes da sua nacionalidade.

Eram muito dissimulados, misteriosos e pouco tratáveis. O mestre, homem folgazão, era vigoroso, observador das recomendações do império chinês. Tinha um rabicho de 1 metro e 50 de comprido e uma argola de pedra no braço esquerdo que lhe fora metida em criança, e que explicava ser para o livrar das iras do seu TIEN, que significa Deus. Adorava o sol, reputando-o por Deus. De manhã curvava-se respeitoso e fitava-o com atênção. Não falava senão o seu idioma.

O intérprete e coadjutor Lau-a-Teng, usava costumes europeus e por ter estado na Inglaterra (como pequeno negociante) aprendera praticamente a falar a língua inglesa. Como tivesse abraçado a religião católica chamava-se António. Usava também rabicho de 90 centímetros de comprimento.

Os dois, frequentes vezes, fumavam o ópio em grande quantidade. Havia dias que consumiam 15 a 18 gramas. Este hábito proporcionava-lhes sonos agradáveis e prazeres inexplicáveis; a par disto patenteavam no seu rosto a palidez e o desfiguramento. Mostravam votar grande amor à sua pátria e obediência às suas leis. Barbeavam a cabeça, deixando únicamente no alto o rabicho. A posição mais frequente, que adoptavam, era apoiando o corpo sobre os calcanhares, mesmo nas horas destinadas à refeição. Com o bambú, faziam trabalhos importantes, tais como cestos e peneiras neces-sários p'rá manipulação do chá".

Dando o devido crédito ao Engenheiro Aníbal Gomes Ferreira Cabido, (numero 88 do Boletim do Trabalho Indústrial do Ministério do Fomento), que Augusto Gomes cita no supra-mencionado livro, já existiam 10 fábricas de chá em S. Miguel em 1913, produzindo chá de qualidade, devidamente mecanizadas com enroladores, desseca-dores, classificadores, etc. No entanto, apenas se refere a oito: José Bensaúde, Luis Ataíde Corte Real Estrela, Augusto Ataíde, Manuel Raposo, José Maria Raposo de Amaral, D. Ermelinda Gago da Câmara, Visconde de Faria e Maia e Manuel Bettencourt Neves.

O meu amor é de Londres,
É de Londres fala inglês
Ele inda ontem cá veio
Beber chá outra vez

Chá, cházinho,
Cházinho que te dei...
A tristeza com que fico
Ainda amanhã terei.



Copyright © 2003, VOICE Luso Canadian Newspaper Ltd. First Luso Canadian Paper to Jump on the Net! For more information contact [email protected]
 
Toronto,
17/Novembro/2003
Edição 805

ANO XXIII

 
      Por
Ferreira Moreno

   


 

 

  Desenvolvimento - AW ART WORK