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PEIXE A ALTO PREÇO

 

É deveras alarmante o feixe de notícias que recebo, através da imprensa regional, ácerca da venda e compra de peixe nas nossas ilhas.

Aparentemente a tabela usada na respectiva transacção é tão exorbitante que os açorianos estão a dar mais preferência à aquisição de carne... em vez do saboroso peixinho!

Li, por exemplo, que um goraz estava avaliado a 3.550$00 ao quilo... e ainda, p'ra maior desgraça, o chicharro parece ter desaparecido, quer no mar, quer na terra (mercado).

Será que há menos peixe nas costas açorianas, ou será, então, que o peixe está a ser largamente exportado "p'ra fora" das ilhas?...

Dizem-me que os pescadores insulares encontram-se, presentemente, mais bem apetrechados e dispondo de excelentes embarcações.

Acontece, no entanto, que em termos comerciais a exportação é mais lucrativa do que a venda do pescado no mercado local. Conforme foi esclarecido, (Diário Insular, 22-Dez.-99), as espécies que, antigamente, mais se pescavam e se vendiam localmente, tais como "cherne, abrótea, pargo e boca-negra", estão agora a conquistar, a preços mais elevados, o mercado fora do arquipélago.

Em consequência de tamanhas vendas p'ra exportação, resulta ser pouco o "peixe grado" que resta, e p'ra obtê-lo... só em troca dos olhos da cara!

Além disso, o pescado que não é exportado tem vários destinos traçados e outros circuítos de venda garantida, tais como restaurantes, deixando "desmoralizado" o público em geral.

Consta-me que o chicharro, o ano passado, foi visto apenas por um "canudo" nas ilhas... o que equivale a dizer que ele apareceu no mercado muito raramente.

E quando é pouca a quantidade à venda, tal provoca o aumento dos custos, sendo cada vez menos as pessoas que podem comprar o tão apetecido e cobiçado peixinho.

Não se ouve agora, como era habitual nos meus tempos de vivência nas ilhas, aquele típico pregão "Ei chicharro fresco!" dos populares vendilhões, com os cestos carregadinhos de chicharros "vivos", a que se seguia um tal abrir de portas e cancelas, com gente "armada" de pratos, tigelas e alguidares, comprando chicharrinhos "um cento" por uma "pataca".

Depois de devidamente "governados" (limpos), vinham eles p'rá mesa mágicamente transformados em fritos ou assados, em açordas ou caldeiradas!

Muitas vezes "disfarçados" em vinha d'alhos, tínhamos os chicharros fritos em banha, sequinhos e torradinhos, a quebrarem-se na boca, acompanhados de batata cozida ou rodelas de inhame.

Que consolo aqueles chicharrinhos assados na brasa, na grelha ou na sertã, e que se comiam não com garfos, mas sim à ponta dos dedos.

Eles apresentavam-se-nos quentes e fofos, "batizados" com molho verde ou molho de vilão.

As açordas, cheirosas e gostosas, com o amarelo da açafroa, com cebola e salsa, servidas em tigelas ou pratos fundos, de mistura com sopas e batatas, e que a gente entrava a "atacar" com a colher, mas acabava sempre com os dedos a "pescar" os lombinhos dos chicharros limpos de espinhas.

Inesquecíveis p'ra mim, ainda, as caldeiradas feitas à base do chicharrinho miúdo, com rodelas de cebola, batata e tomate.

Ah, mas tudo isto - e não só - são memórias de um passado, que não há envelhecido com o rolar dos anos. Apesar da distância, que me separa da Ribeira Grande, sinto-me novamente transportado à casa, onde nasci e onde agora me revejo, saboreando um caldo de chicharros com arroz... enquanto na cozinha permeia um cheirinho a maresia!

Eu fui à Ribeira Grande
Botar chicharros de molho;
Vi raparigas à janela E rapazes fechando o olho.

Quem vai ao mar sempre apanha
Ou lapas ou chicharrinhos;
Quem namora sempre alcança
Ou abraços ou beijinhos.



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Toronto,
24/Novembro/2003
Edição 806

ANO XXIII

 
      Por
Ferreira Moreno

   


 

 

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