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INJUSTO, IMORAL E MAIS CARO

Muita gente pensa que a medicina feita com fins lucrativos, (for-profit) é injusta e imoral, estudos feitos no Canadá mostram que ela é também menos eficiente e mais cara.

Os doutores Steffie Woodlhander e David Himmelstein, dois médicos americanos da famosa universidade de Harvard, escreveram numa das mais prestigiosas publicações médicas do mundo, o New England Journal of Medicine, referindo-se à medicina com fins lucrativos que há coisas nesta vida que são importantes demais, para poderem ser entregues às forças do mercado e transformadas num negócio como qualquer outro. Assim, numa sociedade moderna, nós não compramos mulheres para casar ou rins e outros órgãos para transplantar. Também muitas pessoas, e eu sou uma delas, estão de acordo com estes dois médicos e pensam que o lucro não deve ter lugar na medicina.

Vem isto a propósito de dois artigos publicados no Canadian Medical Journal, (CMJA) o Jornal da Associação Médica Canadiana, por sinal uma organização um bocado conservadora, sobre a questão da medicina privada e feita com a intenção de obter lucro (for-profit). Os artigos em questão, foram um comentário escrito pelos médicos americanos a que me refiro no princípio deste artigo, os Dr.'s Woolhander e Himmelstein e um estudo feito por um grupo canadiano, dirigido pelo Dr. P. J. Devereaux. Em plena época eleitoral, é este um assunto que nos deve interessar a todos e que ocupou a atenção pelo menos de dois jornais diários de Toronto, o Globe and Mail e o Toronto Star. Se interessa a estas prestigiosas publicações também deve merecer a nossa atenção.

Até agora, os hospitais no Canadá, são instituições públicas, pagas pelo governo e não existem neste país organizações hospitalares do tipo a que chamam em inglês "for-profit" (para lucro ou comerciais).

No entanto, várias clínicas destinadas a efectuar certos actos cirúrgicos, como operações às cataratas, hérnias, próteses para joelhos e ancas, começam lentamente a aparecer por esse país fora, especialmente na British Columbia, autorizadas por um governo que se chama Liberal mas é da extrema direita e em Alberta sobre os auspícios do Sr. Ralph Klein do partido conservador.

O actual líder do partido conservador Stephen Harper, durante os anos que esteve na Aliança partido hoje extinto por ter absorvido o antigo Partido Conservador, e numa organização ainda mais à direita a "Coligação dos Cidadãos", mostrou sempre grande entusiasmo por este tipo de medicina comercial. Mesmo dentro do presente governo liberal, alguns deputados e ministros como o Sr. Stéphane Dion, mostraram simpatia, por este sistema. Claro que com o decorrer da campanha eleitoral quase toda a gente está a virar o bico ao prego, e a negar o seu interesse pela medicina feita para lucro, mas é importante que saibamos o que se passa com o nosso sistema de saúde não só antes de colocarmos o nosso voto na urna mas também depois das eleições e para defender daqueles que querem fazer dos hospitais um negócio. É preciso que estejamos atentos ao perigo da medicina privada. Como escrevem os Doutores Woollhandler e Himmelstein, dois americanos que nos estão a avisar dos perigos da privatização da saúde, parafraseando uma frase famosa do passado quando a civilização romana estava ameaçada pelos bárbaros, nessa altura às portas de Roma, "The for profit barbarians are at the gates" (os bárbaros do lucro estão às nossas portas).

Como é sabido, as grandes empresas americanas dedicadas ao negócio da saúde são hoje a segunda força económica do seu país e estão a espalhar-se pelo mundo fora tendo construído hospitais privados em dezenas de países tais como Inglaterra, França, Brasil, Tailândia e até Portugal. Como um mercado de mais de 30 milhões de pessoas, num país que pertence ao G7 (as sete ecónomias mais fortes do mundo), como o Canadá, não admira que os "bárbaros" da medicina comercial, estejam prontos a entrar as nossas portas e estabelecer negócios aqui. O dinheiro que possuem e o seu poder para estabelecer "lobbies", não podem ser menosprezados. É necessário que estejamos atentos e que antes e depois das eleições - seja qual fôr o partido que as vença - continuemos a lutar pela defesa do nosso sistema médico.

