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FÉRIAS

Ao que parece, está finalmente, com um certo desgosto daqueles que como eu adoram o esqui, a che-gar o fim da neve, e o aparecimento da Primavera e do Verão, o principal período para aquilo a que muitos compatriotas insistem em chamar as "ólideis", apezar de existir uma palavra portuguesa muito bonita - férias.

Claro que nos tempos que vão correndo, as pessoas tomam férias durante todo o ano, embora sem dúvida a maioria venha a fazê-lo nos meses mais quentes do ano.

É pois altura de abordarmos o assunto, e ao mesmo tempo, como é do hábito desta coluna, aproveitar para mencionar alguns aspectos de interesse social.

UM NOVO "LUXO"

A ideia de quebrar a monotonia do dia-a-dia, existe quase desde o princípio da humanidade. Em-bora não saibamos, se o homem das cavernas, chegado ao Verão mudava para um buraco mais fresco, há evidência que há cerca de 3.000 anos os faraós egípcios tinham palácios de Verão, para onde íam descansar e esquecer as preocupações do governo. Mais tarde, gregos e romanos deixaram vestígios de termas, espalhadas por sítios pitorescos, aonde os ricos e podero-sos, íam passar as férias, especialmente no Verão.

Em tempos menos remotos, os reis e nobres da Europa, tinham os seus palácios de Verão e eu lembro-me de ter visto semelhantes residênciais de férias nos sítios mais variados como o Vietnam, Camboja, China e Japão.

No entanto este "luxo" das férias, era no passado, um privilégio dos ricos e poderosos, enquanto a maioria da povo trabalhava de sol a sol, descan-sando ao Domingo para ir à missa ou nos feriados religiosos como Natal e Páscoa. Até há meio século, muitos camponeses e operários da nossa terra natal, nunca tinham ouvido falar em férias e trabalhavam continuamente.

A razão porque algumas pessoas mais velhas começaram a usar a palavra inglesa holiday deturpada, em vez de férias, deverá ser porque na sua juventude não conheciam este conceito. À seme-lhança do snow (neve) férias não existiam na sua juventude.

Hoje, felizmente quase todos podemos ter o prazer de ter férias, que se transformou numa coisa tão natural, como ter um carro, um luxo que há uma geração era apanágio dos ricos e hoje é acessível à maioria da população. Há uma geração ou duas atrás, poucos viajavam ao estrangeiro em férias e ainda me lembra, quem ía a Espanha ou a Paris de comboio eram os mais abastados da época. Atra-vessar o Atlântico, era uma grande aventura reservada aos mais ricos e aventureiros, e ainda me lembra de na minha meninice ir visitar o Aeroporto de Lisboa, como um lugar exótico de onde se partia para sítios distantes, como a América e a Inglaterra.

Se pensarmos que a maioria dos que me estão a ler, já atravessaram o Atlântico de avião dezenas de vezes, uma aventura que há ainda pouco mais de meio século, era reservada para os muito ricos, poderemos dizer que se progrediu muito. Muitas vezes, pensamos nos tempos passados como uma espécie de paraíso e termos tendência para esquecer os enormes progressos feitos no último século, especialmente no que diz respeito aos direitos e regalias dos trabalhadores, camponeses e outras classes menos preveligiadas. Quem pensaria, no tempo dos nossos pais ou avós, que um operário ou um camponês, seria capaz de ter férias todo o ano e de vez em quando ir visitar outras nações. Não devemos esquecer que estas regalias foram obtidas à custa de muitas lutas e sacrifícios e de nos regozijar porque vivemos numa sociedade mais justa, próspera e humana.

PARA ONDE IR

Ainda há poucos anos, quando um português de Toronto dizia que ia de férias, presumia-se que iria visitar Portugal. É obvio que todos nós "luso-canadianos", por muito que a parte "canadiana" conte na nossa definição, não podemos esquecer, a terra onde nascemos e nos sentimos atraídos a Portugal, que desejamos visitar periódicamente.

No entanto, já passou o tempo, que a maioria dos portugueses, nunca se aventuravam ao norte da Eglinton, este da Spadina, oeste da Roncesvales e ao norte da St. Clair. Afinal, milhões de turistas visitam o Canadá, vindos de todos os países do mundo. Cada vez mais portugueses - e nisso igrejas e as agências de viagens têm tido um papel importante na organização de excursões - têm visitado partes do Canadá como as províncias marítimas de Nova Escotia, New Brunswick e Prince Eduard Island, que com uma costa de mar muito bela, vilas pescatórias, lagostas e outros mariscos e peixe fresco, lembram a costa portuguesa. Por exemplo, na Nova Escócia existem muitas po-voações pescatórias na costa que lembram a região da Nazaré e Peniche.

O Norte do Ontário, especialmente o percurso entre Sault St. Marie e Thunder Bay, no Outono, quando as folhas estão vermelhas é uma das maravilhas deste mundo que atrai milhares de turistas vindos de todo o mundo.

Também no Oeste, as Montanhas Rochosas, são uma daquelas maravilhas da natureza que atraem turistas a este país. O Parque Nacional de Banf e a região do lago Louise, são pontos que merecem a nossa visita. Atravessando as Montanhas Rocho-sas, encontra-se a Província da British Colombia, sem dúvida a mais bela do Canadá, com as suas florestas, rios, montanhas e a cidade de Vancouver, que para mim, com excepçào de Lisboa, por razões que os leitores podem calcular, é a cidade mais bonita que eu visitei, passando à frente de Sidney na Austrália, Paris, Londres, Rio de Janeiro, e tantas outras. De fronte de Vancouver, está situada a ilha do mesmo nome, que com a pitoresca cidade de Victoria e as suas praias e florestas é outra área visitada por turistas vindos de todo o mundo.

