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Logo numa semana, em que tinha vários assuntos para debater com os meus leitores, especialmente a tomada de posse do novo Primeiro Ministro, Sr. Paul Martin é que me sucedeu uma coisa inédita - não consegui arranjar tempo para escrever o meu artigo. De qualquer maneira nem o Sr. Paul MArtin, um sujeito simpático, eficiente, cheio de boas intenções, particularmente a de tornar mais democrático o sistema político canadiano, mas que para liberal tem apenas um pequeno defeito, ser conservador, se irá embora tão cêdo, nem eu tenciono deixar de escrever.
Assim, até para a semana, aproveitem, a estação festiva, não gastem muito, uma vez que o Natal é um tempo para alegria e amizade, que não deve ser comercializado, não bebam e conduzam e se tiverem mais de seis meses de idade, não se esqueçam de tomar a vacina contra a gripe, que ao que parece está a vir com grande força este ano.
N.R.: Por não ter perdido a actualidade, publicamos o artigo saido em 11/12/2021  
UM ANÚNCIO REPUGNANTE
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O ESPÍRITO DO NATAL E A SUA DESTRUIÇÃO PROGRESSIVA PELO CONSUMISMO

Em plena época natalícia, um anúncio comercial na televisão canadiana dá-nos a mensagem que os objectos têm mais importância que a família e o amor. Com excepção de alguns programas portugueses, a pouca televisão que eu vejo restringe-se a três estações: CBC, TVO e PBS, das quais apenas a primeira tem publicidade. Desta maneira tenho pouca experiência de anúncios comerciais na televisão, mas calculo que aquele a que me vou referir de-ve ser um dos que bate o record pelo mau gosto, consumismo, desprezo pela família e amor entre as pessoas, e por preconizar uma forma de viver em que os objectos são mais importantes que as relações entre as pessoas.
Este anúncio, já apresentado várias vezes, na estação naci-onal do Canadá, a CBC, é um sinal do nosso tempo, e mais ainda desta época em que comprar, gastar, consumir, comer e beber substituem aquilo que deveria ser o verdadeiro espírito do Natal com paz, amor entre as pessoas e a celebração da família.
Antes, porém, de descrever o tal anúncio, que considero repugnante, especialmente nesta época do ano, talvez seja oportuno relembrar um pouco da história e significado da época do Natal.
Aqueles que leram o meu artigo no número de Natal de há 3 anos, talvez se lembrem do que vou escrever, pois claro que não posso mudar os factos históricos.

FESTEJANDO A ESPERANÇA
Os povos antigos, que habitavam nas zonas temperadas do hemisfério norte, embora não tivessem os nossos conhecimentos científicos, notavam que a seguir ao Verão os dias se iam tornando cada vez mais pequenos, e o Sol que eles sabiam ser a força que dava a vida à terra, estava cada vez menos tempo no céu. Claro que isto se invertia em relação às civilizações do hemisfério sul como os Maias, Incas e Aztecas que tinham as estações do ano ao contrário das nossas, com o Inverno por altura do nosso Verão, ou aquelas que existiam nas zonas equatoriais, como as da Índia e Ceilão, aonde exisitiam apenas duas estações, a das chuvas e a da seca. Para as civilizações antigas do hemisfério norte, a chegada do dia mais curto do ano, em que o Sol parecia que iria desaparecer, seguido pelo período a partir do qual os dias começavam a aumentar, era razão para grandes festas de alegria, esperança e para agradecer aos deuses o começo da época em que o astro-rei iniciava o seu período de crescimento, e o dia, isto, a luz, começava a vencer a escuridão.
É de notar que civilizações que predeceram o Cristianismo como a Egípcia, Grega, Assíria e aquelas que mais se relacionam com a cristã, a Judaica e a Romana, tinham festas alegóricas à Alegria, Esperança e à Vitória da Luz sobre as trevas, nesta época do ano.

