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UM NOVO EMBAIXADOR
O novo embaixador de Portugal no Canadá Dr. Silveira Carvalho, parece ser não só novo no lugar, mas também na sua forma de actuar - quis começar por ouvir a comunidade luso-canadiana.

O novo embaixador de Portugal no Canadá, apresentou as suas cartas credenciais à chefe do Estado do Canadá, a Governadora-Geral, a representante da Rainha Isabel II, Sra. Clarikson.
Trata-se duma cerimónia tradicional, que já tem vários séculos de existência, em que o novo embaixador, em nome do Chefe de Estado do seu país, apresenta um documento que o identifica como a pessoa que o irá representar.
É obvio que se trata apenas duma cerimónia, e que nesta época de transmissão electrónica, tanto o Canadá como o país do novo embaixador já resolveram todos os problemas inerentes à tomada de posse do novo diplomata, muito antes da sua chegada a este país.
Até agora, tem sido uma cerimónia bastante formal, em que o novo embaixador entrega ao Governador-Geral os documentos chamados cartas credenciais, num salão sumptuoso da sua residência, onde eu já estive em 1993, para numa cerimónia semelhante, receber a carta de patente do Congresso Nacional Luso-Canadiano.
Normalmente esta cerimónia não teria sido motivo para uma coluna semanal, uma vez que se trata de uma rotina das actividades diplomáticas, a qual pouco interessa à nossa comunidade. Mesmo o facto da presente Governadora Geral, na sua intenção de acabar com cerimónias pomposas, ter recebido o novo embaixador privadamente, numa pequena sala e ter passado alguns minutos a falar sobre Portugal e a comunidade lusitana neste país, não teria sido para mim uma notícia importante.
O que tornou a cerimónia que decorreu esta semana em Otava, original e relevante para a comunidade luso-canadiana foi o facto do novo embaixador ter convidado membros da comunidade portuguesa de todo o Canadá, a estarem presentes à cerimónia. É caso para dizer, que estamos já longe dos tempos em que o embaixador de Portugal, era uma personalidade distante e inacessível, vivendo a várias centenas de quilómetros da nossa comunidade, afastada de nós, não só fisicamente mas também por barreiras hierárquicas.
Mais tarde outros embaixadores envolver-se-íam na nossa comunidade, mas falavam ex-cathedra de forma paternalística, chamando-nos a atênção para aquilo que julgavam ser, os nossos erros e dando-nos conselhos como os resolver.
É importante notar que os embaixadores, cônsules e outro pessoal diplomático têm a árdua dupla função de representar Portugal, e em países como o Canadá de estabelecerem relações com a comunidade portuguesa.
É possível, que muitos cônsules e embaixadores, que foram classificados pela nossa comunidade como tendo desempenhado as funções junto da comunidade duma forma medíocre, tivessem sido ex-celentes diplomatas, no que se refere às relações entre Portugal e o Canadá.
Pelos vistos, o presente embaixador de Portugal no Canadá, tenciona desempenhar os dois papeís, o de representante de Portugal e o de elo de ligação entre o governo português e os portugueses que vivem neste país.
Como veremos mais adiante, tudo leva a crer que o novo embaixador não vê as duas funções como antagónicas, mas complementares, isto é, para ser um bom embaixador de Portugal é também necessário ajudar a desenvolver e a fortalecer a comunidade luso-canadiana que poderá afinal ela própria a ser também um excelente "embaixador de Portugal", prestigiando a nação portuguesa e até actuando como um lobby forte a favor dos interesses portugueses.
No processo de executar a sua função junto da comunidade, também o novo embaixador mostrou um interesse de escutar a comunidade e de desenvolver um diálogo sobre os nossos problemas que me parece inédito.
O Dr. Silveira Carvalho, convidou para assistir à cerimónia, vários luso-canadianos, entre eles os representantes do Congresso, Aliança e a Federação de empresários e profissionais e os conselheiros do Conselho da Comunidade.
