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PORCOS E CURIOSIDADES

 

Antecedendo a vinda dos "pioneiros" p'ra habitarem as desertas ilhas dos Açores, foram estas devidamente providas com determinado número de animais domésticos, para assim servirem de consumo alimentício e auxílio agrícola aos povoadores que, mais tarde, se estabeleceram por todo o arquipélago.

Esta ocorrência encontra-se explícitamente atestada na seguinte narrativa transmitida por Gaspar Frutuoso:

"Em diversas partes desta ilha (S. Miguel), foi deitado gado entre o espesso mato dela; em partes deitaram carneiros e ovelhas, e em outras bodes e cabras; em outras porcos e porcas, e em outras cavalos e éguas, asnos e burras. Tudo se multiplicou tanto que quando vieram os primeiros povoadores, dali a alguns anos, achavam grandes manadas deste gado em toda ela, e muito mais nas partes onde o deitaram. "(Saudades da Terra, Livro IV, Página 226, Edição 1998 do Instituto Cultural de Ponta Delgada).

A fartura era tanta nessa terra, continua Furtuoso, "que não se cortava naquele tempo carne nos açougues, nem os havia, mas cada um fazia açougue em sua casa".

Nos primórdios da vivência humana nas ilhas (S. Miguel, neste caso), os porcos andavam por lá "aos montes", e em tal abundância que o respectivo comércio era uma "pechincha". Porém, nos séculos XVII e XVIII, os porcos torceram o rabo... desculpem-me, queria eu dizer, as coisas mudaram de figura. Tanto assim que a carne de porco tornou-se caríssima; as taxas de açougue ficaram elevadíssimas, e as leis camarárias sobre o abate dos porcos mais se pareciam com o celebrado "torresmo d'agonia"... salvo seja, mê cride Santantão!

No entanto, "sua alteza real" - o Porco - deixava de ser "selvagem" a vadiar por vales e montes, tornando-se um "bichinho d'estimação", mas continuando a viver fora de currais, deambulando por ruas e caminhos, grunhindo e fossando livremente, ao ponto das autoridades locais terem de impor determinadas restrições a tamanhas liberdades suínas... reduzindo-as primeiramente a certos períodos do ano, e permitindo seguidamente que os porcos andassem à solta apenas em certos caminhos.

Aparentemente, a esse tempo, era duma "grande porcaria"o aspecto das ruas locais e o estado dos caminhos da ilha. Disto dá-nos testemunho John W. Webster, professor de química e mineralogia na Universidade de Harvard (U.S.A.), que residiu em S. Miguel durante largos meses, entre 1817 e 1818, tendo publicado em Boston em 1821 um livro, de grande interesse e préstimo, ao título "A Description of the Island of St. Michael", cuja tradução em português está patente no Volu-me XIII do "Arquivo dos Açores".

Informa-nos o viajante norte-americano que "as ruas são estreitas, mal calçadas, e extremamente imundas, sendo infestadas por porcos dum grande tamanho, através da multidão dos quais é muitas vezes difícil caminhar; sendo coisa comum vê-los espojar-se a cada canto, e dormir nas soleiras das portas de quase todas as casas".

Consequentemente, não era apenas a conservação das ruas e caminhos, mas também o respectivo asseio e higiene, que entrou a preocupar os mu-nicípios locais. A este respeito, o saudoso vilafranquense Dr. Urbano de Mendonça Dias (1878-1951) fornece-nos preciosas informações no primeiro volume da série "A Vida de Nossos Avós"... um total de nove volumes impressos na Tipografia de "A Crença" entre 1944 e 1948.

Por falta de espaço, não pretendo alongar-me neste sentido. No entanto, tenciono agora intercalar aqui uma ocorrência passada em meados do século XIX, e narrada pelo Dr. Urbano no quarto volume da série supra-mencionada. Ei-la resumidamente:

Nas eleições p'rá Câmara Municipal de Vila Franca venceu uma vereação que, imediatamente, decidiu proibir (sem excepção) a vadeação de porcos e galinhas p'las ruas. Aquilo foi um autêntico "fim do mundo", como se diz na gíria popular. De facto, ouviram-se vozes indignadas a berrar: "Eh, sinhors, intances c'ma é qu'a gente vamos criar os bichinhes?!"

No meio de tudo isto, o partido político da oposição rejubilava com o falatório inflamado do povo e tirava todo o proveito p'ra futuras campanhas. Passaram-se os tempos, e assim que a vereação da higiene terminou o seu mandato, perdeu igualmente o retorno ao exercício das funções administrativas. Como era de prever, a nossa vereação eleita a primeira coisa que fez foi declarar: "Galinhas p'rá rua, porcos p'rá rua, tudo cá p'ra fora!"

Ah, fácil de imaginar, aquilo foi um delírio indescritível. Pois Alevá!

E a fechar, algumas amostras do adagiário popular: "Porcos com frio e homem com vinho, fazem grande ruído; A porco gordo unta-se-lhe o rabo; Ao porco e ao genro mostra-lhe a casa e virá cedo; Não é em pia grande que o porco come à vontade; De rabo de porco, nunca bom virote; Porco rabão nunca enganou o patrão; Porco de um ano, cabrito de um mês e mulheres dos dezoito aos vinte e três".



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Toronto,
22/Março/2004
Edição 822
ANO XXV

 
      Por
Ferreira Moreno

   


 

 

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