O "NATAL" DOS JUDEUS E DOS ROMANOS A religião judaica, que precedeu a cristã - afinal os primeiros cristãos eram todos judeus da Palestina - comemora no vigésimo quinto dia do mês de Kislev (Dezembro no calendário hebraico), a festa de Hanukkah' que se refere à vitória das forças judaicas sob o comando de Judas Macabeu, sobre o exército sírio que tinha ocupado Jereusalém. Segundo a tradição, quando os judeus libertaram o templo dessa cidade verificaram que os invasores tinham destruido ou conspurcado todo o azeite para ser usado nas candeias dos serviços religiosos. Eles apenas encontraram uma pequena quantidade de azeite, que não tinha sido maculado pelos invasores. No entanto, essa pequena quantidade de azeite, obviamente por intervenção divina, teria durado para oito dias. Para comemorar este facto, nesta festividade, durante 8 dias, uma candeia é acesa diariamente num candeeiro especial, chamado menorah'.
Esta é obviamente uma história que significa vitória sobre o opressor, libertação, liberdade e, muito especialmente, a prevalência da luz sobre a escuridão.
Quanto aos Romanos, e co-mo todos sabemos, no princípio do Cirstianismo eles domina-vam a Palestina e eram a principal cultura do Ocidente, tinham festas ligadas ao culto do Sol que ocorriam nesta época do ano.
De notar que os primeiros cirstãos não comemoravam o Natal e, como uma religião ba-seada na ressurreição de Cristo, faziam-no na Páscoa, não na altura do seu nascimento. Durante os primeiros 3 ou 4 séculos da religião cristã, o Natal não existia e, ao que parece, quando começou a ser comemorada a data atribuida ao nascimento de Cristo, era no verão.
Com a progressiva conversão ao Cristianismo no Império Romano, os líderes da Igreja resolveram comemorar o nascimento de Cristo, uma data de esperança e, portanto, de vitória da luz sobre as trevas, na altura em que as antigas religiões romanas festejavam o solstício de inverno, que é assim que os astrónomos chamam a este período do ano, quando o sol atinge um ponto da sua órbita que dá origem aos dias mais curtos.
Desde o aparecimento da comemoração do Natal, nos meados do século IV, esta festividade religiosa foi-se tornando cada vez mais importante. Cerca de 100 anos mais tarde passou a ser uma data fundamental para os cristãos, ao tornar-se a festa de esperança, amizade e solidariedade que conhecemos. Séculos mais tarde, com a devoção pela família de Cristo, com a inclusão de S. José, a Virgem Maria e, muito mais tarde, a criação do Presépio, o Natal passou a ser também uma festividade, dedicada não só à Sagrada Família, mas à família humana, isto é, à família de todos nós.

CONSUMISMO EM VEZ DA FAMÍLIA Voltemos, porém, ao tal anúncio repugnante, na televisão canadiana. Ele começa com imagens dum jovem fardado, voltando a casa, não se sabe se duma guerra ou apenas do serviço militar. A música de fundo é uma canção muito conhecida "I'm coming home" (Estou de volta a casa, embora a palavra home, em inglês, signifique também lar). O jovem em questão, depois de sair do combóio, e resistir a várias tentações duma rua, aonde há uns sujeitos que o querem instigar a visitar alguns estabelecimentos de má reputação, mete-se num carro velho e dirige-se para casa, que fica situada algures no campo. À espera do nosso herói está uma mulher, namorada, mulher, mãe, que vem de braços abertos recebê-lo. A câmara segue o sujeito, que salta do carro e começa a correr para casa. Quando esperamos que vá abraçara mulher que está à espera dele, dá-lhe um encontrão, enfia-se na casa onde o espera um "home entertainment centre" que é o nome que dão a um apare-lho de televisão, um stereo, gira-discos e outros aparelhos semelhantes, todos juntos.
Para tornar a coisa ainda mais repugnante, nas últimas imagens faz-se uma paródia à expressão inglesa "there is no place like home" (não há lugar como a nossa casa ou o nosso lar), em que o "home" da casa é substituido pelo "home" da tal geringonça com a televisão e o stereo juntos.
Numa altura em que se deveria estar a comemorar a família, os idiotas que produziram o anúncio dão-nos a mensagem que a família, o lar, e o amor duma mulher são menos importantes que a televisão que tanto atrai o energúmeno vindo da vida militar, para quem um objecto é mais importante que qualquer relação humana. Infelizmente, cada vez mais o Natal parece reflectir a filosofia deste anúncio da televisão e as pessoas usam esta época da vitória da luz sobre as trevas, do nascimento de Cristo e dedicada à Paz, Amor entre os homens e à Família, para praticarem a "religião" do consumismo, substituindo os valores religiosos, morais e espirituais pelo materialismo desenfreado de consumir e comprar objectos. Quanto a mim, além de denunciar o mau gosto e estupidez do anúncio em questão prometi a mim mesmo que, se um dia precisar de comprar alguma geringonça electrónica, semelhante à que está a ser promovida, não irei comprar a marca ali anunciada. Infelizmente terei de ver o anúncio uma vez mais, pois, como de costume, ignorei a marca comercial.
Por hoje resta-me desejar aos meus leitores um Bom e Feliz Natal, com muito amor e felicidade porque, como diz outro anúncio na televisão, o cartão de crédito compra tudo, mas há coisas que o dinheiro não pode comprar. Feliz Natal, amigo leitor



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Toronto,
15/Dezembro/2003
Edição 809

ANO XXIII

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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