Estavam também presentes dois juízes, Maria Teresa de Sousa e Arlindo Vieira, um sacerdote o Padre António Araújo, um dirigente sindical, An-tónio Dionísio, um dirigente do movimento de jovens de Montreal, Carrefour Lusophone, membros da comunicação social e outras pessoas envolvidas com a comunidade. Como não podia deixar de ser, numa reunião deste tipo, é impossível conseguir uma lista de convidados que agrade a todos. Pessoalmente, teria gostado de ver mais jovens, foi uma pena não ver ninguém do projecto diploma, mais mulheres, e uma representação dos serviços sociais e de algumas instituições importantes na nossa comunidade, como são as bandas, filarmónicas e algumas instituições culturais e religiosas. Também teria sido interessante convidar universitários e representantes dos que lutam pela preservação da língua portuguesa. A propósito, é possível que algumas das entidades que menciono tenham sido convidadas, mas não pudessem estar presentes.
O envolvimento da comunidade, na apresentação das cartas credenciais foi um acontecimento importante, tanto mais, que depois do encontro entre a Governadora Geral e o Embaixador, realizou-se uma recepção numa das salas do Rideau Hall, a residência oficial do Chefe de Estado do Canadá, em que a Sra. Clarikson teve a oportunidade de conversar com os elementos da comunidade portuguesa, presentes.
A propósito, pelo que ouvi, falou-se nas banalidades do costume, como o bacalhau e o restaurante português favorito da Sra. Governador Geral em Toronto, que por sinal também é um dos mais caros, mas também se abordavam assuntos sérios como a participação dos portugueses na vida política canadiana, o papel das mulheres e o acesso dos jovens luso-canadianos ao ensino superior. Porém, mesmo que só se tivesse falado de bacalhau é caso para dizer que o facto de estarem presentes luso canadianos oriundos de várias partes do Canadá, foi como diz o nosso povo "meter uma lança em África". Enfim marcamos a nossa presença.
A propósito, fiquei espantado com a falta de segurança no Rideau Hall a residência oficial do Governador Geral. Seguimos, no mesmo taxi, quatro portugueses, os conselheiros das comunidades Mário Gomes e João Dias, o dirigente sindical António Dionísio e eu, todos de bigodes e um até com barbas, todos com um certo ar de árabes, guiados por um chaufer que devia ser mesmo um deles. Chegamos ao portão de Rideau Hall, perguntaram-nos o que íamos fazer, eu disse qualquer coisa sobre a entrega das cartas credenciais e aí entramos os cinco sem qualquer verificação das identidades. Claro que não levamos o chaufer connosco, mas os quatro entramos no edifício, seguimos para a recepção, aonde chegamos, mais facilmente do que para entrar no cinema, ou a um baile de um clube português aonde teríamos de mostrar o nosso bilhete para entrar.
Acabada a cerimónia, seguimos para a embaixada portuguesa, onde como não poderia deixar de ser, ou não fossemos nós portugueses, havia mais algumas coisas para comer e beber.
Porém o Sr. Embaixador, iria rapidamente estabelecer, o tipo de actividade, que iria ocupar a nossa visita. Ao contrário de outras ocasiões, não estávamos lá apenas para confraternizar. Algum tempo depois de chegarmos, estávamos sentados à volta duma mesa e prontos para o trabalho. Quando chegou a hora do almoço, dirigimo-nos à residência do embaixador, para almoçar, mas mais uma vez não se tratou duma função social, pois continuamos com as nossas funções, que se prolongaram mesmo depois da refeição até que alguns dos convidados tiveram de se retirar para seguirem para o aeroporto e regressarem a casa.
Esta não era a minha primeira refeição na casa do embaixador e foi um contraste com a anterior, de que os leitores assíduos se deverão lembrar.
Tratava-se de um excelente jantar, com grandes vinhos, um serviço notável, interessante e sofisticada música e conversação, em que eu no fim fui forçado a dizer que tinha ficado muito grato, com tão sumptuoso jantar, mas que ficava triste porque a razão que nos levava a Otava, a apresentação ao Conselho das Comunidades duma lei sobre o serviço consular, era absolutamente inútil, uma vez que, a legislação ía entrar em vigor imediatamente o que faria com que a nossa opinião fosse inútil. Desta vez, nem tive ocasião de saborear a comida, foi só trabalhar.
É caso para dizer, que o contribuinte português, que pagou para a despeza da refeição - as viagens foram custeadas por nós próprios - têm razão para estar satisfeitos, porque não perdemos o nosso tempo. Desde que acabou a breve recepção na embaixada, até que deixámos a residência do embaixador, não cessámos de debater vários assuntos, referentes à comunidade.
