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PEDRAS E INSTITUIÇÕES
Erigir monumentos, é uma boa maneira de assinalar a nossa presença, neste país. Porém nos tempos que correm e numa sociedade moderna, há coisas mais importantes que as pedras, que se usavam no passado, para marcar a nossa presença.

Assinalar a sua presença, é uma daquelas tendências que são comuns a todos os seres humanos. Ainda me lembro que quando era miúdo, ía mais outros companheiros da minha idade, com grande ofensa da minha avó que tinha a mania das "finuras", para a Quinta dos Peixinhos, uma área de "floresta virgem", no meio da cidade de Lisboa, em que nós meninos citadinos, podíamos ter contacto com a natureza, e correr pelos campos, trepar às árvores e atirar pedras aos coelhos, em quem nunca acertávamos. Nesse paraíso rural, nós construímos com bocados de madeira, aquilo que apelidámos dum forte, espécie de padrão para assinalar a nossa presença. Também gravávamos, às escondidas, as nossas iniciais nos bancos dos jardins e ainda há poucos anos descobri no miradouro da Senhora do Monte as iniciais M.T.B.F., que correspondem ao meu nome completo.
A maioria das culturas humanas, têm erguido monumentos a assinalar a sua presença desde as piramides do Egipto aos inukshuks dos inuit (esquimós) e as colunas dos tótemes, feitas pelos índios da costa oeste do Canadá.
Também os nossos antepassados, como todos sa-bem, durante as descobertas, erigiram por esse mundo fora, padrões a assinalar a sua presença nas terras que tinham descoberto.
Talvez por causa desses padrões das descobertas, a nossa gente, como fez notar o professor David Higgs da Universidade de Toronto, um estudioso muito perspicaz da comunidade portuguesa no Canadá, tem a tendência de erigir monumentos por todos os la-dos, em vez como sucede na maioria das sociedades modernas, criar instituições para comemorar e assinalar a sua presença no sítio aonde estão.

PEDRAS E MAIS PEDRAS

Em Toronto, que eu me lembre temos um padrão de descobrimentos, já inugurado três vezes - quando foi colocado na posição original, mudado para a sua presente localização e com as melhorias recentes o qual está à espera de mais uma cerimónia, quando finalmente vierem os calceteiros de Portugal, para completar a obra.
Na College, no edifício aonde está situada a sede da First Portuguese, existem três monumentos entre os quais uma estátua de Camões, que também foi inaugurada três vezes. Não muito longe na Dundas Street, existe mais uma pedra, para comemorar a visita do Presidente Jorge Sampaio. Um pouco mais para Este, na estação do metropolitano de Queen's Park está mais um monumento, comemorando a presença portuguesa no Canadá. Como se não chegas-sem estes monumentos, ao que li nos jornais, existe mais um, desta vez em Mississauga!
Antes de ir mais longe, devo esclarecer, que o que estou a descrever não é uma crítica ao que se tem feito, mas o reconhecimento dum facto, tanto mais que com excepção de dois, eu estive envolvido nos comités que erigiram estes monumentos ou procederam às suas múltiplas inaugurações.
Assim, também eu sou responsável por esta abundância de monumentos na nossa comunidade.
Nesta medida, se já há monumentos a mais, devo dizer "mea culpa", na medida em que colaborei, para esta proliferação de pedras, para a qual me chamou a atenção, já lá vão muitos anos o meu grande amigo Walter Lopes. Nessa altura não o tomei a sério, hoje penso que ele estava certo.

OUTRAS FORMAS DE COMEMORAR

Neste país, bibliotecas, institutos, instalações hospitalares e até cadeiras universitárias são nomeadas, à custa duma contribuição claro, com nomes de pessoas, famílias e grupos étnicos.
O "hospital da Bathurst" chama-se afinal Toronto Western Hospital e Centro de Ciências Neu-rológicas Krembil, a emergência do Monte Sinai é denominada Schwartz/Reissman e as duas alas do hospital, Isadora e Lawrence Bloomberg, todos no-mes de pessoas que preferiram ter o seu nome numa instituição do que numa pedra, algures na cidade. De fronte do Monte Sinai fica a parte do Sick Children com o nome da família Black e no Toronto General Hospital, na rua ao lado, um dos centros de tratamento e investigação de doenças cardíacas mais famosos do mundo, baptizado com o nome de Peter Munk. Claro que o nome de Monte Sinai, para o hospital é uma homenagem à comunidade judaica, que é o equivalente duma instituição portuguesa, ser denominada Lusitana. Quanto à maior sala da cidade chama-se Roy Thompson Hall.
Todos sabem que os italianos assinalaram o nome do navegador Cristóvão Colombo, não com um mo-numento mas com um complexo desportivo recreacional, que tem também serviços sociais e várias re-sidências para a terceira idade.
Assim personalidades ou comunidades procuram, assinalar a sua presença não com pedras mas com instituições.
Claro que já temos na nossa comunidade a Terra Nova, a Terra Bela e a Vila Gaspar Corte Real, mas ainda nos falta muito, para chegar ao nível de outras comunidades, mais pequenas e recentes do que a nossa.
Uma das áreas em que ainda nada existe a assinalar a presença portuguesa e a servir a nossa comunidade, é no das "nursing homes" (lares), que são definidas como instituições para qualquer pessoa, geralmente idosa, embora estejam abertas a todos com mais de 18 anos, cujo estado de saúde não lhe permite residir em casa. O pagamento nestas "nur-sing homes", poderá ser feito pelo residente se ele tiver meios, ou ser subsidiado pelo estado. Infelizmente, embora existam residências para pessoas idosas, com muitos portugueses, ainda não fomos capazes de criar uma "nursing home" para a nossa gente.
A importância, de estar numa instituição em que os utentes são todos portugueses, falam a nossa língua, e se cozinha à nossa moda, é óbvia. Outro ponto importante é que com o desenvolvimento de demencia, como é o caso da doença de Alzheimer, as pessoas perdem primeiro a língua que aprenderam em adultos e só no fim o português.
Ainda recentemente, fui visitar uma pessoa amiga à nursing home Kensington Gardens, no sitio onde estava para ser erigido o novo Doctors Hospital, por sinal construída em parte com o dinheiro que eu e os meus colegas tinham contribuído.O edifício é moderno, bonito, o pessoal parece bem treinado, agradável e competente, porém na sala de jantar do andar em que eu estava, apenas existiam duas pessoas portuguesas, entre elas aquele que eu ía visitar, que felizmente fala inglês. Se a pessoa que eu fui visitar, fosse originária da Itália, Grécia, China ou até de pequenos países como a Estónia ou Macedónia, poderia estar rodeada de compatriotas num ambiente que lhe lembrava a sua terra natal.

