LEIA
 » VIVA DAVENPORT ...
 » ALCUNHAS, CANTIGAS
   & COMENTÁRIOS
 » SOS de HAMPTON
 » Santo Cristo
 » Banif premiado
   em Minas Gerais
 » BAILE NO SPORTING
   P. DE TORONTO
 » Cientista Português
    galardoado
 » EM OFF
 » CRÓNICA PICOENSE
 » Edições Anteriores
 

Florentina tinha o filho na guerra mas não tinha notícias dele

Santo Cristo
fez tocar o telefone… do Iraque

Há promessas que são milagres de fé. Nos quatro cantos do mundo. Neste caso das Flores ao Iraque. Uma florentina chegou ontem a São Miguel, vinda da América, para agradecer ao Senhor Santo Cristo… um toque de telefone, precisamente quando, nos EUA, via a procissão do Senhor. Era o filho que estava no Iraque e de quem não tinha notícias há tempos. Um toque de telefone com notícias de vida que hoje transforma em lágrimas e oração de promessa cumprida. Verdadeiros milagres do tempo de hoje.

Fátima Medeiros esteve três meses sem saber do filho. Sabia que ele estava na guerra e que estava no Iraque mas há muito tempo que não tinha notícias dele nem sabia se estava vivo ou se estaria morto ou simplesmente desaparecido. Recorda que "sentia uma grande angústia e levava todo o dia a pensar nisso, até mal dormia só de pensar onde ele estaria e como estaria".

Há um ano atrás estava a ver a procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres na televisão, na América, quando o telefone tocou… era o filho a dar notícias.

Depois de três longos e dolorosos meses, em que Fátima andou sempre com o coração nas mãos por não ter notícias do filho, este telefonema foi recebido com grande alegria pela família, embora no fundo e como mãe ela sentisse que ele estava vivo e que estava bem.

Quando receberam o telefonema e as primeiras notícias dele, tanto ela como o marido ficaram chocados e emocionados, mais ainda com a coincidência de estarem a ver a procissão quando isso aconteceu. Resolveram assim vir às festas para agradecer ao Senhor Santo Cristo dos Milagres e cumprir a promessa feita.

Acha mesmo que o facto de o filho lhes ter ligado a dar notícias no domingo das festas do Senhor Santo Cristo e na hora da procissão quando estavam a vê-la na televisão "tem um significado muito forte e muito especial, por isso só pode ter sido um milagre".

Faz agora em Junho um ano que este 'pesadelo' terminou para esta família, quando finalmente o filho regressou a casa são e salvo. Entre o primeiro telefonema e o tão esperado regresso continuaram sempre a ter notícias dele, "sobretudo por carta e não tanto por telefone, uma vez que no sítio onde ele estava e porque estava num país em guerra era tudo mais complicado, até mesmo para darem notícias aos familiares", explica a mãe.

Fátima relembra que todos os dias via as notícias na televisão para saber o que se passava no Iraque e se por acaso o filho aparecia no écran. Diz ela que "via as notícias em português, em inglês, em espanhol e até em italiano, chegava a ver as mesmas notícias várias vezes no mesmo dia e estava sempre à espera que o meu filho aparecesse, às vezes até parecia que o tinha visto mas era a minha imaginação e a preocupação de mãe".

Este é o único filho do casal Medeiros, tem agora 22 anos mas saiu de casa pela primeira vez aos 17 anos de idade quando foi para a tropa. Esteve na Carolina do Norte e na Carolina do Sul, depois foi para a Califórnia, esteve seis meses no Iraque, regressou à América e ainda esteve mais um mês na California. Finalmente, em Junho de 2003 voltou para casa, por sinal um mês mais cedo do que estava previsto e daquilo que estavam à espera, conta a sua mãe.

Foi na véspera das festas do Divino Espírito Santo que o filho lhes ligou a dizer que já estava na Califórnia e que estava quase em casa, "o que nos deixou muito felizes porque não fazíamos conta dessa surpresa nem de mais essa boa notícia".

Conta que o filho estava na Marinha e que ainda faltava algum tempo para este terminar o serviço militar quando foi chamado a ir para o Iraque, só que depois disso acontecer e depois dele ir para lá nunca mais tinham sabido dele. Sabiam apenas que ele estava para lá mas nada mais sabiam, nem por onde ele andava nem o que era feito dele.

"Foram três longos e aflitivos meses sem ter notícias do meu filho", relembra. Já depois de falar com ele ao telefone e mesmo que não tenham falado muito tempo "fiquei mais descansada e aliviada depois de ter ouvido a voz dele e saber que ele estava realmente bem".

Desse tempo, diz que "foi um tempo muito amargo como deve ser para todas as mães que têm os seus filhos na guerra, em situações destas e em locais como o Iraque". Fátima Medeiros espera e acha que o Senhor Santo Cristo dos Milagres vai ajudar todas as mães e todos os filhos, protegendo-os e ajudando-os no seu dia a dia, dando-lhe sempre força e esperança.

Acrescenta que fez a sua promessa num momento de aflição - o que certamente acontecerá com todas as pessoas que o fazem - e reconhece que "agora estou mais calma, mais serena e mais feliz", por isso "vim às festas para agradecer ao Senhor por ele ter trazido o meu filho são e salvo, o que para mim é o mais importante".

Devota e crente no Senhor Santo Cristo, confessa que também gosta muito do Divino Espírito Santo e adianta que este ano pretende dar esmolas às pessoas mais pobres da sua freguesia, em sinal de agradecimento por tudo isto.

Natural da freguesia da Lomba na ilha das Flores, Fátima Medeiros emigrou há 27 anos atrás para a América à procura de uma vida melhor. Este ano veio pela primeira vez às festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, por causa da promessa que fez num momento de aflição depois de ter ficado três meses sem ter notícias do filho que estava no Iraque.

Esta é a primeira vez que vem a estas festas, já que até agora apenas as tinha visto e acompanhado à distância pela televisão. Desde sempre que se lembra de ouvir falar das festas em honra de Santo Cristo e da multidão de crentes que este arrasta. Na América, esta é uma festa que tem um grande significado para todos os emigrantes que costumam acompanhá-la na televisão pois nem todos podem vir cá e participar nelas todos os anos, além de que também fazem essa festa lá. A esse respeito considera ainda que "cada um tem a sua fé e vive tudo isto de uma maneira muito própria".

Fátima foi ver a mudança da imagem no sábado e ontem integrou a procissão, na qual foi descalça conforme prometido, além de também ir à missa e rezar ao Senhor Santo Cristo. Chegou sábado de madrugada da América, participou nas festas durante o fim-de-semana e segunda-feira vai para as Flores, onde vai ficar durante três semanas para matar saudades e rever familiares e amigos.

Desde que emigrou há 27 anos atrás, tem ido à sua ilha sempre que pode e com alguma frequência. Esteve lá há três anos atrás e como já nessa altura o filho estava na tropa foi apenas com o marido, mas agora vieram todos para as festas e também vão todos para as Flores. Fátima diz que nota muita diferença sempre que passa por cá, "especialmente em São Miguel porque a minha ilha é mais pequena e está mais afastada por isso as coisas demoram mais tempo a chegar, bem como o progresso e desenvolvimento da mesma". Apesar disso, não hesita ao afirmar que "é sempre bom voltar às raízes".

"Correio dos Açores"


Copyright © 2004, VOICE Luso Canadian Newspaper Ltd. First Luso Canadian Paper to Jump on the Net! For more information contact [email protected]
 
Toronto,
17/maio/2004
Edição 830
ANO XXV

    Por Sara Nóia
   

 

 

  Desenvolvimento - AW ART WORK