LEIA
 » NÃO SOMOS
   OS ÚNICOS
 » A RESPEITO
   DUM REGRESSO
 » LIBERAIS PREJUDICAM
   PROGRAMAS
   DE APRENDIZAGEM
 » Imposto Liberal
   Ameaça
   os Mais Pobres
 » BAILE NO
   ASAS DO ATLÂNTICO
 » Bretanha recupera
   o seu património
 » EM OFF
 » Paul da Praia
   da Vitória
   contaminado
   com chumbo
 » Arte e sabor
   das ilhas para todos
 » "Açores Moda 2004"
 » CRÓNICA PICOENSE
 » Edições Anteriores
 
NÃO SOMOS OS ÚNICOS

Os leitores habituais desta coluna, estarão lembrados, que com frequência me refiro à crise que atravessam as associações, clubes e outras colectividades na comunidade luso-canadiana, a qual se manifesta na dificuldade de recrutar dirigentes, na diminuição na assistência a certas actividades recreativas e culturais e no afastamento dos jovens.

Também estarão recordados com o meu desapontamento com a forma como foi estruturado o encontro organizado pela Secretaria de Estado das Comunidades, uma actividade merecedora da nossa atenção e louvor, mas em que os supostos peritos vindos de Portugal, nada contribuiram para o esclarecimento deste assunto, tão importante para a preservação da cultura portuguesa no Canadá.

Hoje, iremos abordar um outro aspecto desta crise, o qual nos deverá ajudar a compreender o que se está a passar na comunidade luso-canadiana.

Dizia o meu amigo e colega destas lidas comunitárias e associativas, Walter Lopes, hoje parcialmente retirado, uma das pessoas que na minha opinião tem ao longo dos anos feito uma das melhores análises da nossa comunidade, que o que se passa entre nós é em certa medida semelhante ao que acontece na comunidade canadiana em geral, aqueles a quem a nossa gente chama os "canadianos", esquecendo que afinal canadianos somos todos nós, os que vivemos, trabalhamos e pagamos impostos nesta terra. Na realidade, esta pequena "cidade portuguesa implantada", no Canadá, que é a comunidade luso-canadiana tem em certa medida os mesmos problemas e funciona de maneira semelhante, à do resto da população deste país. Acrescentarei, que à medida que os anos vão passando, nos tornamos cada vez mais semelhan-tes ao resto da população e que desde o gosto por essa brutalidade a que alguns teimam em chamar desporto, chamada hóquei sobre o gelo, até viver encafuados nos "basements", em vez de disfrutar as casas que ganhamos com o suor do nosso rosto, passando por muitos hábitos positivos tais como não deitar lixo para o chão, abrir as portas às outras pessoas, guiar com mais cuidado, apanhar os cocós que os nossos cães fazem na rua, gastar dinheiro em "showers", fazer "barbeques" e ter relvados muito bonitos no Verão e tantas outras coisas, "canadianas" que são hoje parte da nossa vida. Aliás, seria interessante fazer uma lista de coisas, que nós luso-canadianos temos ou fazemos, que não existiriam se vivessemos em Portugal.

Um estudo recente, por um professor da Universidade de Carleton em Otava, chamado Paul Reed, mencionado num artigo do Globe and Mail por Roy MacGregor, chama a atenção para um problema na comunidade canadiana em geral, semelhante ao que existe entre os luso-canadianos - o número de voluntários, aqueles carolas, que trabalham gratuitamente para ajudar a sociedade, está a diminuir.

Como é sabido, no Canadá abundam organizações de beneficiência políticas, religiosas, recreativas e culturais que dependem do trabalho voluntário. Associações de veteranos das guerras do passado, as chamadas "Legions", estão espalhadas por todo o país assim como numerosos grupos culturais e desportivos. Organizações como a Diabetic Association (Associação das Diabetes), Cancer Society (Sociedade do Cancro), Heart and Stroke Foundation (Fundação das doenças do coração e circulação), Canadian Blind Society (Sociedade dos Cegos) são apenas algumas das centenas ou milhares de organizações de beneficiência que existem neste país, que dependem de voluntários. Segundo Paul Reed um em quatro canadianos participa em certa forma de trabalho voluntário, mesmo simples como ajudar uma equipa de futebol juvenil. Eu próprio pertenço a um clube de cicloturismo amador, com alguns milhares de membros, o Toronto Bicycle Network, ao qual me tenho referido muitas vezes, não contando claro com meia dúzia de organizações luso-canadianas.

Voltando porém ao estudo do Dr. Paul Reed, direi que este sociólogo nos dá más notícias no que se refere ao voluntarismo no país em que vivemos. Num estudo com a cooperação de Kevin Selbee da "Statistics Canada" (Instituto Nacional de Estatística do Canadá), Paul Reed descobriu que nos últimos dois anos e meio, houve uma queda de 7% no número de voluntários. Segundo este estudo, o número de voluntários está neste momento a desaparecer à média de 3% ao ano. É caso para dizer que se o leitor, notar que este ano existem 3% menos de pessoas a ajudar no seu clube, associação, paróquia, filarmónica, grupo folclórico ou outra associação dependente de voluntarismo não se admire, porque como dizia o meu amigo Walter Lopes, que cito no princípio deste artigo, o que se passa entre os luso-canadianos é semelhante ao que acontece na sociedade em geral.

