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13 de maio O dia seguinte
Mulata ou mulato é um termo degradante, tem a ver com mula, altamente preconceituoso e faz parte do ideário racista machista. Não me interessa essa história da beleza da ''raça morena'', eu quero é emprego, respeito, educação, saúde e dignidade social para o negro. Será que é pedir muito!!!

Desde 1539, quando se iniciou a descarga dos negros escravos no Brasil Colonial, muita coisa mudou; porém, muito pouco foi feito aos escravos libertados ou abolidos, pois, aos mesmos, foi somente aberta a porteira.

Para entendermos melhor, voltemos no tempo ou às origens do problema, onde os negros na África eram caçados como animais e como tal viajavam até o Brasil. Só que aqui chegando, por exemplo: o pai era vendido no Rio de Janeiro, a mãe em São Paulo e os filhos em Minas Gerais ou na Bahia. Com isso, estava dissolvida a estrutura familiar, inclusive no sentido cultural, sócio-político e religioso.

Portanto, nossas dificuldades até os dias atuais são reflexos de todo esse processo vergonhoso. Da maneira como se procedeu à abolição, gerou-se um quadro social que persistiu longamente no País. Libertaram os escravos sem que se dessem meios a sua emancipação econômica.

Os escravos deveriam receber uma pequena área de terra para cultivar, incluindo pensões aos velhos e doentes. Essa fórmula deveria dar amparo aos escravos livres, porém, foi completamente abandonada após a abolição do dia 13 de maio de 1888.

Nada disso foi feito, não houve entrega de terra, nem se providenciou curso profissionalizante ou de educação primária. Substituiu-se, apenas, o escravo pelo trabalhador assalariado ou pelo colonizador europeu.

É preciso, embora um pouco tarde, abrir a todos nós brasileiros as porteiras da igualdade, da integração, da consciência e da oportunidade. Entretanto, esses fatores são apenas partes de um processo, em que para o entendimento e, às vezes, a compreensão humana, torna-se quase impossível, até mesmo para os negros e seus descendentes.

Por outro lado, é preciso dizer também, que os intelectuais brasileiros precisam fazer um exame de consciência e parar de, parcialmente, criticar as iniciativas dos movimentos negros, sem contudo estarem a par do que vai na formulação teórica e prática desses movimentos sociais. Existe um descaso, senão um preconceito por parte de certos intelectuais em ler a produção negra, nacional e internacional. Por isso não se atualizam e criticam, deslocados e desinformados, dos propósitos da raça negra .

Por mais de um século vem existindo movimentos contra os preconceitos, as discriminações e as injustiças, focadas contra os descendentes de africanos. Durante longos períodos, no sentido da eliminação desses preconceitos, fazem-se apelos à solidariedade dos diversos setores progressistas da sociedade, sobretudo os ditos da esquerda, que sempre negaram, minimizaram ou invalidaram as ações de protesto e reivindicações, frente uma realidade que para o negro é concreta.

E o que é concreto? Concreto são os conceitos amplamente difundidos que inferiorizam todos os afrodescendentes, sejam denominados negros, pardos ou mestiços. Qual o resultado das inferiorizações? Pois bem, vá um negro com diploma universitário pedir emprego como balconista num dos shoppings centers. Não conseguirá, não faz parte do padrão branco ou próximo do exigido. Para os que negam essa evidência e dizem que o país é mestiço e lindo, que fiquem com a lindeza, pois o negro tem ficado com as privações, as ofensas, os insultos. Não venham me dizer que o negro não é ofendido no cotidiano. Por favor não insistam no modelo que você até tem um amigo negro, e que ele até é bem tratado, que é como se fosse da família. No Brasil têm pessoas que consideram até o cachorro como membro direto da família. Ser da família não representa ter adquirido os direitos de equidade social que dignifica o ser humano e garante um bem estar social.

Sim, os brancos pobres, eles são sempre postos na discussão para minimizar os efeitos das desigualdades sociais por nós apontados. Eles também são parte da injustiça, são sócios naturais sob o sistema de dominação implantado neste país. Mas isto não invalida nem atenua a existência de um sistema de desprestígios e de intolerâncias sociais contra os descendentes de africanos. É esse conjunto de evidências que a esquerda, dos quais o movimento negro tenta fazer parte, mas sem deixar a negritude à parte, tem por questões ideológicas tentado negar. Negando, se associa a outros conservadores que impõem uma dominação ideológica dos significados das representações sociais da negritude. Problemas que os intelectuais brasileiros na sua maioria permanecem alheios.

O conceito de raças humanas não é utilizado pelos movimentos negros. A raça biológica está ultrapassada e desconstruída pela ciência e , o movimento negro, já a superou. A consciência negra é um discurso político, de grupo social e histórico negado e oprimido. Tendo essa compreensão, já superamos há muito tempo se tem gotas de sangue, se é ou não mestiço. No entanto, criticamos a ideologia da mestiçagem, naquilo que ela faz de um fato biológico de toda a humanidade, um recorte para justificar a bondade e igualdade social dos brasileiros. Mestiço ou não na percepção social, os apresentadores de televisão são preferidos, no Brasil, pelos seus cabelos loiros, pintados ou não, alisados ou não. Isto é negação do Brasil. Como resposta, temos a consciência negra que independe da cor e da origem étnica dos atores.

Mulata ou mulato é um termo degradante, tem a ver com mula, altamente preconceituoso e faz parte do ideário racista machista. Não me interessa essa história da beleza da ''raça morena'', eu quero é emprego, respeito, educação, saúde e dignidade social para o negro.

Será que é pedir muito!!!

* Paulo J. Rafael é jornalista, professor universitário e doutorando em Ciências Políticas e Administração Pública pela AWU- American World University of Iowa, EUA.



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Toronto,
17/maio/2004
Edição 830
ANO XXV

   
   
    * Paulo J. Rafael
   Direto do Brasil
   

 

 

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