Infelizmente, embora no Canadá e nos Estados Unidos existam muitos médicos, principalmente ligados às universidades que estão dispostos a lutar contra a medicina privada, também há um grande número de pessoas na profissão, que têm simpatia pela medicina orientada pelo lucro. Talvez tenha influência o facto, de que a média de rendimento dos médicos americanos, é superior ao dobro da dos seus colegas canadianos...

UM ESTUDO IMPORTANTE

O estudo a que me refiro, publicado na semana passada por um grupo de 19 médicos, pertencentes às Faculdades de Medicina de McMaster em Hamilton, e das universidades de Toronto, London, Otava, Vancouver e Buffalo nos Estados Unidos. Publi-cado como disse no Jornal da Associação Médica Canadiana (CMJA) foi encabeçada pelo Dr. P. J. Devereaux da Universidade de McMaster em Hamilton.

O estudo usou mais de 350.000 doentes em 324 hospitais nos Estados Unidos, tendo demonstrado que o tratamento privado saía mais caro em cerca de 19%. Também num estudo prévio, publicado em 2002 no mesmo jornal da Associação Médica Canadiana o grupo dirigido pelo Dr. Devereaux tinha demonstrado que os hospitais privados tinham uma mortalidade mais alta, isto é o serviço custava mais caro e era pior.

No número do CMJA. a que me refiro, publicado na semana passada, noutro artigo os Doutores Woodlhander e Himmelstein da universidade americana de Harvard, demonstraram os preços nos hospitais privados, eram 19% mais caros. Dizem eles que os 37 biliões de dólares americanos, que os americanos pagaram aos hospitais privados poderiam ter sido reduzidos para 31 biliões, se esse país tivesse um sistema semelhante ao canadiano.

Também analisam, porque é que como aliás seria de esperar, os custos na medicina privada são superiores. Nesses hospitais, a orientação é como era de esperar aumentar o lucro. Eles pertencem a grandes companhias, como a Colum-bia/HCA, que esteve envolvida em fraude e que foi multada pelo governo dos Estados Unidos em 1,7 biliões de dólares, e a TENET, que também teve de pagar 500.000 dólares por vigarizar o estado americano, mantendo doentes psiquiátricos internados desnecessáriamente, acabando por mais tarde ter de pagar uma indemnização de 22,5 milhões de dólares americanos.

Essas companhias e outras semelhantes, são dirigidas por administradores que ganham ordenados fabulosos, como é o caso do sujeito que dirigia uma das maiores empresas de saúde dos Estados Unidos a Health-South que ganhou de ordenado e outras regalias 112 milhões de dólares americanos em 2002 e foi para o tribunal por fraude em 2003.

Também segundo os dois médicos americanos que estou a citar, os doutores Woodlhander e Himmelstein, a qualidade de tratamento apesar dos custos mais elevados, era muito pior no sistema privado.

Baseado nos artigos do CMJA que estou a citar tudo leva a crer, que introduzindo a medicina privada no sistema médico canadiano, o custo com a saúde neste país aumentaria de 7,2 biliões por ano.

Uma vez que os hospitais privados têm uma mortalidade mais alta, isto é morrem mais pessoas, os estudos do Dr. Deveraux que estou a citar, levaram à conclusão que 2.200 mais canadianos iriam morrer num ano, se os nossos hospitais forem tornados em instituições privadas dominadas pelo lucro.

CONCLUINDO

É preciso votar, mas para o fazer, estar bem informado. Os problemas de saúde, interessam a toda a gente - todos pagamos por eles, todos podemos vir a precisar deles.

Os dois artigos publicados na semana passada no CMJA, devem servir para nos informar, estimular o debate e ajudar-nos a tomar uma decisão que vá não só afectar a forma como vamos votar, mas a nossa participação na vida política deste país, depois das eleições.

Um cidadão não precisa só de votar, precisa também de estar informado.



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Toronto,
14/Junho/2004
Edição 834
ANO XXV

 

   
     Escreveu
    Dr. M. Tomás Ferreira

   

   


 

 

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