Dirá talvez algum leitor, mais céptico, o que estaríamos nós a fazer de útil e se os problemas da co-munidade, irão ficar resolvidos amanhã.
Infelizmente, nem nós, nem os cônsules ou o próprio embaixador temos a autoridade ou a capacidade de resolver alguns dos nossos maiores problemas. Alguns deles como o da dupla nacionalidade, ou a assistência médica aos luso-canadianos que visitam Portugal, dependem do governo português e da Assembleia da República, outros como a nossa falta de envolvimento no processo eleitoral ou o numero insuficiente de estudantes no ensino superior, comparado com outras comunidades, são muito complexos ou dependem de nós próprios e não das autoridades portuguesas.
O Sr. Embaixador declarou que iria procurar mostrar à Governadora Geral, e aos canadianos em geral, que a comunidade portuguesa é forte, está organizada e que irá no futuro ter mais visibilidade e participação política. Claro que como embaixador de Portugal irá trabalhar no desenvolvimento das relações entre os dois países especialmente melhorar a situação respeitante às importações portuguesas para o Canadá e aos investimentos e turismo em Portugal.
Durante as horas em que o grupo de que fiz parte, esteve com o Sr. embaixador, estabeleceu-se um debate, por vezes bastante animado, sobre os problemas que afectam a comunidade, nomeadamente o acesso dos jovens ao ensino superior, a preservação da cultura portuguesa, a falta de representação de luso- canadianos na política, especialmente depois da "catástrofe" de Toronto, o aumento das relações comerciais entre os dois países, o papel dos empresários portugueses, etc.
É obvio que não se tomaram, decisões nenhumas, mas estabeleceu-se um debate em que as pessoas sentadas à volta da mesa, apresentaram as suas opiniões, por vezes contraditórias, sobre os assuntos que interessam à comunidade.
Quanto ao Sr. Embaixador, com a vantagem dum observador que vem de fora, e com a sua experiência de diplomata em áreas aonde existem portugueses como no Brasil, Espanha e Guiné- Bissau, apresentou os seus pontos de vista, alguns bastante interessantes, que como não podia deixar de ser, deram uma contribuição bastante útil ao debate. Como era de esperar, não estivemos todos de acordo, mas é minha opinião que os que compareceram à reunião, a classificaram de bastante construtiva.
Espero que o sr. Embaixador tenha tido a oportunidade de ficar a conhecer melhor a nossa comunidade, depois do tempo que passou com o grupo que convidou para ir a Otava.
Quanto a nós, os participantes, também beneficiámos do debate, uma vez que é sempre útil ouvir a opinião duma pessoa com conhecimento e experiência, que tenha vindo de fora, e vê os nossos problemas duma forma um pouco diferentes da nossa.
É minha impressão que temos um embaixador que mostrou interesse em não restringir a sua actividade às relações entre o Canadá e Portugal e a envolver-se na comunidade portuguesa.
Deve-se também notar, que as duas funções do embaixador, diplomata junto das autoridades canadianas e impulsionador do desenvolvimento da comunidade luso canadiana, não são contraditórias, uma vez que como o próprio Dr. Silveira Carvalho disse no discurso proferido em Otava, uma comunidade luso-canadiana forte desenvolvida e com maior peso político, irá dar mais voz a Portugal, junto do governo do Canadá. É caso para dizer que os interesses dos portugueses que vivem em Portugal e os de aqueles que vivem no Canadá são comuns e que uma comunidade luso-canadiana mais forte e representativa e útil para todos nós que proferiu na chancelaria.
O embaixador concluiu o seu discurso dizendo "venho entusiasmado com a tarefa de que fui incumbido para aprofundar ainda mais as relações bilaterais a nível político, económico e cultural entre os nossos países e povos e valorizar a presença portuguesa no Canadá. Proponho-me a realizá-la com a vossa ajuda. Espero contar convosco."
Tenho a certeza que o Sr. Embaixador poderá contar connosco, assim como nós esperamos contar com ele.
Todos juntos, podemos trabalhar para uma comunidade luso- canadiana, mais forte e ao mesmo tempo ajudar a nação que não esquecemos - Portugal.



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Toronto,
8/Dezembro/2003
Edição 808

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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