Assim, aqui fica uma sugestão ao leitor, para que visite a terra aonde vive e não seja como um sujeito residente em Toronto, que ouvi dizer em Lisboa, que no Ca-nadá não existe mar. A preopósito, com três oceanos, o Canadá tem a primeira ou segunda maior costa do mundo. Se há milhões que visitam este país, nós que cá vivemos deveremos aproveitar a oportunidade de a conhecer uma vez que cá estamos.

Também, cada vez mais portugueses, visitam países como o Brasil, que aconselho a todos, e a Europa. Mais uma vez as igrejas, organizando peregrinações religiosas a certas partes do mundo, como Roma, Lourdes em França e Santiago de Compostela em Es-panha, têm ajudado a divulgar, partes do mundo aos luso-canadianos, que até agora só visitavam Portugal.

FÉRIAS "VERDADEIRAS"

Outro dia, encontrei uma senhora, que me dizia que depois de trinta anos de Canadá, tinha finalmente tido férias. Fiquei muito surpreendido, pois conheço a família, e sabia que eles visitavam Por-tugal, quase todos os anos.

A explicação que ela me deu, fez-me compreender o que era para muitas mulheres portuguesas a dife-rença entre férias e "verdadeiras férias".

Contou-me a boa senhora, que durante os primeiros dias da sua visita a Portugal, enquanto o marido vai confaternizar com os outros amigos de infância e matar saudades da comida e especialmente da bebida portuguesa, e os filhos vão para a praia com as primas e primos, ela tem de passar longas horas limpando a casa, que depois de estar encerrada um ano está bastante suja. Quando finalmente está a casa em ordem, a nossa compatriota, que apenas tem de preparar o jantar quando está no Ca-nadá, uma vez que o marido e os filhos levam uma sandwich para o trabalho e escola, tem o seu trabalho aumentado em Portugal, uma vez que tem de preparar três refeições por dia, para toda a família. Por outro, lado tendo que receber visitas, amigos e parentes que já não vêem há muito tempo, está ocupada na cozinha a toda a hora. Além disso, o marido e filha, que no Canadá já muitas vezes se habituaram a comer "à canadiana", isto é refeições simples de confeccionar, uma vez que estão em férias, exigem cozinha à portuguesa, que além de gostosa leva muito tempo e trabalho a preparar. Até os filhos que mal falam a nossa língua e que infelizmente já nem se consideram portugueses, continuam a ser bons lusitanos no que se trata de encher as barriguinhas, e levam o tempo todo a pedir que ela lhes confeccione os bons petiscos nacionais. Junta-se a todo este trabalho, o ter de visitar dezenas de parentes, muitos deles em sítios distantes, fazer compras, arranjar as roupas, fazer e desfazer as malas, o que leva a boa senhora muitas vezes a voltar ao Canadá, mais cansada do que partiu, tanto mais que as tarefas domésticas e tomar conta da família, que nunca cessam durante as férias, em vez de diminuirem, aumentaram quando está em Portugal.

Dizia-me a senhora em questão, que fora a Cuba passar duas semanas na praia. Pela primeira vez, ela levantou-se e não teve que fazer a cama dela e dos filhos (os jovens da nossa época já nasceram cansados), preparar o pequeno-almoço para a família, e o almoço, para o marido levar para o trabalho. A propósito na família dela, como em muitas outras o marido e os filhos são incapases de fazer café, torradas ou preparar uma sandwich.

Sem ter que cozinhar, fazer limpeza, arrumar a casa e poder-se dar ao luxo de se sentar à mesa sem ter que a levantar no fim, ou lavar a loiça a boa senhora teve pela primeira vez na vida dela umas verdadeiras férias. Para a próxima vez ela quer ir num cruzeiro às Caraíbas.

É caso para dizer, que a visita a Portugal, que é para os maridos e filhos umas boas férias, consiste para muitas mulheres, um período de trabalho e preocupações.

FAZER NADA

Há tempos, numa reunião com um grupo de colegas, alguém disse que ia tirar uma férias. Ime-diatamente, vários de nós perguntámos aonde é que ele ía. A resposta que surpreendeu alguns, foi simples - a lado nenhum. Disse-nos que ia ficar em casa, ler uns livros, passear no parque, ir ao cinema e descontrair-se, esquecendo-se das preocupações do dia-a-dia.

Se o leitor, está a pensar em férias também poderá encarar esta hipótese, que ainda por cima irá sair mais barata, do que ir a Cuba, Vancouver, China ou até Portugal.

Pelos vistos, na época em que vivemos em que tudo se faz a correr, e tem de ser acompanhada de despesas e consumismo, já quase se esqueceu a arte de não fazer nada. Isso possívelmente, poderá ser assunto para outro artigo. Entretanto, se mo permitem, sugiro que quando uma família vai de férias a Portugal, arranjem as coisas de forma, que todos os elementos que dela fazem parte, possam descansar.



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Toronto,
22/Março/2004
Edição 822
ANO XXV

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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