Paul Reed procura no seu trabalho analisar as causas dessa queda no voluntarismo, que mais uma vez mostram o que se está a passar entre os "canadianos", é semelhante ao que acontece entre os "luso-canadianos".

Na opinião deste autor, uma das causas é o cepticismo das pessoas, que deixaram de acreditar na utilidade das obras em que estão envolvidos. Pes-soalmente, acho que mais que cepticismo, outro factor semelhante tem um papel importante - egoísmo. Na realidade vivemos numa sociedade em que cada vez mais as pessoas apenas se interessam por elas e se esquecem dos outros. Não é por acaso que muitos desses programas na televisão chamados "reality shows", são competições repugnantes, em que as pessoas procuram prejudicar-se umas às outras, usando a lei da selva em que o mais forte ou com menos escrúpulos e moral, vence.

Outro factor mencionado por Paul Reed é que muita gente pensa, porque paga impostos, que na opinião deles são elevados, não precisam de ajudar a sociedade. Uma vez que pagam acham que não precisam de colaborar, uma atitude semelhante àqueles luso-canadianos que frequentam actividades na nossa comunidade e que porque pagam um bilhete, recusam-se a ajudar e muitas vezes se comportam de forma autoritária e até malcreada, esquecendo-se que sem a ajuda de voluntários, o espectáculo ou outra actividade que estão a disfrutar, seria ou muito mais cara ou até não existiria. Não é a primeira vez que vejo compatriotas nossos, chegarem ao bar ou restaurante dum clube ou associação portuguesa e tratarem mal pessoas que lá estão a trabalhar voluntáriamente e portanto a fazer-lhes um favor.

A MINHA TEORIA

Fiquei contente ao saber que o Sr. Paul Reed, que é um sociólogo e académico, descobriu que afinal, aquilo que se passa na comunidade em geral, é semelhante ao que acontece entre os luso-canadianos - sempre ajuda sabermos que não somos os únicos a sofrer dum problema.

É porém minha opinião, que a crise do voluntarismo é também causada pelo "consumismo", que existe na nossa sociedade. Bombardeados a toda a hora na televisão, rádio, jornais, panfletos, cartazes, e até com telefonemas feitos para a nossa casa, com a promoção dos mais variados produtos que precisamos de comprar a fim de sermos felizes, mais novos, bonitos, saudáveis, felizes, poderosos, e melhores do que o vizinho do lado, não temos tempo para nos dedicarmos ao trabalho voluntário.

Afim de ter dinheiro para comprar tudo aquilo a que a "lavagem ao cérebro" que nos fazem nesta sociedade, diz que é necessário, as pessoas trabalham longas horas e têm dois ou até três empregos. Alguns, poderão necessitar desses trabalhos para sobreviver, mas estudos e o bom senso mostram que uma grande parte da população vive acima das suas possibilidades e gasta excessivamente. Ninguém necessita de usar um par de sapatos de lona, os famosos running shoes, que custam 100 ou 200 dólares... Ainda há pouco tempo, uma pessoa dizia-me que tinha oferecido a um filho dinheiro para o down payment (pagamento inicial), dum desses monstros chamados SUV's. Segundo o pai, o jovem estava muito desgostoso, porque não podia comprar este tipo de automóvel, que além de perigoso, produz poluição e destrói o ambiente, custando a módica quantia de 27.000 dólares. O pobre pai, que juntou ao longo dos anos algum dinheiro com o esforço do seu trabalho, julgava que a forma de mostrar amor ao filho era ajudá-lo a comprar semelhante monstruosidade. Como me dizia o nosso compatriota o seu filho até tinha lágrimas nos olhos por não poder comprar semelhante carro! Carros caros (às vezes um para cada membro da família), casas enormes, roupas de marcas, casamentos sumptuosos, aparelhagens eléctricas de preços elevados e tantos excessos promovidos pela sociedade do consumismo, levam muita gente a trabalhar de maneira excessiva, não lhe tendo tempo para a família, ou para envolver-se em actividades voluntárias, desportivas, culturais ou pura e simplesmente não fazer nada.

Não é de admirar, que numa população cada vez mais obcecada com o consumismo e o gastar em coisas inúteis, não sobeje tempo para o trabalho voluntário.

Sejam qual fôr as causas, para a descida no número de pessoas que se dedicam ao trabalho voluntário, não há dúvida, que isto não é um problema limitado à comunidade luso-canadiana, mas que atinge toda a população do Canadá.

Sabermos que afinal estamos todos a sofrer da mesma crise, dar-nos-á uma ajuda a perceber o que se está a passar e talvez, a encontrar uma solução para este problema, que poderá vir eventualmente a impedir a preservação da cultura portuguesa no Canadá.



Copyright © 2004, VOICE Luso Canadian Newspaper Ltd. First Luso Canadian Paper to Jump on the Net! For more information contact [email protected]

 
Toronto,
19/Abril/2004
Edição 826
ANO XXV

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

  Desenvolvimento - AW ART WORK