TENTANDO UMA SOLUÇÃO

Quando se formou o comité comemorativo dos 50 anos da presença dos portugueses no Canadá, do qual eu sou membro, sugeriram como era de esperar várias sugestões para assinalar este ponto importante da história da comunidade portuguesa e até do Canadá.
Como era de esperar, criámos mais "pedras", mas também sugerimos uma obra, que fosse uma instituição que servisse a comunidade.
Nessa medida, formou-se um subcomité destinado à criação dum lar dos idosos. Como era de esperar, o trabalho deste pequeno grupo de voluntários não foi fácil, tanto mais que todos sabemos que este não é o tipo de actividade glamorosa que iria atrair um grande apoio da comunidade, como seria a vinda da equipa do Benfica ou qualquer cantor famoso. A propósito, lá na terra aonde nascemos, estão a construir estádios por todos os lados enquanto faltam hospitais e ... lares para a terceira idade.
Depois de muito esforço, este grupo de voluntários, não tendo no curto espaço de tempo de que dispunham sido capazes de construir um lar, obra gigantesca que exige largas quantias, imenso trabalho e passar por um processo burocrático, complexo e lento, apresentaram uma solução - a criação duma área exclusivamente portuguesa, numa instituição pertencente a outra comunidade.
Nessa medida, conseguiram uma área, numa "nursing home", chamada Yee Hong Centre (lá estão os chineses a assinalar um nome sem eregirem monumentos), a qual é situada em Mississauga aonde hoje mora uma boa parte da comunidade portuguesa. Essa "nursing home", que irá ser inaugurada em Dezembro deste ano terá 25 camas que poderão ser destinadas aos portugueses.
Se for possível, preencher estas 25 camas, a gerência da Yee Hong, trabalhará com a comunidade portuguesa no sentido de adaptar a área aos gostos e hábitos dos portugueses, incluíndo a comida e o pessoal.
Se essas inscrições não se fizerem, a administração da Yee Hong, abrirá esta área a qualquer pessoa, independentemente do seu grupo étnico e perder-se-á esta oportunidade, de termos um lar para os portugueses.
A Yee Hong é uma instituição não lucrativa (non-profit), da comunidade chinesa, que já tem centros em Scarborough e em Markham. Ela está registada no Canadian Council on Health Services, tendo recebido a mais alta classificação - "stellar". Neste momento, estão a construir mais um lar, desta vez em Mississauga, na Mavis Road.
Aqueles que estejam interessados poderão contactar a C.C.A.C. (Community Care Access Centre), a organização do governo do Ontário, que destribui as pessoas por serviços como os lares (nursing homes) cujo telefone é 905-796-0040 ou falar com a coordenadora do comité a Sra. Teresa Roque no 416-537-5556.
É pena que não tenhamos à semelhança de outras comunidades um "lar", que seja só nosso. Porém se conseguirmos criar um, num edifício que pertence a outro grupo étnico, será um bom passo em frente.
Enfim, tarde ou cedo, acabamos todos por envelhecer, será bom começarmos a pensar no futuro. Quanto a monumentos, já temos demais na comunidade portuguesa, aquilo que precisamos são instituições, que ajudam ao nosso desenvolvimento e a assinalar a nossa presença no Canadá.
Um leitor assíduo, escreveu-me um pouco aborrecido porque eu usava a palavra farsa, referindo-me ao processo de eleição do Sr. Paul Martin, que comparei ao da escolha do líder chinês, cujo nome omiti e que é Wen Jiabao. Embora não precise de justificar, aquilo que é afinal uma opinião e não um facto ciêntífico, devo notar que no dia seguinte o jornal nacional do Canadá, o prestígioso Globe and Mail, usou o adjectivo "farsical" (aquilo que tem as características de uma farsa) para descrever a eleição, ou melhor como lhe chamam sarcasticamente a coroação do Sr. Paul Martin. Pelos vistos o Globe and Mail está a copiar a minha coluna...



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Toronto,
24/Novembro/2003
Edição 806

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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